Prosa@Poesia

POMAR ABANDONADO

Ribeiro Couto Publicado em 23.06.2016

"Minha poesia é toda mansa./ Não gesticulo, não me exalto.../ (...) Assisto, pela vida em fora,/ À coroação dos eloquentes./ É natural: a voz sonora, Inflama as multidões contentes." O gosto pelo tom menor, pela graça fugaz do instante, são marcas da trajetória individual do poeta paulista, antes simbolista, depois modernista, em face da balbúrdia dos "manifestos literários". Em todos os seus poemas, o sentimental e o melancólico são exaustivamente depurados por um estilo claro e limpidamente singelo, que transforma os lugares comuns em uma expressão de pura singularidade poética. (José Almino)

No pomar abandonado

onde pessegueiros velhos se curvam para o chão,

cabras ávidas, de pé nas patas traseiras,

quebram galhos cobertos de frutos verdes

e ficam a roer tranquilamente as folhas.

 

Os cabritinhos lamentosos

andam em volta das mães indiferentes.

Às vezes atiram-se às tetas úberes

e mamam, aos trancos do focinho sequioso.

 

As cabras roem tranquilamente as folhas

e voltam a erguer-se nas patas traseiras,

tentando atingir os galhos mais altos,

cobertos de frutos verdes.

 


                                                                                                           Santos/ SP, 1898

                                                                                                           Paris, França, 1963

 

Livro: Livro dos Poemas

Uma Antologia de Poetas Brasileiros e Portugueses

Organização: Sergio Faraco

Editora: L&PM Editores, 2009