Prosa@Poesia

Cobra

D.H. Lawrence Publicado em 16.01.2007

*

Uma cobra abeirou-se da gamela
Num dia de calor, tanto calor e eu de pijama,
Para beber da minha água.

 Na sombra funda de perfume estranho da grande
                                                [alfarrobeira escura
Desci os degraus de cântaro na mão
E tive de ficar, ficar ali à espera pois na gamela
                       [à minha frente estava o réptil.

Ele desceu por uma fenda do muro de terra na sombra
E no bordo da gamela de pedra arrastou devagar o
                                                  [ventre fulvo e mole
E encostou o pescoço no fundo de pedra
E numas pingas límpidas de água escorrida da torneira
Bebeu aos poucos por fauces lisas
Bebeu de leve por gengivas lisas enchendo o corpo
                                                          [lento e longo
Em silêncio.
Alguém chegara primeiro à minha gamela de água
E eu que vim depois fiquei à espera.

Ergueu a cabeça depois de uns goles tal como o gado
E fitou-me vagamente como faz o gado a beber,
A língua saía-lhe da boca, bífida, súbita; alheou-se
                                                               [um momento
E inclinando-se a beber um pouco mais
Castanho como terra, terra de oiro, saído das entranhas
                                                            [da terra ardente
Nesse dia siciliano de Julho, com o Etna em fumos.

As vozes da minha educação diziam
Que tinha de ser morto esse réptil
Pois na Sicília não há mal nas cobras todas negras
                                  [mas nas douradas há venenos.

E aquelas vozes em mim diziam: Se fosses homem
Pegavas num pau, partias-lhe a espinha e era o fim.

Será preciso confessar que gostei dele
Que era bom ele ter vindo, convidado silente beber
                                                            [da minha água
E poder voltar em paz, apaziguado, sem mesmo
                                                        [agradecer
Para as entranhas ardentes dessa terra?
Era cobardia não ousar mata-lo?
Era perfídia querer tanto falar-lhe?
Era humildade sentir tanta lisonja?
E era tanta a lisonja que eu sentia.

E todavia aquelas vozes:
Se não fosses medroso, havias de mata-lo!

Tinha medo na verdade um grande medo.
Ainda assim, maior era a lisonja
Pois ele viera ao meu quintal pedir guarida
Saindo a porta escura da terra de mistério.

Deu-se por satisfeito,
E levantou a cabeça no olhar ausente de quem já bebeu
E a língua súbita saía-lhe da boca como negra noite
                                                       [bífida nos ares
Parecia lamber o lábio
E como um deus olhou os ares em volta, sem ver,
E virou a cabeça devagar
E devagar, devagar como se em triplo sonho
Dispôs-se a desenrolar o seu lento comprimento
E a trepar de novo pela rampa em ruína do meu muro.

E enquanto metia a cabeça naquele buraco horrendo
E se erguia devagar num espreguiçar de réptil que
                                                                [se enterra,
Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra
             [o seu regresso àquele buraco negro e horrendo
Contra aquele retorno deliberado à escuridão no arrastar
                                                                [lento do corpo
Apossou-se de mim ao vê-lo de costas.

Olhei em volta, pousei o cântaro,
Peguei num pau grosseiro
E atirei-o à gamela num estalido.

Acho que não acertei
Mas o resto do corpo entrou de repente em convulsão
                                                   [brusca e decomposta
Contorceu-se como relâmpago e sumiu-se
No negro buraco, na fenda de bordos térreos da face
                                                                    [do muro;
Olhei fascinado na luz do meio-dia intensa e calma.

E arrependi-me no mesmo instante.
Pensei que fora um gesto ignóbil, perverso, obsceno!
Tive nojo de mim e das vozes da minha maldita
                                                  [educação humana.

E pensei no albatroz
E desejei que voltasse a minha cobra.

Pois esse réptil parecia-me um rei de novo
Rei exilado deposto sem coroa no mundo subterrâneo
Prestes a ser de novo coroado.
Perdi o ensejo concedido por um dos soberanos
                                                                     [da vida.
E tenho de expiar uma atitude:
Ser mesquinho.

 

Gencianas Bávaras e Outros Poemas – D.H. Lawrence – versão de João Almeida Flor
Editora Na Regra do Jogo 1983
Coleção Inverso