Prosa@Poesia

Guitarras de Luto Maior

Nicolás Guillén Publicado em 08.04.2011

I

Soldadinho da Bolívia,
soldadinho boliviano,
armado vai com teu rifle,
que é um rifle americano,
que é um rifle americano,
soldadinho da Bolívia,
que é um rifle americano.

II

Te deu o senhor Barrientos,
soldadinho boliviano,
presente de mister Johnson
para matar a teu irmão
para matar a seu irmão,
soldadinho da Bolívia,
para matar a seu irmão.


III

Você não sabe que é o morto,
soldadinho boliviano?
o morto é o Che Guevara,
que era argentino e cubano,
que era argentino e cubano,
soldadinho da Bolívia,
que era argentino e cubano.


IV

Ele foi teu melhor amigo,
soldadinho boliviano;
ele foi teu amigo como pobre,
do Oriente ao altiplano,
do Oriente ao altiplano,
soldadinho da Bolívia,
do Oriente ao altiplano.

V

Está minha guitarra inteira,
soldadinho boliviano,
de luto, mas não chora,
apesar que chorar seja humano,
apesar que chorar seja humano,
soldadinho da Bolívia,
apesar que chorar seja humano.

VI

Não chora porque a hora,
soldadinho boliviano,
não é de lágrima e lenço,
mas de facão na mão,
mas de facão na mão,
soldadinho da Bolívia,
mas de facão na mão.


VII

Como os cobres que te paga,
soldadinho boliviano,
que te vendes que te compra,
é o que pensa o tirano,
é o que pensa o tirano,
soldadinho da Bolívia,
é o que pensa o tirano.

VIII

Desperta, que já é de dia,
soldadinho boliviano,
está em pé já todo mundo,
porque o sol saiu cedo,
porque o sol saiu cedo,
soldadinho da Bolívia,
porque o sol saiu cedo.


IX

Toma o caminho reto,
soldadinho boliviano;
não é sempre caminho fácil,
não é fácil sempre nem plano,
não é fácil sempre nem plano,
soldadinho da Bolívia,
não é fácil sempre nem plano.

X

Mas aprenderás certamente,
soldadinho boliviano,
que a um irmão não se mata,
que não se mata a um irmão,
que não se mata a um irmão,
soldadinho da Bolívia,
que não se mata a um irmão.

Páginas Cubanas, tradução de Emir Sader – São Paulo: Editora Brasiliense, 1985, pág. 146.