Prosa@Poesia

A vingança de Nestor

Andocides Bezerra Publicado em 22.05.2004

      Nestor sempre foi um excelente marido. Fiel, confiava em Marilú como em si mesmo. Nunca passou por sua cabeça que sua mulher pudesse lhe trocar, nem que fosse por um só momento, por outro homem.

      Mas um dia Nestor saiu para trabalhar e viu um sujeito encostado na parede da casa frontal à sua. De repente passou por sua cabeça, de forma rápida, uma fagulha de preocupação. E se este homem estivesse aí, esperando a minha saída? Não. Isto é bobagem. Deixou a preocupação pra trás e seguiu em frente.

      No outro dia lá estava o homem tentando disfarçar, forçando naturalidade. Era bem mais novo que ele, novamente a preocupação voltou. Desta vez mais forte. Não muito intenso, mas lhe perturbou por alguns momentos no decorrer do dia. À noite já não lembrava mais do homem. Porém, no dia seguinte, lá estava, outra vez, o tal sujeito. Desta vez foi impossível controlar suas preocupações, passou o dia inteiro pensando naquele estranho encostado à parede. Sabia que sua mulher ficava só o dia inteiro. Mulher prendada, cuidava do lar e o esperava todas as noites com um largo sorriso no rosto. Agora isto se acabaria. Tudo de ruim passava por sua cabeça. Com certeza ela o traía. Esperava sua saída e colocava aquele garotão para dentro de sua casa e de seus braços.

      Com certeza a vizinhança vai começar a falar. Já achava que as pessoas o olhavam de forma diferente. Os dias se passaram e todos as manhãs lá estava o rapaz. Por vezes ele podia jurar que o via entrar em sua casa. Chegou a voltar algumas vezes do meio do caminho, inventava para a mulher que havia esquecido qualquer coisa. Passava pelo homem ainda encostado à parede, dava uma olhada furtiva e entrava, disfarçava e tomava, de novo, o caminho do trabalho. Tinha certeza que os vizinhos cochichavam, quando passava virava o rosto para não falar com ninguém. Estava ficando maluco.

      Um dia foi até o trabalho, simulou um mal estar e voltou para casa. Chegando nas proximidades começou a andar sorrateiramente, escorregando pelas paredes. Olhou para o local em que estava o rapaz no início da manhã. Não o viu, teve certeza que estava com sua mulher. Não conseguiu forças para entrar. Ficou rondando. Passava em frente, colocava a mão no portão decidido a acertar as contas com os dois, perdia a coragem e voltava a andar de um lado para o outro. Sua mulher estava lá dentro com outro homem sobre sua cama. Suava frio, entrou no bar do Maneco e pediu uma cachaça, depois outra, outra e outra. Maneco deeeixe... deeeeiiixa o litro aqui. De homem calmo e pacífico, passou, depois de alguns copos, para um homem grosso e violento. Olhava os freqüentadores do bar como se todos soubessem das traições da esposa, via um cúmplice em cada conhecido. Com certeza ela já havia deitado com todos ali. Aquilo foi esquentando sua cabeça. Ele já não agüentava mais. Então explodiu:

      - Tooooodos vocês! Hik! – Olharam. Conheciam o Nestor, sabiam que era uma pessoa calma e amável. Aquele Nestor não conheciam.

      - Conhesssço muiiiiito bem o tip... o tipinho de vocês. Ficam aí disfarçando, mas sei que hik... que tooooodos já deitaram com aquela vaga... vagabunda. Toooodos vocês! Toooodos! – Não falava nada com nada.

      - E aí como ela é? Hik! Como é a minha mulher na cama?! Sei que vocês... que vocês esperam eu ir trabalhá pra tchuk tchuk nela. – Disse isto e saiu em direção a sua casa.

      Estava alterado pela bebida, mas pensava que ainda raciocinava. Foi cautelosamente. Se encheu de coragem e abriu a porta evitando a própria respiração. Da sala já ouviu a sua Marilú gemendo. Aquilo fez seu coração disparar. Seus olhos se encheram de lágrimas, suas mãos suavam. Pensou em pegar uma faca mas mudou de idéia ao lembrar a roupa de cama nova que comprou para a esposa. No quarto Marilú continuava gemendo.

      - Ai, humm, ui. Ai que coisa!

      Nestor achou aquilo insuportável. Não era justo, fazer isto com quem sempre foi tão fiel. Nem quando a Corita, sua vizinha, tirou a roupa na sua frente e se ofereceu, ele se curvou à tentação. Corita não suportava a Marilú. Mantinha uma relação de amizade, freqüentava sua casa e a recebia, mas não lhe suportava. Era ela, a Corita, que devia ter se casado com Nestor e não esta lambisgóia que o roubou às vésperas de seu casamento. Isto era a derrota de sua vida.

      - Corita! Pensou euforicamente. Esta seria sua grande vingança.

      Pensou isto e saiu de casa da mesma forma que entrou. Ela está com um amante em casa, então vou passar a tarde toda com a vizinha. Foi até a casa da Corita. Ela estava no banho. Tinha acabado de se despedir de seu novo namorado que a visitava quase todos os dias pela manhã. Foi atendê-lo de toalha, o que facilitou sua abordagem. Ali mesmo eles se atracaram. Deixar a porta aberta não estava em seus planos, mas pensou que seria mesmo bom que algum vizinho o visse ali e espalhasse para a rua toda. Beijaram-se, tiraram a roupa e caíram sobre o sofá. Pronto, pensava enquanto entrava e saia da vizinha, uma vingança à altura.

      Estavam no ápice do prazer quando a Marilú, quase chorando e gritando de dor, entrou porta adentro falando desesperadamente:

      - Corita você tem remédio para dor de dente? Estou o dia inteiro gemendo de tanta dor!

      Quando se deu conta do cenário a sua volta, esqueceu a dor e gritou:

      - Nestoooorrrr!