Prosa@Poesia

Outra carta de Pecusburgo

Aidenor Aires Publicado em 08.04.2009

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      Em Pecusburgo tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. As esperanças aninham no futuro. O Grande Truão vaza fronteiras e bazófias enquanto Obama o grão-vizir do mundo lhe belisca a barriga para o hilário dos poderosos. O pão terceirizado é entregue. O circo vem de mão própria. Agora mesmo, para ganhar mais tempo no palco da comédia, foram convocados os maquiadores da corte para remanufaturar a princesa herdeira. Fica para trás a feição batráquia. Assume a face travessa a ser vendida ao populacho. Recordo, querido e curioso amigo, que pouca coisa mudou por aqui. A boa gente patrícia continua com o umbigo e os dólares em Novaiorque, Paris, ou algum paraíso fiscal. Fazem caravanas para voar sobre os grandes monumentos das ruínas astecas e maias para fazer shopping nos Steites, que tomaram metonimicamente o nome da América para si mesmos. Mas não se assuste. A pobreza vem sendo resgatada com bolsas família, bolsas educação, bolsas quotas para negros, para índios, para deficientes... E, alumbre-se! Quotas para alunos das escolas públicas. Tão devastadas e achincalhadas andam elas que seus alunos sequer servem para ir às universidades. Precisam de separatas de incompetência. Assim dispensam-se os provedores do estado de melhorar a vida dos professores da chamada rede pública, modernizar estabelecimentos e ensinar os filhos do povo. O que seriam dos gaiteiros de plantão se este povo aprendesse a ler e entender? O livro aqui continua sendo coisa de luxo, ou melhor, de maluco, desocupado. Com a entronização do analfabetismo e da esperteza, correm boatos de que ler, ainda que seja um reles jornal, dá alergia e cefaléia. Quanto à cultura daqui, continua fazendo justiça ao nome deste reino. Publicar um ou dez livros em Pecusburgo dá no mesmo. Coisa pior: quanto mais publica mais anônimo fica o beletrista. Há autores de dezenas de livros que sequer foram lidos pelos parentes. Como tais escribas nunca leram mais que orelhas, não se dão ao trabalho de ler os que escrevem. Estão ocupados com novos projetos que só perdem espaço nas verbas do Governo para a autêntica e requintada música sertaneja. Nessas notícias não vai nenhuma amargura. Não quero desencorajar o amigo se, por acaso, pretende visitar estas plagas, caso escape de ser confundido com um fundamentalista islâmico e caia recheado de balas, ou dos tiroteios de um imigrante enlouquecido, ou de um sobejo de guerra anti-terror, perito em matar mestiços, asiáticos,  árabes e outras etnias terceiro-mundistas. Aqui vamos dando risadas. Por mero costume de olhar no espelho e ver a cara atoleimada que há quinhentos anos se diverte fazendo troças e piadas de si mesmo. Sobre os outros assuntos provocativos que me propõe, falarei em outra oportunidade. Acabam de ligar a televisão e um pastor grita histericamente pelo dízimo que lhe estão devendo, a ele, coletor dos impostos de Deus.