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O martelo, a caneta e o giz: Lições de Mãe

Eduviges Saviani Publicado em 06.05.2016

Fica aqui o meu tributo à minha mãe, que nunca conheceu um banco de escola, mas teve inteligência e sabedoria. (...) Foi camponesa, trabalhou na lavoura do café e, na Capital de São Paulo, foi contra a “Marcha da família com Deus pela Liberdade”, no golpe de 1964.

Eu morava em uma rua chamada Oatapu – na vila Diva, Zona Leste de São Paulo, Capital. A rua era revestida de cascalho de fundição para amenizar o barro que fazia quando chovia.

Aos meus dez anos de idade, eu ficava procurando ferrinho para vender a um homem que reciclava ferro e alumínio velho para fabricar novas peças.

Um dia eu achei um martelo e quando cheguei em casa minha mãe me perguntou como eu havia adquirido o mesmo. Respondi que foi na rua e ela me disse:  “vai ver de quem é esse martelo”.

Eu andei a rua inteira, perguntei de casa em casa e não encontrei o dono. Aí, fiquei com o martelo e o tenho até hoje; é meu patrimônio.

Na escola, certa vez achei uma caneta e a entreguei à professora, dizendo: “olha, a senhora pergunta quem a perdeu e lhe entregue”.

No dia seguinte, vi que a caneta estava com o filho dela. Aí eu fui até à professora e lhe disse; “minha mãe me ensinou que quando a gente acha alguma coisa tem que procurar o dono e a senhora não fez isso; é errado ficar com as coisas dos outros”.

Todos os dias eu ia à escola e quando terminava a aula perguntava à professora se sobrou algum giz e pedia que me desse, pois eu gostava de ajuntar pedaços de giz. Mas eu achava mais bonitos os grandes.

Minha mãe deixava em cima do guarda-comida alguns trocados. Uma vez peguei cinco cruzeiros e comprei uma caixa de giz. Sentindo a falta do dinheiro, minha mãe perguntou para mim e para meus irmãos: “quem pegou o dinheiro que estava aqui”? Respondi: “fui eu, para comprar giz”.

Ela me chamou para perto dela, mandou-me levantar as mãos e me deu várias palmadas. E me disse: “isto é para você aprender a nunca tirar nada de ninguém”.

***

Eu ouvia minha mãe e meu avô conversarem sobre política. Ele dizia que aqui no Brasil deveria haver um Presidente igual ao Mussolini. E ela dizia: “um fascista, nem pensar; Deus que nos livre”!

Meu avô era um cara “bacana”: quando ia nos visitar, levava um pacote de balas e dava uma bala para mim e uma para cada um dos meus irmãos. Só que para meus primos ele dava um pacote de balas. Eu não conseguia entender que divisão era essa e sentia muito essa diferença.

Éramos ensinados a cumprimentar meus avós e meus tios beijando suas mãos. Eu via muita diferença e muita humilhação do meu avô e dos meus tios em relação a mim e aos meus sete irmãos. Eles nos desprezavam e criticavam minha mãe e meu pai por terem muitos filhos.

Aí eu deixei de beijar as mãos deles.

Em 1960, aos quatorze anos de idade, comecei a trabalhar numa firma. Em 1961, já em outra firma, no envelope do meu primeiro pagamento veio uma nota a mais, de 500 cruzeiros. Tive vontade de ficar com o dinheiro. Mas, foi incrível, minhas mãos esquentaram, eu não sabia o porquê. Fui ao meu supervisor e disse que precisava devolver o dinheiro que veio a mais.

Ele me disse: “você é boba, fique com o dinheiro”. Perguntei: “ser honesta é ser boba”? E insisti que iria devolver, sim! E ele: “então deixe que eu devolvo”. Retruquei: “já que você acha que sou boba, eu mesma vou ao Departamento Pessoal e entregar para a pessoa que fez o pagamento”.  Era uma nota bem novinha!

Houve um período na minha vida em que eu acreditava só na minha mãe. Ela era meu ídolo do bem, era perfeita. As outras pessoas com quem me relacionava, eu achava que queriam me levar para o mal. Minha mãe foi um exemplo de mulher, o espelho para a formação do meu caráter, da personalidade, da honestidade e da convicção política que tenho até hoje.

Com o tempo, consegui derrubar muitos mitos e ídolos na minha vida. Descobri que nossas dúvidas e nossos problemas não se limitam à família, à escola e ao trabalho...

Através de uma terapia, em seis anos muito bem aproveitados, tive a oportunidade, por exemplo, de descobrir que minha mãe foi, de fato, uma mulher de coragem, uma guerreira, uma educadora, uma vencedora. Mas um Ser Humano, com qualidades e defeitos.

Ao perceber que pessoas de meu relacionamento também tinham defeitos e qualidades, pude ver qualidades que não sabia que eu tinha e também defeitos que tinha e tenho.

Consegui ver que ignorância não é palavrão, xingamento, mas sim algo que a gente não sabe e que procura aprender e saber. Aprendi a fazer autocrítica e respeitar as pessoas com quem mais convivi, como seres humanos que têm defeitos e qualidades.

Muito melhor do que idolatrar, é reconhecer que as pessoas capazes e inteligentes também têm seus limites e defeitos.

Fico pensando se a mãe de Eduardo Cunha tivesse tido o mesmo comportamento que minha mãe teve, como estaria pensando (ou está pensando, se estiver viva!): “será que criei um monstro”?!

Talvez pense: “fiz o maior esforço para ele não vender o caráter, a personalidade, a honestidade e não perder a vergonha na cara... que tipo de convicção política esse bandido tem”?

Minha mãe nunca me disse “se você for bem na escola lhe compro um presente” ou “vá à padaria para mim, que lhe dou um doce”... Estudar era obrigação e responsabilidade; ir à padaria era colaboração, educação.

Caráter, personalidade, honestidade, não se vendem, nem se dão; são qualidades que se formam, são exemplos a serem seguidos.

Fica aqui o meu tributo à minha mãe, que nunca conheceu um banco de escola, mas teve inteligência e sabedoria. Foi uma pessoa muito religiosa, rezava para os filhos nascerem perfeitos, crescerem sadios e viverem com dignidade. Foi camponesa, trabalhou na lavoura do café e, na Capital de São Paulo, foi contra a “Marcha da família com Deus pela Liberdade”, no golpe de 1964.

Tudo o que sou hoje, devo à minha mãe. As pessoas morrem, mas os ensinamentos e os exemplos ficam vivos na mente da gente!

Salve 8 de Maio de 2016 – Dia das Mães!

 

Eduviges Saviani – Metalúrgica Aposentada.

São Vicente/SP