Prosa@Poesia

Cronistas dos séculos que hão de vir

Walt Whitman Publicado em 22.12.2006

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Cronistas dos séculos que hão-de vir,
Venham, vou fazer-vos entender o que está sob minha impassibilida-
de, dizer-vos o que há a dizer a meu respeito,
Publiquem o meu nome e pendurem o meu retrato como o do amante
mais tenro,
O retrato do amante, do amigo, de quem o eu amigo era o amante mais
dedicado,
Que não estava orgulhoso das suas canções, mas do imenso oceano
de amor dentro de si, que espontaneamente se derre-
mava,
Que muitas vezes caminha só, recordando os amigos queridos, os
seus amantes,
Que, pensativo, longe daquele que amava, muitos vezes, passou muitas
noites sem dormir, triste,
Que conheceu demasiado bem o doentio medo, receando que aquele que
amava lhe fosse secretamente indiferente,
Cujos dias mais felizes foram passados longe nos campos, nos bosques,
nos montes, ele e um outro vagueando de mãos dadas,
os dois isolados dos outros homens,
Que muitas vezes enquanto vagueava pelas ruas apoiava o braço no om-
bro do seu amigo, enquanto o braço deste se apoiava
igualmente no seu.

 

 

Folhas de Erva – Leaves of Grass – Vol. I – Walt Whitman
Tradução completa incluindo os anexos e poemas póstumos de Maria de Lourdes Guimarães.
Prefácio de Fernando Guimarães
Editora Relógio D’Água – edição 2002.