Prosa@Poesia

Diálogo passageiro

Aidenor Aires Publicado em 27.05.2009

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      Seu Alberto mudou-se para a cidade. Por que, seu Alberto, deixou a vidinha tranquila da roça?  - Indaga o cronista curioso.  Na bucha, a resposta: Estava cansado da roça. Não tinha escola para os meninos. Não tinha posto de saúde por perto. E ainda andavam roubando o gadinho, os porcos e até as galinhas do terreiro.

      - A coisa na cidade também não anda mole, né?

      - De todo jeito urubu é preto. E aqui tem mais diversão.

      - E o trabalho?

      - Ainda não achei, mas a Rosária está fazendo faxina em algumas casas. Adjutora.

      - O amigo não vai tão mal. Afinal está montado num carrão.

      - Ah, isto sim, não resisti às facilidades. Prestações pequenininhas. Prazo a perder de vista. Só ainda não pude tirar a carteira. Vou rodando assim mesmo. Aprendi que em caso de abordagem policial é só acenar com uma oncinha ou uma garoupa e o incômodo se resolve.

      - Que negócio é este, seu Alberto?

      - Ora, uma notinha de cinqüenta ou de cem. Fica mais em conta. Pior é a burocracia dos exames para tirar a carteira.

      - E os meninos?

      - Eles é que estão aproveitando. O Zezinho anda todo invocado com a turminha lá do bairro. Freqüenta lan rause, chópin dança uma música desengonçada que chama fanque. A Rosarinha que já vai ficando mocinha, freqüenta uns cursos de modelo. Vive de olho nas revistas e quer ser como uma  a tal de Gisele Bunxen

      Decorridos alguns meses, reencontro seu Alberto pedestre pela Avenida Goiás. Mal me saúda e vai passando perseguindo o vento. Olá, seu Alberto – atalho seus passos: como vai? Andou sumido! Quase incomodado com o cumprimento, pára. É vencido pela gentileza e original educação:

      - Tou com muita pressa, camarada. Quase não notei sua presença.

      - Mas o que foi, companheiro? – interessa-se o cronista.

      - Não é nada não. Uns probleminhas de nada. Estou indo ali para o fórum ver se arranjo um advogado do governo para defender o Zezinho. O moleque foi preso com um magote de colegas.

      - Mas isto é coisa de jovem. Uma farrinha?...

      - Farrinha não, meu amigo. Estava junto com os outros que mataram um rapaz. Coisa de drogas.

      - A esposa e a Rosarinha, Como vão?

      - Olha, desgraça pouca é bobagem. A rosarinha envolveu com certo agente de modelos. Anoiteceu não amanheceu. Com os desgostos, a velha desesperou. Pegou a ir a uns cultos de uma igreja perto de casa. Andava pelas ruas pregando a salvação das almas e o fim do mundo. Está internada num sanatório lá para o lado da vila Redenção. Já vai pra mais de mês.

      - Coragem meu amigo, com calma se resolvem esses aborrecimentos.

      - Sei não. Não vejo porta de saída. Um povo aí está me chamando para participar de um tal de MST.  Me dão cesta básica e me incluem na reforma agrária. É seguro que vou ter outro pedacinho de chão. Enquanto isso vou para um acampamento de sem terra. Dizem que lá o sustento é garantido. Basta seguir os preceitos do movimento, participar das passeatas e ocupações. Depois volto para ver se encontro os meninos e a minha Rosária. Desculpa, amigo, minha pressa. Mas já está passando da hora de encontrar o tal advogado do governo. Até mais ver!

      - Até mais! – Arremata, circunspecto, o cronista.