Prosa@Poesia

Cheiro Forte

Silviano Santiago Publicado em 14.02.2007

Posfácio

      De que moeda o poeta se vale quando entrega um poema à sociedade de leitores? Que moeda recebe ele em troca dos contemporâneos?

      O repertório de respostas é variado e pode ser levantado à exaustão. Se por um lado Ezra Pound é crítico ferrenho da usura, por outro lado ao querer justificar a validade da palavra poética (ou do julgamento sobre a palavra poética), inventa uma parábola tomada de empréstimo a Wall Street. Escreve ele em ABC da literatura: “Se o Sr. Rockefeller emite um cheque de um milhão de dólares, o cheque é bom. Se eu fizer o mesmo, é uma piada ou uma fraude, ele não tem nenhum valor. Levada a sério, a sua emissão se torna um ato criminoso. O mesmo se aplica a cheques relativos ao conhecimento. “Não se questiona o resgate de um cheque bancário assinado por Rockefeller, porque se sabe de antemão que tem fundos na praça. O sistema econômico internacional injusto o glorificou por ter sabido acumular o capital em causa e nome próprios.

      Um cheque poético entra em sistema econômico de funcionamento idêntico, só que vai parar em outra contabilidade, a do “conhecimento”. Por isso o seu significado “só pode ser avaliado adequadamente por alguém que “SAIBA”. O senso comum e a atualidade costumam não ser suficientes na avaliação de fundos do cheque poético. O que esta em jogo nas palavras citadas de Pound é o fato de que, para se escrever poesia, antes de mais nada é preciso que o autor tenha, nos bancos culturais da praça, as reservas proporcionadas pela acumulação de leituras. Pound nos aconselha a voltar aos tempos medievais: “Chaucer escreveu numa época em que a leitura não constituía nenhuma ignomínia”.

      Existem, portanto, nos textos de Pound, dois tipos de usura que cumpre diferençar.

      Com a usura financeira “nenhum quadro é feito para durar e viver conosco/ mas para vender, vender depressa” [...] “Usura enferruja o cinzel/ Enferruja a arte e o artesão/ Rói o fio no tear”* [no picture is made to endure nor to live with/ but it is made to sell and sell quickly” [...] “Usura rusteth the chisel/ It rusteth the craft and the crastman/ It gnaweth the thread in the loom”. Cantos, 45]. Rockefeller é um divisor de águas que serve para evitar confundir alhos com bugalhos. Ele é, pois, uma metáfora que ajuda a compreender um outro e paralelo sistema não só de acumulação do capital, como também de legitimação da assinatura pelos pares. Contempla Pound: “O livro mais safado que há em nosso idioma é um manual muito bem bolado ensinando às pessoas como ganhar dinheiro escrevendo.” E acrescenta: “A principal causa da má literatura é a econômica. Muitos autores querem dinheiro ou precisam dele. Tais escritores podem ser curados com uma aplicação de notas [banknotes].”

      Numa economia de mercado, como a atual , esses escritores perdulários se equivocam ao medir a qualidade da própria obra pelos índices da Bolsa de Valores (ou seja, pelos números da lista de best-sellers). As ações sobem ou descem, diariamente. Menos as do grande livro de poemas, que nem sobem nem descem, porque merecem crédito por parte dos corretores.

      A usura poética negocia com o capital individual de leituras e visa ao conhecimento desinteressado. Como se valeu antes de Rockefeller, Pound se vale agora de Hegel, em virtude de ter o filósofo alemão afirmado: “Os homens deveriam estar mais orgulhosos por terem inventado o prego e o martelo do que por terem criado obras-primas de imitação.” Ao contrariar o uso utilitário da linguagem, a usura poética escreve “livros que são concebidos e utilizados como REPOUSO, narcótico, ópio, leitos mentais”. Ironiza-se ele: “Ninguém dorme sobre um martelo [...], não se prega um prego com um colchão.” Leituras e conhecimento não pragmático, excessivos, são a garantia de que o novo texto poético pode circular de maneira legítima, sem que um caixa (no caso: um crítico) interrompa a sua circulação por julgar que o assinante não tem fundos ou que a assinatura é falsa. A originalidade e a legitimidade do novo produto ficam comprometidas pela falsidade da moeda (v. André Gide, Os moedeiros falsos) que o escritor quer passar.

      Essa segunda lição se confunde com a do próprio ABC da literatura, onde o aspirante à poesia – antes de querer passar a sua moeda poética à comunidade de leitores – é convidado, páginas após páginas, ir subindo, degrau após degrau, a escada do Parnaso (Horácio). Para que a palavra poética circule sem entraves por essa comunidade é preciso que venha respaldada por uma conta corrente onde a coluna de crédito seja digna de respeito.

      As reservas dessa conta corrente do conhecimento (ao contrário dos fundos da conta “Rockefeller”) são um bem comum a todos os homens letrados, porque o conjunto  acumulado das moedas que as compõe – o capital literário – se qualifica como história da cultura humana. O uso inventivo e imaginativo desse capital é que retira a nova palavra poética do campo do “talento individual” propriamente dito e a coloca no campo da “tradição” para retomar a dicotomia clássica de T.S. Eliot. Escreve ele: “Nenhum poeta, nenhum artista de qualquer arte tem o seu significado completo sozinho. Sua significação, sua apreciação é a apreciação de sua relação com os poetas e artistas mortos. Você não pode valoriza-lo isoladamente; você tem de coloca-lo, para contraste e comparação, entre os mortos. Digo isso como princípio de estética, não meramente histórica, mas crítica.”

      A distinção estabelecida por Eliot, acoplada às palavras de Pound, é importante, porque serve para configurar esteticamente a assinatura do poeta e o que os manuais de literatura clássicos chamam de influência. A assinatura de um texto existe num movimento de diferença: é a dele (do poeta talentoso) e a de todos os outros grandes poetas do passado que ele elegeu e leu e que, por isso, emula.

      De novo, a metáfora Rockefeller pode ser instigante.

      A mais-valia poética é obtida com a exploração de parte da força de trabalho dos operários das letras que antecedem o novo autor e é ela, por mais injusto que seja o sistema, a melhor garantia de sucesso artístico do novo livro. Ou melhor: o novo e grande livro de poemas é  a moeda que resgata a dívida (ou a ansiedade, para usar o termo de Harold Bloom) que o poeta contraiu com os seus antecessores. O novo livro de poemas será medíocre se não chegar a resgatar essa dívida. Assim como Rockefeller, na qualidade de milionário, é o maior credor/devedor do sistema financeiro mundial, cada poeta, legitimamente reconhecido como tal, é um credor/devedor do sistema cultural da humanidade. O bom crítico é o que, pela configuração de alusões, referências e citações existentes no novo texto poético, assinala a dívida que está por detrás da mais-valia.

      Na verdade, com respeito ao presente e ao futuro do autor, constata-se que, assim como Rockfeller viraria um pobre coitado se resgatasse a sua dívida, assim também um grande autor nunca chegará a resgatar, a quitar completamente a dívida contraída pelo seu texto (caso a resgatasse, a assinatura não seria em diferença, seria a assinatura de um tolo presunçoso). Por isso, a critica, por mais justa e inteligente que seja, tem papel inercial diante da força artística que perdura na grande obra. Ela vincula a obra ao estágio presente do tempo e, por isso, no melhor dos casos, acerta, sempre se equivocando.

      No poema chamando chamado “Escrituras do Pai”, de Carlos Drummond de Andrade, lemos estas palavras dirigidas ao Filho: “Estarás sempre devendo/ tudo quanto te foi dado/ e nem pagando ate o fim/ o menor vintém de amor/ jamais te verá quitado,/ pois no livro de escrituras/ - capital, juros e mora – teu débito está gravado”.

      Jacques Derrida, em Otobiographies, comenta de maneira pertinente para o nosso raciocínio as palavras de Nietzsche que se encontram no Prefácio a Ecce Homo, livro onde o filósofo pretende nos dizer como chegou a ser o que é e onde também nos diz como pretende continuar a viver e escrever.

      No parágrafo inicial do Prefácio, Nietzsche chama a atenção para o fato de que a desproporção entre a grandeza da sua tarefa filosófica e a pequenez dos contemporâneos impede que estes o ouçam e até mesmo o reconheçam quando o vislumbram pela Engadina. E acrescenta: “Vou vivendo do meu próprio crédito, a partir do crédito que abro e entrego a mim mesmo.”

      Na economia de mercado, a escrita filosófica e poética comete um óbvio “criminal act”, para retomar a expressão de Pound. O poeta não deve ser expulso da República neoliberal, deve ser posto por detrás das grades.

      Fonte constante de prejuízo, o poeta passa moedas sem rentabilidade comercial. Ele não entra na corretagem da Bolsa de Valores do mercado editorial. A moeda que recebe em troca de produto que vai entregando aos contemporâneos é praticamente inexistente ou nula. Por isso ele a saca indevidamente – de maneira transgressora e orgulhosa – de fundos que não lhe são próprios, instituindo um sistema de crédito em causa própria que lhe permite a continuidade da tarefa gloriosa.

      No seu próprio tempo, o poeta passa um cheque cuja assinatura só por ele próprio é reconhecida. O poeta é um credor/devedor que vive do crédito que abre para si na espera de que, um dia, ao reconhecerem a assinatura e a moeda que faz circular, possa ter a dívida devidamente compensada pela leitura e o reconhecimento. Ganha-se a poesia num jogo de dados com os pósteros.

      Antes de se engajar num contrato com os contemporâneos, o poeta assina um contrato consigo mesmo. Diante da morte, ele valida a própria assinatura que lhe permite continuar a viver e escrever, a despeito de.


Silviano Santiago – Cheiro Forte
Editora Rocco – Rio de Janeiro – 1995