Prosa@Poesia

Carta à sobrinha

Elder Vieira Publicado em 24.06.2008

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      Acho que era uma tarde. Ele chegou à casa da sogra e encontrou um pacotinho. Era uma menina. Um bebê pequenino. Não sei como foi parar em seu colo. Sei que depois de algum momento, ela estava debruçada em seu peito, dormindo gostosamente. Ele lhe cantava alguma canção de que não me recordo. Ela dormia.

      Os da casa, sobretudo a mãe dela, veio dizer que a criança não costumava dormir assim. Alguém, não sei qual dos presentes, viu naquilo um sinal de bem-querer.
 
      Muito tempo se passou desde então. Um outro dia, talvez uma outra tarde, estavam esse tio e suas sobrinhas num quarto, falando da origem do universo. Todas acompanhavam o desenho que o tio fazia no papel e suas explicações. Aí a menina, aquela que um dia dormiu bebê no peito desse mesmo tio, entendeu tudo e desvendou o mistério, sem que o tio precisasse dizer: o mundo criou os homens; os homens, os deuses – e assim o mundo fora recriado.
 
      Ela não o disse assim, desse modo. Mas assim parece haver entendido.
 
      Desde esse dia, o tio vem acompanhando a trajetória dessa sua sobrinha. E apostando que ela será capaz de fugir ao cerco que a vida vem tentando nos impor a todos. Se a tia dela, companheira desse seu tio, foi capaz, nascendo no mesmo bairro onde ela nasceu, vivendo os mesmo limites que ela viveu, certamente ela também o seria.
 
      Outro dia – não sei se uma tarde, ou uma noite – o tio soube que a menina havia reduzido o alcance de seus sonhos. Chegou-lhe ao conhecimento que a menina, tão inteligente, tão cheia de asas, resolveu seguir a senda das irmãs, e aguardar, ansiosa, o dia de casar.
 
      O tio entristeceu. Já havia perdido para o mundo – recriado à imagem e semelhança de deuses cruéis – um sobrinho (irmão da menina), três sobrinhas (duas delas, irmãs da menina), um cunhado. O primeiro e o último, para o tráfico e a morte; as garotas, para a gravidez precoce, ou para o embrutecimento da vida doméstica – em substituição à brutalidade paterna e em razão de escassas perspectivas. Não queria, por nada, que mais um afeto seu se perdesse, se entregasse, sucumbisse.
 
      Resolveu então escrever para a menina. Resolveu dizer a ela que ainda era cedo para recolher as velas: há muito mar que navegar; há muito céu a submeter; há amores demais para experimentar. E que ele estava ali, para ajudar no que estivesse ao seu alcance.
 
      Não sei o fim dessa história. O tio aguarda. Um milagre? Não, somente que a menina responda e diga: “Tio, voltei. Olha eu aqui”.