Prosa@Poesia

Conclusão

Graciliano Ramos Publicado em 24.08.2007

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      Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.

      Evitei emaranhar-me em teias de aranha.

      Certos indivíduos, não sei porque, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos. Não me entendi com esses.

      Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreve cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, e abençoada canalhice, preciosa para quem pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos.

      Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas.

     Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.

      Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome.

      Não me fizeram falta.

      Há descontentamento. Se minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.

      Paz e prosperidade

      Palmeiras dos Índios, 10 de janeiro de 1929.

 

Graciliano Ramos – Relatórios
Organização Mário Hélio Gomes de Lima
Editora Record