Prosa@Poesia

Ágora, a livre expressão

Aidenor Aires Publicado em 13.05.2009

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      O amigo pergunta-me: por que o escândalo sobre a tal gripe suína? Mal surgiu  e já está desmoralizada. Não é tão letal. Catarro comum mata mais. Dengue mata mais. Lombriga e andaço matam mais ainda. Digo que é coisa de novidade, ou talvez  da associação com animais que algumas seitas acham impuros, os porcos. Então, o contaminado herda um pouco do imaginário e do destino suíno. Melhor seria mudar a designação para gripe de gringo, porque a maioria dos enfermos está nos Estados Unidos e não no México, que tem sua imagem e economia sacrificadas com a discriminação.  Também porque a tal de gripe suína serviu bem para anteparo de novas aventuras do Tio San no Afeganistão. Barak Obama despejou ali mais uma horda de seus cães de guerra. Não vencem os talebans, mas causam genocídio e diáspora na população civil, sob aos bombardeios próprios e terceirizados pelo tetrarca do Paquistão. A gripe suína, questiona meu amigo: não serviria para disfarçar a propalada crise econômica, que nos últimos dias saiu das manchetes e em alguns lugares, como Brasil pré-eleitoral, já é contada como coisa finda? O país empresta dinheiro ao FMI, distribui para todos os escalões da burocracia corrupta e corruptora. Ceva a todos nos bonançosos peitos da nação, abastecidos com sangue de quem trabalha. Como não há esperanças de caras novas, nem de projetos que reponham a esperança do país, contentamo-nos com a reciclagem das enfadonhas caras dos mesmos atores. Seja com plásticas que disfarcem a sordidez dos personagens ou mesmo pela hilária propaganda que se faz do câncer. Deixa de ser a profecia de tânatos, para mostrar o rosto remanufaturado, palatável à simpatia  e condescendência que alimenta o projeto do continuísmo político. Há no governo um campeonato de tumores que sobrepõe ao campeonato pastelão das farras congressuais, tribunalícias e presidenciais. Comove-nos a fragilidade e a humana vulnerabilidade das pessoas, mas não o uso que fazem de suas misérias. Com certeza, meu amigo, conversaríamos horas e dias sem concluirmos nada. Mais uma vez, a carnavalização vencerá. De truão em truão vamos concertando a função circense. E a cada dia vence o melhor ator, a melhor performance pantomímica. Se havia algum recato para a vergonha, glorifica-se agora o rato que rói o queijo. E o mais competente roedor,  será sagrado rei, terá para si só e para seus afins o queijo inteiro, num mundo sem gatos ou ratoeiras. É até bem possível que num último reduto livre da palavra, alguém se insurja, enquanto, apesar, dos aleives, sobrevive a ágora do Diário da Manhã, sob a batuta sem censura de Batista Custódio. Este seria o sonho da liberdade de expressão, refúgio para as últimas mentes livres. Elas não pregam no deserto. Estão falando no meio do burburinho, porque aí falam todos. E o leitor cidadão escolhe o que quer ouvir e o que deve responder. O sentido agórico deste espaço de liberdade, pode juntar lobos e cordeiros e ao leitor cabe distinguir uivos de balidos, crocitar de abutres ou arrulhar de pombas.