Prosa@Poesia

Visitando dois Vladimir

Adalberto Monteiro Publicado em 06.11.2017

Exigi que além do mausoléu do Chefe / Que me levassem à casa do Poeta, / Pois que não há revolução sem as forças do coração.

Boris Kustodiev, The Bolshevik, 1920.

Ao centenário da Revolução Russa

 

No centenário

Da grande revolução

Da qual foste o poeta,

Vim nos meus sessenta anos de idade

A Moscou, tua cidade.

 

Levaram-me ao mausoléu de Lênin,

E me portei com a liturgia

De um religioso que vai a Jerusalém.

 

Caminhei ao pé do Muro do Kremlin.

A grama verde,

Entre os nomes das boas e más sementes

Que ali foram plantadas,

Acionei as lentes e pude ler bem adiante

“John Reed”.

Tudo isso fiz com a solenidade

De um muçulmano que vai a Meca.

Ou com o espanto e o encanto

Com que Gagarin viu a Terra.

Ali, simbolicamente, estava diante

Dos homens e mulheres

Que tiveram a audácia

De transformar em realidade

O sonho da solidariedade.

Não importa se com imperfeições.

No Céu também há pecados.

Deus que é Deus

Vejam o que criou...

 

Com o bafo do Ártico na cara,

Dominado pelo ópio da Catedral de São Basílio,

Tonto de deslumbramento,

Vaguei pela Praça Vermelha..

II

Fui ao Palácio das Colunas, herança da URSS.

Os que trabalham tinham palácios por aqui...

Passaram-se os anos e

Hoje a pátria voltou à tirania dos amos.

 

Embriagado de vodca

Tomado de indignação,

Quase caí no Volga.

São azuis os lagos da Rússia que não vi,

Mas vi as mulheres de tua pátria.

Belas russas,

Bielorrussas,

Ursas,

Botas até os joelhos,

Casacos de pele quase ao chão.

Tudo oculto e tudo à mostra,

Sobretudo os olhos

Que lembram as pupilas de nossas onças...

 

Recebi abraços de camaradas do mundo inteiro,

Condecorações que provavelmente não mereço.

Embora tudo isso fosse muito grandioso e honroso,

Exigi que além do mausoléu do Chefe

Que me levassem à casa do Poeta,

Pois que não há revolução sem as forças do coração.

Não me rendi às dificuldades.

Igual ao camponês que tem uma promessa a pagar,

E com o auxílio de um africano e de um boliviano

Que estudaram na URSS,

Cheguei à tua casa,

Mas estava cerrada...

Não importa...

Olhei pela fechadura da porta,

Pisei o chão onde pisaste,

Toquei nas paredes que foram tocadas por ti.

 

Era 7 de novembro.

E quando me postei ao pé de teu busto

Para uma fotografia,

Falaste-me bem ao sussurro:

– Sinto muito, amigo,

Mas nessa data aqui não se trabalha,

Estou numa datcha,

Aquecendo-me com vodka

E com o fogo

Que vem da lareira

Que há entre duas coxas ardentes.

(Adalberto Monteiro)