Prosa@Poesia

Os Bolcheviques

Bertolt Brecht Publicado em 18.10.2007

*

Os Bolcheviques descobrem no verão de 1917, no Smolny, onde o povo estava representado: na cozinha
Quando a Revolução de Fevereiro havia terminado e
o movimento das massas
Estava parado
A guerra ainda não havia chegado ao fim. Os 
camponeses
Estavam sem terra, os operários eram oprimidos e
passavam fome.
Mas os sovietes eram eleitos por todos e representavam
alguns poucos.
Quando tudo permanecia como antes e nada mudava
Os bolcheviques andavam nos sovietes como criminosos
Pois continuavam exigindo que as armas
Fossem apontadas contra o verdadeiro inimigo do
Proletariado: os dominadores
Eram tidos como traidores, considerados
contra-revolucionários
Representantes de bandidos. O seu líder Lênin
Chamado de espião mercenário, escondia-se num celeiro.
Para onde olhavam, os olhares
Desviavam, silêncio os recebia.
Viam as massas marcharem sob outras bandeiras.
Erguia-se a burguesia dos generais e comerciantes
E a causa dos bolcheviques parecia perdida.
Durante esse tempo eles trabalharam como de costume
Sem dar atenção à algazarra e sem se abater com a
franca deserção
Daqueles por quem lutavam. Continuaram, sim
Tomando partido dos mais pobres
Com esforços sempre renovados.
E atentaram, segundo seu próprio relato, para coisas
desse tipo:
Na cantina do Smolny observaram que
Quando a comida, sopa de repolho e chá, era servida
O garçom do Comitê Executivo, um soldado
Oferecia aos bolcheviques um chá mais quente e
Pão com manteiga, e ao servir
Evitava olhar para eles. Então perceberam:
Simpatizava com eles e escondia isso
Dos superiores, e assim também todo o pessoal inferior
Do Smolny, guardas, mensageiros, sentinelas,
Inclinava-se visivelmente a favor deles.
E quando viram isso disseram:
“Nossa causa está ganha pela metade”.
Pois o menor movimento por parte dessa gente
Afirmação ou olhar, mas também silêncio e desvio
do olhar
Era para eles importante. E por essa gente
Serem considerados amigos – este o seu objetivo maior.

 

Brecht Poemas – 1913 – 1956
Seleção e tradução de Paulo César Souza
Editora Brasiliense – 3ª edição.