Prosa@Poesia

As últimas palavras da minha avó inglesa

William Carlos Williams Publicado em 16.06.2008

*

Versão abreviada de um poema publicado pela primeira vez em 1920

Havia alguns pratos sujos
e um copo de leite
na mesinha ao lado dela
junto à cama rançosa, em desordem –

Encarquilhada e quase cega
ali jazia roncando
quando despertava, punha-se a gritar
em voz irada por comida,

Me dê alguma coisa pra comer –
Eles me matam de fome –
Estou bem não quero ir
para o hospital. Não, não, não

Me dê alguma coisa pra comer
Deixe-me levá-la
para o hospital, eu disse
e depois quando estiver bem

poderá fazer o que quiser.
Ela sorriu, Certo
Você faz o que quiser primeiro
aí poderei fazer o que eu quiser –

Oh, oh, oh! gritou ela
quando os homens da ambulância
a puseram na maca –
É isso que vocês chamam

de me pôr a cômodo?
Já então estava lúcida –
Oh, vocês se acham espertos
vocês gente moça.

disse, mas eu garanto
que não sabem coisa alguma.
Então partimos.
No caminho

passamos por um longo renque
de olmos. Ela os contemplou
alguns instantes pela
janela da ambulância e disse,

O que são todas essas
coisas felpudas lá fora?
Árvores? Ora, estou cheia
delas, e sua cabeça rolou para o lado.



William Carlos Williams
Poemas
Seleção, tradução e estudo crítico: José Paulo Paes
Editora Companhia das Letras – edição 1987