Prosa@Poesia

Farpada

Alexandre Pilati Publicado em 25.08.2008

*

este lixo
e este brilho instável
tua vida ainda
que me vires a face
pronta para outro tapa

bala perdida
atravessando a porta
de feios, sujos e culpados
uma das mil pétalas
de teu peito murcho

teu podre corpo
embaixo de milhões
de caramujos vesgos
no fundo tranqüilo
da baía da Guanabara

um país inexplicável
pelo estruturalismo
o estômago verde
de um verme feliz
ave de rapina, bola perdida

o anel que o doutor
displicente esqueceu
no cu da puta uma faca
só cabo no crânio do padre
teu sorriso na foto em família

uma fresta fedida
de calcinha
que tuas pernas
não conseguem cruzar
um vácuo de 21 gramas

um pico, um pinto
as varizes de teu nariz
tua satisfação quando
a esquerda se dá mal
tu mesmo e tua gravata

irmão meu, anti-herói
cagão que nada diz
na cara de ninguém
safado, poeta
que bate um soneto a chibatadas

este bruto animal
com que sonhas na cama
sem firma reconhecida
o gole de Champagne
que sobrevoa a avenida

apenas um poema
sujo, solto no vento
daquela manhã de greve
uma moção de desagravo
uma soprano sem garganta

Ofélia e Rocinante,
fantasma e cacareco
cronista e contabilista
Lenine e o adeus
que não aceito que me dês