Prosa@Poesia

Papéis trocados

Andocides Bezerra Publicado em 27.07.2004

      Maria Carolina era infiel desde sua adolescência. Abraçava seus namorados olhando sobre seus ombros à procura de alguém mais interessante. E se com os namorados ela já era especialista em traição; com o marido, Maria Carlonia tornou-se Phd. Durante sete longos anos ela traiu seu marido sem deixar vestígios, até que um dia...

      Depois de transar com seu marido e ainda na cama, alguém mexeu na fechadura da porta da sala. Eles dormiam profundamente quando ela acorda de súbito, eleva seu corpo da cama e olha para a sala, vê a porta se abrir e vira-se para o homem deitado ao seu lado num desespero aterrorizante e diz:

      - É meu marido! É meu marido! Levanta, levanta pelo amor de Deus! Se ele te pegar aqui estamos mortos.

      O homem levantou sobressaltado e, apavorado, disse:
 
      - E onde eu me escondo?

      - No lugar de sempre, claro!

      O homem, sem pensar nem por um segundo, entra no guarda-roupa e, sem respirar, fica por lá esperando a mulher despistar o tal "marido". Ela se penteia, arruma o pano da cama no lado do amante, põe seu roupão e fica de pé esperando o "marido" que já vem adentrando o quarto e lhe agarrando com toda a sede sexual que trazia da rua.

      - Oi gostosa. Tudo bem com você? Cadê minha peladinha, porque ainda está vestida?

      - Espera! Falou Maria Carolina, afastando o outro. Você não é meu marido. Meu marido não chega da rua assim. Ele primeiro diz: "Querida, cheguei". E depois diz: "Prepara meu jantar". Tirando o sapato e ligando a TV para ver o jogo.

      - Claro que não sou seu marido mulher. Ficou louca?

      - Bom, se você não é meu marido, quem é que está...?

      - Quem está onde? Tá louco meu! Com esta mulher a gente chifra e é chifrado ao mesmo tempo. Cadê o safado?

      O marido quase morrendo sem fôlego ainda não havia somado dois mais dois e esperava no guarda-roupas todo preocupado e suando em bicas.

      Deve ser o Talarico, marido da minha vizinha Deusita. Pensava ela distraidamente sem dar ouvidos ao amante que já estava entrando em desespero.

      - Responde mulher, quem esta aí? Vou matar este cachorro. Rosnava furioso o amante traído.

      - Não é ninguém meu amor. Você sabe que eu sou mulher de um homem só. Falei isto só para te ver furioso. Sou doida por um homem macho.

      Deixemos os dois aí com suas preocupações e voltemos um pouco. Vamos explicar esta bagunça.
Clodoaldo, o marido, havia dito para Maria Carolina que viajaria a trabalho e não voltaria para casa naquela noite. Maria, que não é mulher de dormir desacompanhada, escolhe, dentre seus amantes, o Ronoaldo, o amante caminhoneiro, marido da Claudete sua prima, para passar a noite. Acontece que Clodoaldo teve sua viagem cancelada pela empresa e voltou para casa naquela mesma noite, sem avisar à mulher. Passou numa floricultura, comprou um enorme buquê de flores e, com a mais bela das intenções -que não chegava a ser nem um convite para transar, só uma vontade de variar-, apertou a campainha com o buquê de flores na frente do rosto. 

      A mulher que, tomada de tesão, já esperava o amante, cumprimentou-o agarrando o outro "buquê". Pegou as flores e, sem pensar nem olhar, sapecou um beijo sufocante no marido. O marido, mesmo intrigado com a recepção da esposa, retribuiu o beijo. Enquanto a língua dela estava na boca dele e a dele em sua boca, ela sentiu que não conhecia aquele beijo, até achava que já havia beijado uma boca como aquela em algum lugar do passado, mas definitivamente não sabia de quem.

      Abriu lentamente os olhos para não dar nem um furo. Imaginem o espanto dela quando viu aqueles óculos de aros pretos e grossos ampliando aqueles olhos como duas lentes de aumento.
Parou imediatamente.

      - Clodoaldo, que saudades. Ainda bem que você não viajou. Disse ela, toda surpresa, tentando disfarçar sua confusão.

      Mas ai já era tarde demais. Ninguém segurava o marido que lhe pegou no colo e levou para a cama. Não sem antes tropeçar três vezes e parar para descansar na entrada do quarto. Maria Carolina não tinha o que falar para obstruir o rumo daqueles beijos. Acabaram na cama enrolados um nos braços do outro, com ela completamente esquecida de ligar para o Ronoaldo que, àquela altura do campeonato, já se enchia todo de Rexona.

      Quando Ronoaldo chegou, ela, que dormia tranqüilamente, inverteu os personagens. Em sua cabeça o que era marido virou amante e o que era amante virou marido.

      Continuemos de onde Maria Carolina parou:

      - Sou doida por um homem macho.

      - Doida é?

      - Doidinha. E continuava tentando refazer seu dia para saber definitivamente quem estava dentro do guarda-roupa.

      - Eu sou macho. Eu sou é macho, muito macho! Gritava o Ronoaldo. - Vou acabar com a raça deste traíra que está escondido em algum lugar desta casa. E fazia de tudo para impressionar a Carolininha.

      -Eu só não sou mais macho, não é por falta de espaço não, que aqui cabe muito macho, não sou mais macho só para não faltar macheza pros outros.

      Enquanto isso, o marido, agora convertido em amante, quase se mija dentro do guarda-roupa. Preocupado, ele tenta, do seu lado, refazer seu dia para saber onde tinha ido parar. _Será que eu tenho uma amante? Meu Deus do céu que porra é esta? Eu não me lembro de ter amante. Pelo que me consta eu nunca havia traído minha Carolininha. E agora isto.

      De repente, ele sente um cheiro familiar, era o cheiro das suas próprias roupas, de seu guarda-roupas, de seus objetos pessoais. Intrigado, Clodoaldo começa a tatear, tentando reconhecer alguma coisa. Pega daqui e dali mas não reconhece nada e nem se lembra de que estava dentro de sua própria casa. Enquanto isso, Maria Carolina, desconsertada, tenta afastar Ronoaldo e transferir o compromisso assumido para um outro dia.

      - Veja bem Ronoaldo, acabei de ficar com uma puta dor de cabeça, vamos deixar pra outro dia.

      Após ouvir estas palavras de Carolina, o amante teve a certeza de que estava sendo traído. Então começou uma investida feroz para descobrir quem era o amante-amante. Daí por diante, foi uma verdadeira briga de marido e mulher. Eu trabalho todo dia para lhe dar do bom e do melhor e o que você me faz, hein?! O que você me faz!? Me traz outro homem para dentro de casa e quando eu te procuro (procurar é um verbo usado pelos casais casados para se referir aos carinhos entes do acasalamento) o que você me diz, hein? Diz que está cansada, com dor de cabeça.

      - Olha, eu já estou de saco cheio destas tuas conversas. Não agüento mais. Se continuar assim eu vou para a casa da minha mãe.

      O marido, que agora é amante, não suportava mais a incerteza de onde realmente estava. Suado, com medo, só tinha certeza que estava realmente na casa de uma amante. Mas algo não estava lhe cheirando bem. Por que aquele aroma tão familiar? No auge de sua impaciência resolveu, já fora de si, acender um fósforo para ver que guarda-roupas era aquele. Com o fósforo na mão começou a observar. Porém antes de se dar conta, as roupas começaram a pegar fogo. Com tudo aquilo incendiando, Clodoaldo teve mais medo de morrer com o fogo de que com o amante-marido. Pulou derrubando porta e roupas.

      Quando o Ronoaldo viu tudo aquilo vindo abaixo e o marido-amante caindo ao chão com o fogo vindo por traz, gritou enfurecido: Clodoaldo, você está dormindo com minha mulher seu cafajeste?!
Clodoaldo então teve certeza, estava na casa da prima da sua Carolininha e, sem pensar nem um minuto, olhou para o Ronoaldo enquanto corria porta afora e gritou: Não é o que você está pensando. Ronoaldo, que naquele momento já não tinha mais consciência de onde realmente estava, voltou-se para a mulher e disse:

      - Eu quero o divórcio!