Prosa@Poesia

Boi erado, em terra alheia, berra como vaca?

Aidenor Aires Publicado em 08.07.2009

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      Os mais velhos repetiam esta sentença com dolorosa resignação. Experientes em retiranças acautelavam os noviços sobre como se portar em terras estranhas de estranhas gentes. Onde “O filho chora e a mãe não vê”. Lugar do desterro. O retirante é o adventício, o suspeito, o chegante. Como tal, estranho, desconhecido, objeto de temor, curiosidade ou desconfiança. Para trás ficaram o terreno conhecido dos pés, a vizinhança, os afetos, os laços com um mundo que deve ser esquecido para, aos poucos, ir-se deixando moldar, absorver ao novo território e costumes. Mas, as novas condições não apagam a funda herança que jorrara com o leite materno, o lugar imemorial da orígem. O migrante passa a ser um híbrido que permanentemente busca um lugar entre os sítios perdidos e os novos logradouros que pretende habitar. Desde os aventureiros do descobrimento, da caça ao ouro e da preação indígena; desde a forçada migração africana, às posteriores levas de europeus do fim do século dezenove até as mais recentes, a nação brasileira tornou-se um encontro de etnias, culturas e cores. Isso talvez explique a tolerância, o acolhimento que dispensamos a todo forâneo. Nos últimos tempos as migrações se aceleram em todo o mundo. Muitas vezes clandestinos cruzam fronteiras. Passam a viver como párias, principalmente nos países do chamado primeiro mundo. Cevados na exploração colonial, na pilhagem de tantas terras, negam às vítimas de suas políticas a dignidade e o respeito que merecem. Cada vez mais militâncias etnocêntricas, legislações exclusivas oprimem os migrantes do terceiro mundo que correm atrás da sobrevivência que seus países e governos, sistematicamente lhes negam. Pelas ruas de nossas cidades descobrimos rostos novos, principalmente de nossos vizinhos peruanos, colombianos, chilenos, bolivianos, argentinos. Todos têm os mesmos sonhos: descobrir lugares de paz, trabalho e liberdade. A recente lei que permite a regularização  dos migrantes que vivem ilegalmente no Brasil é um grande avanço. Vamos ao sentido contrário dos países ricos. Será possível, de imediato a regularização de 40 a 50 mil estrangeiros, dos mais de duzentos mil existentes. Terão reconhecidos direito a trabalho, assistência à saúde e outros atributos da existência cidadã. O Presidente Lula, ao sancionar a lei teve um momento de lucidez. Falou nele o migrante nordestino. Criticou as políticas dos países ricos e lembrou a necessidade de abrandarmos o rigor das fronteiras. De fato, as fronteiras não devem servir à separação das pessoas, podem ser pontos de encontro, travessias, pontes que assinalam as convergências e os traços que identificam todo ser humano. Haverá dia em que ninguém precisará pedir desculpas por chegar. Poderá cantar sua saudade, almejar futuro e não terá que berrar amofinado como vaca, mas caminhar confiante, certo de que não estará em terra alheia, estará pisando a mãe terra, igual em todos os lugares. Caminhando ao lado de seres humanos. Seja quem for, chegue de onde chegar. Pois todo lugar deve ser a residência comum, a planetária casa dos homens.