Prosa@Poesia

O morcego

Da Costa e Silva Publicado em 01.11.2016

Apontado pela crítica como o melhor livro do poeta, Zodíaco representa "o cumprimento de um ambicioso projeto de descrever a máquina da natureza". A natureza e a terra natal (Piauí) são o centro do livro, já preocupado com a devastação, no início do século XX (1917). Mesclam-se a técnica apurada parnasiana e o verso livre, assim como efeitos sonoros que mostram a musicalidade do poeta.

Como uma borboleta escura e desconforme,

suspenso pelos pés com o instintivo emprego

das garras que o sustém, o mórbido morcego,

tonto de sono e luz, durante o dia dorme.

 

Dorme durante o dia; e à noite, ei-lo, conforme

é costume, senhor do pávido sossego,

abrindo o membranoso e elástico refego

das asas que lhe dão um todo demiforme.

 

Rasgando, em largo vôo, a treva ampla e uniforme,

o noturno avejão guincha em desassossego,

a pupila incendida a arder na noite enorme.

 

E é de ver-se, depois, em lânguido aconchego,

as asas a abanar sobre o animal que dorme,

o sanguinário egoísmo em forma de morcego.

 

                                                                                        Amarante/ PI, 1885

                                                                                       Rio de Janeiro/ RJ, 1950

                                                                                 

Livro: Livro dos Poemas

Uma Antologia de Poetas Brasileiros e Portugueses

Organização: Sergio Faraco

Editora: L&PM Editores, 2009