Prosa@Poesia

Lições humildes

Aidenor Aires Publicado em 22.07.2009

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      Outro dia li um artigo que qualificava a terra como um lugar raro. O universo conhecido não hospeda possibilidade de vida similar à deste planeta azul. O sentimento de raridade, uma espécie de solidão, parece ser para um curioso das coisas naturais, característica de seres menores. Digo: os que, na hierarquia da evolução, ficam abaixo do ser humano. É de comover a faina das formigas limpando a trilha por onde passam. Fica uma belezinha de estrada, sem dejetos, sem sujeiras. Por aí passa a nação apressada carregando víveres, tocando antenas, pedindo licença, saudando umas às outras sem interrromper o trabalho. Nem se fale das campeãs de organização – as abelhas. Maravilha! Distribuição das tarefas, ofícios de cada classe, o esforço de todas, como uma mente única, para o progresso da colméia e a glória do enxame. Não há habitação mais higiênica e asseada. A rainha, mãe de todos os indivíduos do enxame, vai procurando os alvéolos vazios, verifica se estão limpos, devidamente pintados ou repintados de própolis, para ali deitar seus ovos. Caso note algum descuido das operárias com a higiene, refuga aquele alvéolo e sai em busca de outro, conforme sua real exigência  de limpeza. São muitos os detalhes, mas tenho que ir adiante. Tive a felicidade de contar, por vários anos, com a visita demorada de um sabiá do peito roxo, na varanda de uma casinha que já tive em uma chácara, também mínima. Ali criava abelhas, porque é um gado que não carece de cercas e pasto plantado. Goza do compáscuo sem limites de propriedade ou posse. Bem, volto ao sabiá. Não um sabiá, uma família de sabiás. Chegavam no início das chuvas cantando pelas copas das árvores. O casalzinho voava pelo terreiro, beliscava frutos dos mamoeiros e amoreiras. Ao entardecer e às alvoradas soava um canto que os poetas chamariam mavioso, se ainda houvesse bardos como aquele da “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá...”. Foram se aproximando sem cerimônias e se alojaram num vaso de planta que pretendia enfeitar um canto da varanda. Construíram um ninho com todo esmero possível às cinzeladas de seus bicos. Ali nasceram logo os primeiros pimpolhos. Nos anos seguintes retornavam e repetiam o ritual de continuação de sua espécie exímia de músicos. Este seria o fato comum se em minha pachorra e infantil curiosidade não atentasse para um detalhe especial. Todos os dias, depois da alimentação dos pimpolhos, o casal punha-se a limpar o ninho. Atirava para fora os excrementos da criançada, os restos de comida ou qualquer imundície que pudesse sujar ou enfear o pequeno bangalô. Esses bichinhos, e outros que conheço, sabem dar valor à rara vida, ao raro lugar onde ela é possível. Cuidam de seu dia e plantam outros dias onde irão voar os cantores do futuro. É bem diferente de outra nação de bicho que rói e rói a terra, devora matas, emporcalha o ar e os rios. Talvez porque tenha perdido a poesia, o encantamento, e o curioso espanto infantil que faz uma falta danada a este mundo.