Prosa@Poesia

Tempos modernos

Andocides Bezerra Publicado em 24.04.2004

      Ele entrou no ônibus, pagou a passagem para o cobrador e ao passar a catraca deu uma panorâmica a procura de um bom local para sentar-se. Refletiu um pouco e sentou-se ao lado de uma destas universitárias com pele de pêssego e coxas provocantes.

      - Eu sei que vai parecer a cantada mais antiga e sem graça do mundo, mas é a mais pura verdade, se você não quiser conversar comigo eu entenderei. Bom, eu tenho certeza absoluta que já te conheço de algum lugar. Talvez não seja de pouco tempo, senão eu lembraria, mas de anos atrás. Ele falou com tanta convicção e transmitiu tanta sinceridade que ela não se negou a conversar.

      - Tudo bem. Você também não me é estranho. E ficaram assim os dois tentando recordar de onde um conhecia o outro.

      - Não foi daquela biblioteca lá da...

      - Não, não. Acho que foi da lanchonete...

      - Não, não.

      Por fim ele viu que tudo se tornava claro em sua mente.

      - Já sei!

      - Sabe?

      - Sim. Não é daquele colégio... Como é mesmo o nome dele? E espremia a cabeça como se preparasse um suco de laranja.

      - Do Campos de Oliveira! Disse ela toda entusiasmada.

      - Isto! Bem lembrado, do Campos de Oliveira. Fizemos a... Qual era mesmo a série?

      - A sexta série. E você já era esquecido naquele tempo.

      - A sexta série, onde é que eu estava com a cabeça? Disse isto e levantou a cabeça, tirando os olhos do grande decote da menina.

      - Espera, mas não entendi o "você já era esquecido naquele tempo".

      - Tá vendo como você continua esquecido. Você foi o meu primeiro namoradinho e nem se lembra. Foi com um olhar muito sensual que estas palavras foram proferidas. - Mas eu me lembro muito bem de você Pascoal. Eu sou a Nelinha, está lembrado? Você me chamava de Linha e dizia que costumava obedecer a sua mãe, por isso andava sempre em cima da linha.

      - Nelinha! Como eu não te reconheci guria? Aliás tem uma explicação o fato de eu não ter te reconhecido. E seus olhos brilhavam.

      - Qual? Esta pergunta foi quase abafada por um suspiro. Parecia que o coração da Nelinha ia explodir e seus seios, que já não cabiam dentro do decote, quase saltaram para fora.

      - Está na cara. Somente na cara não, está no corpo todo. Você ficou muito linda menina e...

      - E...?

      - Desculpa ser tão direto assim, mas sou obrigado a dizer: Linda e gostosa. Ele quase morria sem fôlego ao pronunciar estas palavras.

      Depois ficaram lá relembrando fatos que o Pascoal mais concordava do que lembrava. De vez em quando fingia que não lembrava para não deixar transparecer que, na realidade, ele não lembrava mesmo era de nada. Nelinha pelo seu lado também simulava uns "Ah é mesmo, lembro-me muito bem". E de vez em sempre voltavam ás lembranças de suas aventuras de pré-adolescentes. As saídas furtivas da sala de aula, os encontros atrás do muro da escola. Nestas partes a falta de fôlego aumentava e suas bocas se aproximavam. Parecia que todo aquele sentimento de infância voltava à tona em proporções maiores e mais excitantes. As festinhas nas casas dos amigos, o namorico de portão, as mãos ocupadas durantes os longos beijos. Beijos. Esta foi a faísca que acendeu o estopim. E que estopim, a platéia improvisada do ônibus nunca viu um beijo tão intenso quanto aquele. Se olhássemos bem poderíamos ver homens babando diante daquela cena em que eles se imaginavam no lugar do Pascoal. Um chegou mesmo a passar a mão na perna de uma senhora rechonchuda que estava sentada ao seu lado. É claro que a senhora rechonchuda gostou. Mas isto dá margem para outra história.
Enquanto durou a viagem, duraram os beijos, as carícias e as juras de amor eterno, promessas de nunca mais nos separarmos, promessas de novos encontros, de retomarmos aquele distante amor de criança, puro, sublime e gostoso amor de escola.

      O ponto do trabalho do Pascoal nunca chegou tão rápido. Ele teve que descer. Ficaria e iria com a Nelinha até o fim do mundo, mas tinha que ir para o trabalho, que ficava há duas quadras dali, pois não podia se atrasar.

      - Nunca mais vou te deixar. Olhou para fora, viu seu ponto e disse: Preciso te deixar agora, mas te ligo.

      Ao descer e dirigir-se para seu emprego Pascoal ia pensando: "Quem será este tal de Pascoal? O cara me deu sorte. Onde será que fica esta tal escola Campos de Oliveira? Que cantada mais certeira, tudo se encaixou direitinho graças ao Pascoal. Jamais me chamaria Pascoal, parece nome de loja de pneus. Sorriu e se foi".

      No ônibus Nelinha também pensava. "Que gatinho este garoto, mas eu já estava ficando sem criatividade para inventar tantas lembranças".