Prosa@Poesia

A arte

Onestaldo de Pennafort Publicado em 10.09.2015

Tradução para L´Art, de Théophile Gautier, este poema está entre outras versões em Sob a Vinha Alheia (1925-1931), respeitando a métrica, as aliterações e as rimas do original. Em tempos de ebulição modernista, o poeta Onestaldo de Pennafort, conhecido por seu timbre simbolista e impressionista, até parnasiano, recorre aos clássicos, referenciais de tudo que veio depois, como o auto-afirmado romântico Gautier.

Sim, a obra sai mais bela
do árduo trabalho adverso,
       seja ela
mármore, esmalte ou verso.

 

A afetação recusa!
Para andares direito,
        ó Musa,
calça um coturno estreito.

 

Foge ao ritmo usado
que, de tão cômodo, é
       calçado
que serve em qualquer pé.

 

Deixa a argila, estatuário,
que entre os dedos esmagas,
       se, vário,
com o espírito divagas.

 

E luta com o carrara
e o páros – pedra dura
       e rara
em que a forma se apura.

 

Ou toma a Siracusa
seu bronze em que, flagrante,
       se acusa
o heril traço elegante.

 

E que num veio de ônix
por tua mão sutil
       se fixe
o apolíneo perfil.

 

Pintor, foge a aquatinta
e fixa, antes, a cor,
      qual pinta,
com o fogo, o esmaltador.

 

Faze a glauca sereia
que a cauda em contorções
       meneia
e os monstros dos brasões;

 

no seu nimbo trilobo,
a Virgem e o Jesus;
      o globo
tendo por cima a cruz.

 

Tudo passa. A arte é eterna,
se autêntica, em verdade.
       A herma
sobrevive à cidade.

 

E a medalha enterrada
que pelo lavrador
        é achada
mostra um imperador.

 

Nem mesmo os deuses duram;
porém, quando são tersos,
       penduram,
mais do que o bronze, os versos.

 

Cinzela, esculpe, lima;
que o sonho evanescente
        se imprima
no bloco resistente!


Livro: Poesia
Autor: Onestaldo de Pennafort
Editora: Record
Rio de Janeiro, 1987

 

Théophile GAUTIER   (1811-1872)

L'art

Oui, l'oeuvre sort plus belle
D'une forme au travail
Rebelle,
Vers, marbre, onyx, émail.

Point de contraintes fausses !
Mais que pour marcher droit
Tu chausses,
Muse, un cothurne étroit.

Fi du rhythme commode,
Comme un soulier trop grand,
Du mode
Que tout pied quitte et prend !

Statuaire, repousse
L'argile que pétrit
Le pouce
Quand flotte ailleurs l'esprit :

Lutte avec le carrare,
Avec le paros dur
Et rare,
Gardiens du contour pur ;

Emprunte à Syracuse
Son bronze où fermement
S'accuse
Le trait fier et charmant ;

D'une main délicate
Poursuis dans un filon
D'agate
Le profil d'Apollon.

Peintre, fuis l'aquarelle,
Et fixe la couleur
Trop frêle
Au four de l'émailleur.

Fais les sirènes bleues,
Tordant de cent façons
Leurs queues,
Les monstres des blasons ;

Dans son nimbe trilobe
La Vierge et son Jésus,
Le globe
Avec la croix dessus.

Tout passe. - L'art robuste
Seul a l'éternité.
Le buste
Survit à la cité.

Et la médaille austère
Que trouve un laboureur
Sous terre
Révèle un empereur.

Les dieux eux-mêmes meurent,
Mais les vers souverains
Demeurent
Plus forts que les airains.

Sculpte, lime, cisèle ;
Que ton rêve flottant
Se scelle
Dans le bloc résistant !