Prosa@Poesia

Gramatiquinha (*)

Mario de Andrade Publicado em 29.06.2007

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Prefácio [1]

      Antes da Introdução um prefácio pequeno verdadeiramente humilde. Esta é a primeira vez em que me sinto verdadeiramente tímido ao publicar um livro e incerto sobre a validade deste. É certo que estudei até o possível entre os acasos da minha vida autodidática a língua portuguesa de que deriva em maior parte a nossa maneira de expressão, porém é também certo que esse conhecimento não é suficiente pra eu me meter nas altas cavalarias de escrever um livro de linguagem. Me parece francamente que careci ter topete pra agir assim e o meu livro me parece a primeira real mas não bem clarificada na consciência manifestação de cabotinismo* da minha vida artística.

      Outros é que deviam escrever este livro e tenho consciência de que um dia a gramática da Fala Brasileira será escrito (sic). Porém certas considerações se não desculpam ao menos explicam o meu topete. Outros deveriam escrever este livro, não tem dúvida, porém o certo é que ninguém se abalançou a escrevê-lo. Inda mais: temos livros valiosos como A Língua Nacional de J. Ribeiro, O Dialeto Caipira de Amadeu Amaral, que são verdadeiros convites pra falar brasileiramente. Porém os autores como idealistas que são e não práticos, convidam, convidam porém principiam não fazendo o que convidam. Não tiveram coragem. Eu tive a coragem e é o que explica o meu valor funcional na literatura brasileira moderna. Não me iludo absolutamente a respeito do valor das minhas obras. Sei que, como arte, elas valem quasi nada, porém são todas exemplos corajosos e imediatamente práticos do que os outros devem fazer ou ...não devem fazer. Erros e verdades. Fui obrigado a me meter num despropósito de assuntos e por isso a ficar na epiderme de todos eles. Sobre poesia, poética, estética, arquitetura, música, prosa, psicologia, pintura, e até linguagem escrevi! Numa época como a nossa em que o conhecimento seguro de cada uma dessas criações da vitalidade humana pede uma vida inteira, devera compreender que era impossível pra mim criar obra duradoura. Não fiz mais que vulgarizar. Não fiz mais que convidar os outros ao estudo verdadeiro dessas criações humanas. Porém convidei praticamente, com o meu exemplo e o sacrifício das minhas vaidades naturais de escritor. Isso é muito bonito, franqueza, e posso dizer que quando penso em mim, o que não sucede raramente, eu me sinto feliz. E nem a consciência exata dessas fraquezas apontadas, nem a amargura dessas reflexões me diminui essa felicidade. Porque não sou sujeito que se ilude e seria no mínimo ilusório considerar minha obra como manifestação duma arte, quando ela não passa da manifestação duma vida. Continuo sendo feliz.

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* cabotinismo – exibição, presunção, pretensão, bestice.


Prefácio [2]

      Não se trata dum livro técnico nem pra técnicos. Homem pra estes talvez sirva de alguma coisa porque geralmente são tão presos a leis e regras convencionais, tem um espírito crítico tão pequenininho e lerdo que a violência ingênua das minhas liberdades talvez contenha mais duma sugestão pros tais. Porém, embora estude com seriedade e constância a minha língua e a língua dos meus antepassados, me parece cada vez mais que não se nada delas tal a barafunda que fazem em mim as comoções, as esperanças, as ambições e as verdades e leis. Sou bem um leigo na matéria. Não tenho pretensão nenhuma. Porém minha vida tem sido sempre essa belíssima coisa que se chama agir com vivacidade e coragem. Ora diante de todos aqueles que aconselhavam a intromissão de certos modismos e certas fórmulas gramaticais dos brasileiros na Tábua de Leis lingüísticas da língua lusitana, eu tive a coragem conscientemente, seguindo a tradição e o exemplo bonito de José de Alencar, tive a franqueza de agir em vez de ficar no discurso “Irmãos, fazei!”. Sempre tive horror ao “Sejamos!”. Eu sou. Assim fica entendido que isto não é uma obra científica. É ainda e sempre uma obra de ficção organizada pelo amor que consagro à Humanidade e nascida da comoção fortíssima que sempre faz nascer em mim a vida das palavras.

       É certo que desque me pus na fadiga de escrever brasileiramente, não fiz caricatura nem pândega. Todas as manifestações de brasileirismo lingüístico que empreguei, empreguei sinceramente, não pra fazer comicidade nem mostrar burradas de incultos. Estilizei com seriedade depois de muito matutar e nem tudo aceitei porque si o povo pela sua incultura é por muitas partes imbecil e estúpido, por essa mesma incultura que o livra de uma imundície de preconceitos descobre aquelas fórmulas orais de expressões que incarnam, refletem e explicam as sensibilidades caracteristicamente nacionais. Fui sincero, paciente e estudioso nas minhas estilizações. Algumas, forçadas, que usei, como Oropa e outras, pela própria maneira com que estão empregadas; pela própria significação irônica da frase que as encerra, provam que eram depreciativas ou ironias-ataques, não coisa séria.

       Ainda mais uma coisa: muita gente, até meus amigos, andaram falando que eu queria bancar o Dante e criar a língua brasileira. Graças a Deus não sou tão iguinorante nem tão vaidoso. A minha intenção única foi dar a minha colaboração a um movimento prático de libertação importante necessária. Dar a minha solução pessoal a um problema que pode comportar muitas soluções transitórias ocorrentes e que só muito mais tarde, tenho inteligência bastante pra saber isso, terá a sua solução definitiva-evolutiva que tem de ser inconsciente e unânime. Si cada um, estudando com seriedade e trabalhando com afinco, desse a sua solução pessoal e transitória a este problema, não dou vinte anos, o elemento culto brasileiro, quero dizer a manifestação humana civilizada e por isso representativa (não falo característica) do Brasil na civilização atual já falaria e escreveria e já teria gramáticas duma fala mais concorde com a nossa nacionalidade original, a nossa sensibilidade, ideais e civilização. Isso seria prático. Isso seria ter liberdade bem compreendida. Isso seria cultura verdadeira. E sobretudo seria humano e enriquecer a Humanidade.

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      É incontestável que eu escrevendo na língua artificial e de ninguém em que escrevo atualmente por assim dizer escapoli da possibilidade de errar. Isso não tem dúvida não porém a gente carece notar duas coisas:

      Primeiro: Posso dizer com certa sinceridade que sei ou pelo menos já sube escrever o português. Dou como livro escrito nessa fala a minha Escrava que não é Isaura. Livro publicado com certa afobação só me desculpo nele da barafunda de acentos que por vezes saíram bem falseados. A culpa não foi minha que nesse tempo inda eu não sabia rever provas não. Afora isso me escapoliu um “poude” por “pôde”, cacoete em que cochilei uma feita no volume. Porém é certo que sabia da ortografia legítima como a gente constatará pelos livros anteriores. Agora escrevo conscientemente “poude”. O outro erro, também de ortografia nem me lembro mais qual é. Afora esses, duvido que possam me mostrar erro de deveras erro no livro. Podem chicanar com pontos de controvérsia, erro mesmo erro portanto que ninguém não acha nenhum. Na medida do um bocado mais que o possível, estudei com paciência a fala portuga. E não foi só nas gramáticas de todo gênero não. Nenhum dos clássicos portugueses grandes deixei de ler com paciência. Alguns me foram até familiares como o doce frei Luís de Sousa que eu gostava muito, Garret, Camões, Castelo Branco e Latino. Os outros lia mais por obrigação com verdadeira paciência, sobretudo Vieira e Castilho, que jamais não pude apreciar. De Camões sabia de cor o intróito dos Lusíadas, a passagem de Inês, a dos Doze de Inglaterra, a Tempestade e o Adamastor, além de pra mais de cincoenta sonetos. Também se explica tanta decoração. Uma feita assuntei pasmo no tempo que a gente perde fazendo a barba todo santo dia. Me lembrei de decorar coisas bonitas de Camões e o Bilac adorado naqueles tempos de dantes foram os que decorei mais. Porém até a Benvinda de Macedo Papança papei inteirinha. Fiquei até dizedor de festinhas sonorosas, duma sociedade católica. Sonetos então, sabia pra mais de cem! Tempos em que sonhei possuir um estilo que docinho como o de frei Luís de Sousa fosse elegante que nem Garret e relumeante que nem Latino Coelho!...

      Ora eu, como toda a gente, desconfio um bocado de quem não sabe uma coisa e se bota falando mal dela. Que importância fundamentada tem agora que um indivíduo inculto fale mal da Cultura? Bem pouca si o indivíduo não ficar apenas no senso-comum do lugar-comum. Porém eu sei o português. Ou pelo menos sube, que, palavra, quando principiei vivendo de vida nova nunca mais que não peguei em certos famanados. Minha biblioteca está povoada de “Hic facet”. Pois é. Si eu deixei de escrever em português bem que posso pois falar que foi por causa de ter adquirido uma convicção nova.

      Segundo: É incontestável que com a estilização da fala brasileira feita por mim, estilização em que além de generalização de modismos sintáticos brasileiros e ilações que tiro deles, entram ainda modismos esporádicos colhidos de pessoal que escuto, cartas que recebo, livros, jornais, anúncios etc. que leio e mais as variações e fantasias estilísticas que me são próprias... Vou começar outra frase porque essa está ficando manguari por demais. É incontestável que com a estilização da fala brasileira que é a minha contribuição pessoal prá codificação futura do brasileiro, ninguém não me pode pegar em erro. Basta ver as modificações de estilo, de modismos vocabulares e de ortografia dum livro meu pra outro pra se ver que tudo saiu assim porque eu quis. Mas também por outro lado, si não me podem me acusar de erro, também é certo que não me deixei adormecer nos braços molengos da facilidade. Minha fala é dificílima até.

      Requereu? e requer estudo constante, prática mensal de centenas de vocabulários apensos a quanto livro regionalista surge por aí tudo e muita observação pessoal. E muita paciência de observação psicológica. E uma universalidade brasileira que jamais ninguém nunca não poderá chamar de regional. Si muitos que tentaram o que eu tento despencam prá facilidade e pro regionalismo, eu não. Posso dizer sem vaidade porém, com consciência que não. Ora com o conhecimento prévio da fala portuga, com o estudo paciente das falas brasileiras e com a estilização penosa delas creio que tenho três perdões bons da libertação do erro em que contra a vontade me vejo. Posso escrever o que me vier na cachola, até coisa que eu mesmo reconheça ser erro em brasileiro, sem que ninguém não possa com justiça me acusar de erro. Pelo simples fato de que ninguém sabe o que foi consciente e o que foi falsificação, num estilo tão extravagante que nem o meu. Sob esse ponto estou na situação dum primitivo. E por isso escrevo mesmo que nem primitivo, naquilo em que o posso ser, isto é, sem a preocupação de que isto é erro e isto não. Minhas preocupações de língua escrita são outras. O que ficará das milietas de processos empregados por mim? Não posso maliciar isso não. Pode até não ficar nada. Pode porque tudo é possível porém duvido. Que importância tem um processo de compra, uma norma de falcoeiro, uma carta quatrocentista prá fala portuga de agora? Importância bibliográfica, importância pra estudioso, importância sem importância. Isso eu serei, passado um século ou dois.

      Que bem que importa, gente! Que bem que importa? Importância tem pra mim mas é minha vida e minha eficiência na vida contemporânea que vivo. Nessa garanto que sube representar um destino. É que esse destino era bem o meu tudo me está provando: uma consciência, uma segurança de mim que me deixa dormir bem, uma curiosidade faminta de mundos, uma alegria sem parada. E tudo isso: terra pra um jardim de cento e tantos amigos que até fazem me iludir: confundo amigos com bugalhos, dou bom-dia pra motorneiro, até-logo pra garçon, me rio pra todo o mundo e cá neste peito batido sei agüentar meus penares. Vida assim condena Deus e Deus condena? É possível que os mártires do mundo tenham pena do que evita o combate a dar... Porém o perdão existe, também pros que amaram por demais. Eu.


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(*) PINTO, Edith Pimentel. A Gramatiquinha de Mário de Andrade – texto e contexto. São Paulo: Duas Cidades. 1990.