Prosa@Poesia

A Berlim

Vinícius de Moraes Publicado em 11.09.2007

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Vós os vereis surgir da aurora mansa
Firmes na marcha e uníssonos no brado
Os heróicos demônios da vingança
Que vos perseguem desde Stalingrado.

As mãos queimadas do fuzil candente
As vestes podres de granizo e lama
Vós os vereis surgir subitamente
Aos heróicos prosélitos do Drama.

De início mancha tateante e informe
Crescendo às sombras da manhã exangue
Logo o vereis se erguer, o Russo enorme
Sob o sol rubro como um punho em sangue.

E ao seu avanço há de ruir a Porta
De Brandemburgo, e hão de calar-se os cães
E então hás de escutar, Cidade Morta
O silêncio das vozes alemãs.

Rio, 3/02/1945
às vésperas da queda de Berlim

 

 

Vinícius de Moraes – Jardim Noturno – Poemas Inéditos
Companhia das Letras
Organização e Seleção Ana Miranda
Editora Schwarcz ltda.