Prosa@Poesia

Estamos vendendo nossas crianças

Aidenor Aires Publicado em 03.06.2009

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      Resolve prender a mulher pobre do Pará, acusada de vender a própria filha? A televisão foi lá nos rincões esquecidos do país buscar mais uma ferida. Sem cerimônia, mostrou a novidade interrompendo nosso jantar. Cumpriu-se a pauta. Entregou a mercadoria ao consumidor indefeso, sempre vulnerável e capaz de se emocionar com o horror da última cena. Aí aparece o Poder, como aquele soldado amarelo de Graciliano Ramos, em Vidas Secas.  Só para dizer que existe, faz vigorar sua lei, que andava ausente. A prisão da miserável pode dar momentâneo alívio às consciências. Mas não salva as inumeráveis crianças que são mortas pelas enfermidades, vendidas, traficadas abandonadas e espalhadas pelas ruas. Os classificados dos jornais mostram diariamente crianças violadas. As que se prostituem profissionalmente aos dezoito, já foram compradas, abandonadas, desamadas aos quinze, treze anos, ou menos. As ruas estão cheias de meninos e meninas pedindo nos sinaleiros, amontoando-se em mocós, entregues à mendicância, à prostituição e às drogas. Filhos e filhas do abandono intencional dos governantes viram estatísticas nos obituários e na crescente população dos cárceres. Roubam, assaltam, tiram o sono das consciências que se consolam criando leis que não vão ser cumpridas, verbas em orçamentos que nunca chegarão à suas portas, ONGs e instituições que mamam sem controle os recursos sangrados nos desvios da burocracia e das estatais. Os mais crédulos constroem abrigos ilusórios, habitações muradas e guardadas por cães e armas, na esperança de exorcizar seus medos. Adiam apenas o encontro com a fatalidade que já anda mais que anunciada. No fundo, sabem que o medo é nossa herança. Que vamos construindo o futuro espólio todas as vezes que sorrimos complacentes para os que roubam a merenda das crianças, os recursos para as escolas. Acumulamos a mais valia cruel todas as vezes que nos divertimos com as galhofadas do truão do dia, com o aumento das cestas básicas. Na verdade, acredita-se que governar é como administrar uma partida de futebol ou torcer por um time do coração. Ignora-se, voluntariamente, que o placar é decidido na mesa da cartolagem,  do empresariado que explora o talento e a sina das periferias. A prisão da mulher do Pará não é risível. Não traz ao palco nenhuma esperança. Os que compram e vendem as meninas e mantêm lucrativos os estoques de carne infantil não serão punidos como os personagens das tragédias. Ao contrário, ganham publicidade, mostram as caras onde se escondem e se preparam para ser inocentados na próxima CPI sem resultado. No próximo julgamento de um tribunal facinoroso. Ao final, exaltados no jogo das eleições. Caro leitor, não pense que hoje eu esteja mais amargo. Ainda podemos experimentar alguma alegria. Seja no transe do arrebatamento místico, na diária porção de Prozac, ou nas notícias da prisão da mulher do Pará.  Sorrimos e compramos - ração diária - nosso naco ainda fresco da última criança.