Prosa@Poesia

Problemas da modernidade

Andocides Bezerra Publicado em 06.05.2005

      A tecnologia traz muitas soluções, mas até você chegar nelas, por muito sofrimento você vai ter que passar. Um bom exemplo disto foi o que aconteceu com um certo amigo meu que, na falta do que fazer, do nada, como dizem atualmente, resolveu sair de casa numa bela tarde de outono para comprar um DVD. Contente, com a namorada a tiracolo (esta expressão é muito velha), foi para uma destas lojas que vendem aparelhos eletro-eletrônicos. Chegando lá, depois de demoradas pesquisas, resolveu: é aquele. Comprou o tal aparelho e um filme para inaugurá-lo.

      Em casa, radiante com seu aparelho DVD, nosso amigo foi instalá-lo. Conectou aqui, ali, virou a TV pra cá, pra lá (Ah! Um detalhe, a sua TV, apesar de não ser muito velha, era uma destas que ainda não conheciam o moderno reprodutor de DVDs), recolocou uma pequena imagem de um cachorrinho de volta sobre o televisor, sentou no sofá, com a namorada, procurou o controle, não encontrou. Levantou as almofadas, não encontrou, procurou na mesinha, nada, na estante, na cozinha, foi até o quarto já xingando baixinho, voltou, viu um montinho em baixo do tapete e lá estava o controle. Sentou novamente no sofá, abraçou a namorada e clique... Clique. Clique, clique, clique. Mas que diabo está acontecendo? Por que esta merda não funciona? Calma amor. Calma?! Calma?! Eu estou calmo! Deve estar quebrado amorzinho. Já passava das oito horas da noite e a loja estava para fechar. Pegou um táxi, levou a namorada.

      Na loja, tentando manter a calma, em vez de trocar, recebeu de volta seu dinheiro. Estava saindo da galeria de lojas quando um sentimento de derrota bateu em seu coração. Sentiu como se sua honra estivesse ferida. Voltou e nem ouviu sua namorada falar: Deixa isto pra lá amor. Foi em outra loja e comprou outro aparelho. Fez o vendedor testá-lo lá, ali mesmo. Funcionou. Já mais calmo voltou para casa.

      Conectou aqui, ali, virou a TV pra cá, pra lá, recolocou a pequena imagem do cachorrinho de volta sobre o televisor, sentou no sofá com a namorada e clique. Clique. Clique, clique, clique, clique, mordendo a língua, suando, clique, clique. Calma amorzinho, assim vai quebrar o controle. Ligou para a loja, visto que a esta altura não conseguiria chegar a tempo de pegá-la aberta. Pois é meu senhor não funcionou. Liguei. Sim testei aí, mas aqui não pega. Que TV o senhor tem? Ele disse. Ah! Então é isto meu senhor, tem que comprar um adaptador. 

      Desligou o telefone pensativo. Tem que comprar um adaptador. Adaptador, adaptador. Amor vamos ao Shopping. Não amor vamos para um barzinho. Não! Vamos comprar um adaptador, quero ver DVD.

      Com o adaptador em mãos e em casa começou a conectar os cabos. Conectou aqui, ali, virou a TV pra cá, pra lá, virou o DVD pra cá, pra lá, recolocou a pequena imagem do cachorrinho de volta sobre o televisor, sentou no sofá, com a namorada e clique. Clique. Clique, clique, clique, clique, mordendo os lábios, vermelho, xingando, desta vez em voz alta, clique. Por que está merda não funciona, hein!? Por quê?! O que foi que eu fiz para merecer isto, hein?! Responde! Olhando para o alto. Calma meu amor, olha, vamos sair e deixar isto pra lá, vamos nos distrair, beber alguma coisa. Eu... já... te... disse... que... estou... calmo! O adaptador deve estar estragado, só pode ser. Venha. Para onde?. Olha, só venha tá!?

      Num destes supermercados grandes que vendem de tudo ele comprou uma TV nova, 29 polegadas, linda, pagou os olhos da cara, quis mesmo tirá-los para entregar ao vendedor, este se recusou receber. Pegando de um lado e sua namorada de outro foram até o táxi. Não coube no porta-mala. Tem certeza senhor? E se colocar assim de lado. Não, não cabe. Tenta com aquele táxi ali. Foi até lá. Virou de um lado, do outro, tentou, tentou e nada. Mas que merda! De novo olhando para o céu. Já sei, vamos tirar da caixa. Tiraram e ainda não coube. Afastaram o banco da frente para trás e, sem caixa, colocaram a TV. Coube, mas foram espremidos no banco de trás.

      Em casa foi direto para a estante. A estante era destas pequenas, simples, estante de casa de solteiro. Bonita, mas fraca e pequena. Tirou a TV velha e foi colocar a nova. Não coube. Arrrrr! Tirou a estante, forrou o chão e colocou o televisor novo. Conectou aqui, ali, virou a TV pra cá, pra lá, virou o DVD pra cá, pra lá, recolocou a pequena imagem do cachorrinho de volta sobre o televisor, olhou para o cachorrinho, foi até a janela e o jogou fora, voltou, pegou o controle, sentou no sofá e clique. Por um momento a TV demorou a ligar, mas funcionou direitinho. Agora tranqüilo, olhou para a namorada, desligou a TV e falou para ela: Vamos para um bar?