Prosa@Poesia

Manejo de armas, esporte olímpico

Italo Bianchi Publicado em 14.06.2007

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      A cada quadriênio, quando volta a ser realizada uma Olimpíada, volta também à mídia um discurso retórico que exalta todas as virtudes do evento, começando pelo estóico “o importante é competir”. Fala-se em saúde, solidariedade, cidadania... e uma porção de outras coisas bonitas. Na cerimônia inicial, geralmente, soltam-se pombinhas brancas, símbolos da Liberdade e da Paz. E os intervalos entre as Olimpíadas são habitualmente aproveitados para atualizar os gêneros de competição e rever os regulamentos, enfim fazer com que as Novas Olimpíadas não envelheçam, pelo menos pro forma. Assim que, periodicamente, eu, como muitos outros pacifistas, aguardamos que sejam canceladas as provas com armas brancas e de fogo em suas várias modalidades, pois não há argumentos de atiradores praticantes que nos convençam que o manejo de armas possa ser considerado um esporte. É uma vergonha, isto sim, que esvazia toda a dignidade do discurso olímpico. Mas nada disso está previsto para 2008. As provas com armas continuarão existindo. E o espetáculo talvez se tornasse mais excitante se alguém sugerisse que as pombinhas fossem soltas na hora do podium, para que os heróis pudessem abatê-las numa demonstração maiúscula de competência esportiva.

      O leitor que me perdoe, mas não é à toa que abordei esse assunto fora de época sobre as modalidades olímpicas. O que me motivou foi um acidente que aconteceu recentemente com Mr. Dick Cheney, vice-presidente dos EUA, quando ele feriu casualmente um amigo durante uma partida de caça às codornas. A notícia, apesar de divulgada com a maior discrição, graças à eficiente assessoria de imprensa da Casa Branca, provocou muitos (e como sempre quase que inúteis) protestos  de ONGs e cidadãos que não admitem mais que se realizem caçadas como divertimento.

     Há poucos dias, quando participei de uma reunião casual de amigos, justamente sobre o tema das caçadas, todo mundo ficou empolgado com o debate dos argumentos ecológicos, humanitários e até sentimentais. E como o grupo era formado quase exclusivamente de gente de comunicação, a reunião se transformou em um desvairado brainstorm para criar a campanha educativa do século. Até que um colega congelou a nossa conversa, chamando-nos à realidade. Aí, ele falou e disse. A morte gratuita de bichinhos inocentes não representa nada diante do sacrifício de vidas humanas que acontece na luta pelo poder desde as mais antigas civilizações. E para não posar a moralista histórico, repetindo aquilo que todo mundo já sabe, e não fugir do assunto Mr. Cheney que provocou o debate, ele imaginou uma situação exemplar que em nada difere de mil episódios antigos. Ele imaginou uma cena em que o vice-presidente dos EUA passa em revista uma tropa de soldadinhos bem pagos e bem armados que vão defender, patrioticamente, os interesses do seu país, em algum lugar do mundo que, talvez eles nem saibam bem aonde fica. Nada de estranho e nada de novo.

      Quanto a ele, o vice, poderá voltar a caçar codornas, tendo somente mais cuidado para não ferir os amigos. A única argumentação que encontrei para aplacar a tristeza do grupo, após a filípica do nosso amigo, foi dizer que o fato de muitos seres humanos serem vítimas da crueldade de outros não justifica que nós sejamos igualmente cruéis com os bichos, só para brincar de seres superiores.

      Mas já que iniciei esta crônica falando nas pombinhas, vou concluir lembrando um insignificante episódio a respeito delas. Quando criança, costumava freqüentar, no mês de agosto, uma colônia de férias, perto de Milão, que, por sua vez era próxima de um clube de tiro aos pombos. Certa manhã, uma amiguinha recolheu uma pombinha ferida e tratou dela durante dois ou três dias. Finalmente, a bichinha morreu no colo dela. Eu estava ao lado. Choramos silenciosamente. Os dois.