Prosa@Poesia

Horizonte cerrado* 3: O poema e a mercadoria

Alexandre Pilati Publicado em 24.06.2014

A lógica da mercadoria, portanto, é o esvaziamento da consistência propriamente humana das relações sociais. A cidade grande, como habitat natural do espetáculo fetichista, é o teatro perfeito para o recrudescimento desse exaurir humano em prol da mercadoria.

Cena do "documentário musical" Surplus, sobre consumismo, com cena de fábrica de bonecos sexuais ao gosto do cliente.

Um poema proporciona ao leitor uma perspectiva aguda da realidade, porque não carrega de modo imediato o mundo para o texto. O poeta transforma os fatos do mundo em fatos de linguagem que têm a ver, por exemplo, com a tradição literária, com a língua e com influxos subjetivos do autor do texto. Sendo, pois, apenas linguagem o poema é intensificação de um olhar sobre o mundo; um olhar que é produzido dinamicamente no trabalho da linguagem sobre o mundo; um olhar que considera como elementos decisivos o leitor e o autor.

Nesse sentido, um poema é também um aceno do autor em direção ao leitor, um desejo condensadíssimo de empatia real, que considera a posição de cada um dos dois polos da situação de produção da leitura no fulcro de contradições da existência social. Penso nessa concepção de poesia após a leitura de um belo poema de Heitor Ferraz Mello, publicado em seu livro Um a menos (7letras, 2009)(1) . Como o poema não é longo, gostaria de propor aqui a sua leitura e uma breve discussão de alguns aspectos de sua consistência poética. Ei-lo:

É uma tampa de panela

o céu baixo

sobre a fachada

do supermercado

Caminho sem crachá

por uma rua

deste bairro do Limão

A fábrica de notícias

as teias de aranha do sem-sentido

sujando a ponta dos dedos

Aqui –

olhando esta cidade

que me absorve

o dorso áspero do rio

que me engole

única matéria

cínica matéria

espaço que me invade

e me expulsa

sem ódio, sem rancor

a cabeça zonza de mercúrio

as vozes

de um país arbitrário

Do posto de gasolina

um homem de vento

agita seus braços bambos

Como amo este homem

que me acena

com seus gestos efusivos

de efusiva cordialidade.

 

p/ Ana Weiss

 

 

O mundo como reino da mercadoria é o mundo deste poema. A dimensão do fetichismo é a realidade contemporânea mais radical buscada pelo texto. Não será demais aludir à conhecida definição de Marx para o fetichismo da mercadoria: dada a universalização da produção de mercadorias, as relações sociais passam a ser radicalmente mediadas pelas relações de troca entre mercadorias. Graças a isso, o que seriam relações sociais entre seres humanos aparecem como relações entre coisas. A lógica da mercadoria, portanto, é o esvaziamento da consistência propriamente humana das relações sociais. A cidade grande, como habitat natural do espetáculo fetichista, é o teatro perfeito para o recrudescimento desse exaurir humano em prol da mercadoria.

O poema de Ferraz Mello articula-se segundo uma dinâmica entre o objetivo (que carreia elementos narrativos ao texto) e o subjetivo (que demonstra de modo acurado a carência humana via lirismo sutil). Busca-se no poema uma concepção ontológica que, no entanto, é recondicionada pelo mercantil. Note-se como a primeira imagem, resgatada de um dos mais famosos textos de Baudelaire, “Spleen” das Flores do Mal , instala a sensação, vivida pelo eu-lírico e recomposta pelo leitor, de violenta pressão da mercadoria sobre o horizonte do homem que olha. Abaixo do céu, nada é possível ver, senão “a fachada do supermercado”. No entanto, ainda que encurralado, o eu-lírico propõe-se o caminhar por entre o labirinto deste “país arbitrário”, que é a cidade e que, por extensão, é também o próprio poema. Esse caminhar, “sem crachá” é ativado graças à presença fantasmática de “A flor e a náusea” de Carlos Drummond de Andrade, que dizia: “Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. / Melancolias, mercadorias, espreitam-me”.

O olhar do poeta estaria, assim, condicionado por outra mercadoria, que é a própria literatura. No quadro montado pelo poema de Ferraz Mello, a melancolia tornou-se já quase que uma espécie de código anódino, uma vez que outra é a etapa da modernidade. O poeta recorta e cola vozes passadas, para as quais a melancolia (o spleen) e a náusea foram possíveis formas de resistência e crítica ao mundo reificado. No mundo contemporâneo, a possibilidade crítica resiste residualmente na forma como o poeta cria o poema, a partir de sua perspectiva, como uma máquina de possíveis empatias: com a tradição que resgata fantasmas da modernidade, com o leitor que assiste a tudo meio atônito, partilhando a pressão da mercadoria sem melancolia ou náusea reativas. Se vamos ao dicionário, encontramos lá alguns significados que nos interessam para o uso da palavra empatia neste contexto: “1) faculdade de compreender emocionalmente um objeto; 2) capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela e 3) capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.”  Todas essas definições estão compreendidas na forma como o poeta constrói aqui o seu diálogo com o mundo da mercadoria e com o leitor.

A imagem final configura-se como um delírio do eu-lírico-personagem, que nos é contado com ironia pelo eu-lírico-narrador. O indivíduo desumanizado, exaurido de sentimentos e em inexorável solidão, “ama” o boneco de posto que lhe acena com “efusiva cordialidade”. Assim está exibida a ilusão que vivemos dia a dia: a de que quem mais nos ama é a mercadoria, que nos acena com gestos da mais desumana cordialidade. Uma desumana cordialidade que pode estar num poema, num boneco de posto ou num candidato político sedutor. Para construir tal imagem, o autor inventou, pela via do poema, uma perspectiva sobre o mundo social e, por meio dela, pede a nossa empatia, agora no sentido de compreensão. É um poeta também em situação fetichista, tornado mercadoria, que nos acena de dentro do poema, ou que faz do poema o seu aceno em nossa direção e nos interpela como sujeitos esmagados sob a tampa da panela de pressão do mundo capitalista. Ao nos ajudar a reconhecer essa condição limite do contemporâneo, o poema de Ferraz de Mello cumpre a importante missão de humanizar problematicamente o nosso cotidiano.

Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. É autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009) e organizador do volume de ensaios O Brasil ainda se pensa – 50 anos de Formação da Literatura Brasileira (Horizonte, 2012). www.alexandrepilati.com