Prosa@Poesia

As Cartas

Luiz Henrique Dias Publicado em 19.09.2011

As Cartas



Aparecida tinha apreço pelo Anselmo, o mecânico, mesmo sabendo ser ela amada por um tal de João. Este, um dia, cansado de se ver não correspondido e sentindo risco de perdê-la para o mancebo, aproveitou um momento de distração e, invadindo a oficina na espreita, golpeou a cabeça do rival com uma chave de roda, esparramando miolos para todos os lados. Depois fugiu. Pego alguns dias depois, escondido, passando-se por um tal de Tony, no Largo dos Otavianos, na Zona Sul, foi levado ao presídio central, de onde, por longo período, não saiu. Foram seis meses escrevendo e enviando, mesmo sem respostas, cartas de amor à Aparecida.

Um dia, cansou-se.

Se amigou com um bando que preparava uma fuga e, depois de tempos cavando com uma colher, conseguiu sair em um bueiro da Rua Castanhas. Munido apenas de uma faca de cozinha, assaltou uma banca de revistas para conseguir algum dinheiro, pagou um banho em uma pousada, comprou camiseta e chinelas novas e tomou um ônibus até o Bairro do Dendê. Já era noite quando bateu na porta do barraco da Aparecida. Esta, ao abrir a porta, soltou um grito e tentou empurrá-lo pra fora. Em vão. Ele entrou. Ela correu para o outro canto, com medo.

Estático, ele sorria.

Abriu o zíper do bolso da coxa, na bermuda de brim, e pegou um papel. “Tome, é a última carta que escrevi. Resolvi entregar pessoalmente”. Nesse momento, a polícia, chamada pela vizinhança, apareceu na rua e a luz vermelha piscante surgiu pelas frestas e janelas. A casa foi invadida e ele, o apaixonado João, não ofereceu resistência alguma. Largou a carta no chão, colocou as mãos na cabeça e, algemado, sem tirar os olhos de Aparecida, foi levado para o camburão. Ela, ainda assustada, fechou a porta, pegou a carta e colocou-se a ler.

Enquanto isso, lá na viatura, João, feliz por tê-la visto, torcia para chegar logo à cadeia para, sem algemas, escrever mais uma carta. Uma carta de amor. Daquelas que escrevemos sem pretensão de, um dia, termos resposta. 


                 * Luiz Henrique Dias é dramaturgo, diretor da Cia Experiencial O Teatro do Excluído e coordenador da Escola de Artes Lupah!. Leia mais em luizhenriquedias.com.br ou siga ele: @LuizHDias