Prosa@Poesia

Barcarola

Augusto dos Anjos Publicado em 15.10.2008

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Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e, pelo mar,
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.

(...)

Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! Não acham quem,
Quem as esconda, as esconda...

(...)

A Lua – o globo de louça -
Surgiu em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam, e a Lua Cheia ouça!

Ouça do alto da Lua Cheia
Que a sereia vai falar...
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.

Que é que ela diz? Será uma
História de amor feliz?!

Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.

É como um réquiem profundo
De tristíssimos bemóis...
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo!

“Fecha-te nesse medonho
“Reduto de Maldição,
“Viajeiro da Extrema-Unção,
“Sonhador do último sonho!

(...)

- E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou...
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!

Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!

Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e, pelo mar,
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas!

 

Augusto dos Anjos
Eu, 1912