Prosa@Poesia

Tributo aos pintores

William Carlos Williams Publicado em 22.05.2008

*

Sátiros dançam!
todas as defromidades erguem vôo
centauros
remontando à raiz dos vocábulos
nos escritos
de Gertrude
Stein – mas
não se pode ser
artista
por mera inépcia
O sonho
está no perseguir!
As nítidas figuras de
Paul Klee
enchem a tela
mas isso
não é obra
de criança
A cura começou, talvez,
com as abstrações
da arte arábica
Dürer
com sua Melancolia
estava ciente disso –
a destroçada alvenaria. Leonardo
viu-a,
a obsessão,
e a ridicularizou
em La Gioconda.
Bosch
com suas turbas de almas torturadas e os diabos
que as atacam
pescam
engolindo
suas próprias entranhas
Freud
Picasso
Juan Gris.
A carta de um amigo
dizendo:
Nas três
últimas noites
tenho dormido feito uma criança
sem
álcool nem droga de qualquer espécie!
Sabemos
que uma estase
de crisálida
estirou suas asas –
como um touro
ou o Minotauro
ou Beethoven
no scherzo
de sua 9ª sinfonia
batendo
os pés pesados
Vi amor
nu sobre um cavalo
sobre um cisne
sobre o dorso de um peixe
a sanguinária enguia congro
e ri-me
recordando o judeu
dentro do poço
entre os seus companheiros
enquanto indiferente o camarada
da metralhadora
ia pulverizando a pilha.
Ele
ainda não tinha sido atingido
mas sorria
confortando os companheiros.
Sonhos me possuem
e a dança
dos meus pensamentos
envolvendo animais
os inocentes bichos
e então me veio
bem agora
a consciência da
tirania da imagem
e de como
os homens
em seus desenhos
aprenderam 
a destruí-la
qualquer que pudesse ser,
a fim de que a perturbação
de suas mentes
se aquietasse,
fosse posta na cama
novamente.
 

 

William Carlos Williams
Poemas
Seleção, tradução e estudo crítico: José Paulo Paes
Editora Companhia das Letras – edição 1987