Prosa@Poesia

Balada dos dois avós

Nicolás Guillén Publicado em 29.02.2008

*

(1902-1989)

Sombras que eu vejo, eu tão-só,
me escoltam meus dois avós.

Lança com ponta de osso,
tambor de couro e madeira:
meu avô negro.
Gorjal no largo pescoço,
gris armadura guerreira:
meu avô branco.
Pé desnudo, torso pétreo,
os do avô negro;
pupilas de vidro antártico,
as do avô branco.

África de selvas úmidas
e de gordos surdos gongos...
- Eu morro!
(Grita meu avô negro.)
Água-lama de caimães,
virentes manhãs de cocos...
- Me canso!
(Grita meu avô branco.)
Ó velas de amargo vento,
galeão ardendo em ouro.
- Eu morro!
(Grita meu avô negro.)
Ó costas de colo virgem,
enfeitadas de avelórios...
- Me canso!
(Grita meu avô branco.)

Ó puro Sol repuxado,
prendido no aro do Trópico;
ó Lua redonda e limpa
por sobre o sonho dos monos...

Quantos barcos, quantos barcos!
Quantos negros, quantos negros!
Que longo fulgor de canas!
Que látego, o do negreiro!
Sangue? Sangue. Pranto? Pranto.
Veias e olhos entreabertos,
e madrugadas vazias,
e entardeceres de engenho,
e uma grande, forte voz,
despedaçando o silêncio.
Quantos barcos, quantos barcos!
Quantos negros!

Sombras que eu vejo, eu tão-só,
me escoltam meus dois avós.

D. Frederico me grita,
e Pai Facundo se cala;
dentro da noite os dois sonham,
e andam, andam.
Eu reúno-os,
  - Frederico!
Facundo! – E eis os dois se abraçam.
Os dois suspiram. Os dois
as fortes cabeças alçam;
os dois do mesmo tamanho
sob as estrelas tão altas:
os dois do mesmo tamanho,
ânsia negra, e ânsia branca,
os dois do mesmo tamanho,
gritam, sonham, choram, cantam,
cantam... cantam... cantam...

Grandes vozes líricas hispano-americanas
Seleção e Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Editora Nova Fronteira – edição 1990

* Os versos 9, 10, 11 e 12 não constam no livro El son entero, de Nicolas Guillén. (N.T.)