Resenhas

Morre aos 91 anos o ex-governador da Bahia Waldir Pires

Patrícia França Publicado em 22.06.2018

Vítima de uma parada cardiorrespiratória, Pires morreu na manhã desta sexta-feira (22), por volta das 10h, no Hospital da Bahia, em Salvador. Pires tinha 91 anos e também foi ministro da Previdência Social (1985-1986), deputado federal (1990-1994/1999-2003) e vereador (2013-2016).

O político, que era filiado ao PT, deu entrada na unidade na noite quinta-feira (21), com quadro de pneumonia, e, segundo o hospital, não respondeu às manobras de reanimação e veio a óbito.

Waldir Pires nasceu na cidade de Acajutiba (BA). Formou-se em Direito e liderou o Movimento Antinazista. 

No mesmo mês de sua morte, foi lançada o livro Waldir Pires – Biografia (vol.1), do jornalista e escritor Emiliano José.

Biografia conta a história de um dos políticos mais influentes do País

“Os dois, deitados, escondidos na cabeceira da pista do Aeroporto de Brasília. Ao lado deles, Rubens Paiva.

  Às quatro da manhã, movimento nenhum. Até nele, no barulho suave do mato ralo em que estava deitado, Waldir prestava atenção.

Ouvidos atentos, olhar vigilante.

  Tensos, ele, Darcy e Rubens não se mexiam”.

Os três primeiros parágrafos do livro Waldir Pires –  Biografia  (vol.1), de autoria do jornalista e escritor Emiliano José, lançado no dia 14 no Palácio Rio Branco, em Salvador, dão uma ideia do clima de tensão e incertezas que rondavam aquele sábado de abril de 1964, quatro dias após o golpe militar que depôs o presidente João Goulart do poder. 

Ex-Consultor Geral da República do governo deposto, Waldir não teve alternativa senão fugir com Darcy Ribeiro,  chefe da Casa Civil. A ideia inicial era ir para Porto Alegre, como previa o plano de voo feito pelo então deputado Rubens Paiva (que viria a ser cassado dias depois), e participar  da resistência ao lado de Goulart.

O cerco dos militares na capital gaúcha mudaria os planos. Na mesma noite daquele 4 de abril, Goulart desembarca no aeroporto de Montevidéu, no Uruguai, e pede asilo político. No dia seguinte, a bordo de um monomotor movido a gasolina de caminhão, Waldir e Darcy  pisam em solo uruguaio. Começava ali o exílio de seis anos de Waldir , que também morou em Paris, onde lecionou na Faculdade de Direito da  Universidade de Dijon e no Centro de  Altos Estudos  da América Latina da Universidade de Paris, junto com  Celso Furtado.

 “Foram  os últimos a deixar o Palácio do Planalto naquela madrugada de 2 de abril. O golpe entrou por uma porta para tomar posse – a presidência do STF, presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli.... – e os dois (Waldir e Darcy) saem por outra....”, descreve Emiliano, que por seis anos se desbruçou em pesquisas, documentos, depoimentos, fotografias e redação. 

Este primeiro volume  cobre o período que vai de 1926, ano do nascimento de  Waldir em Acajutiba (BA), até o final de 1978, em pleno regime de exceção, quando termina a vigência do Ato Institucional nº 5, e ele se dispõe a sair  do Rio de Janeiro e voltar para a Bahia para encabeçar a luta política. Isso foi em 12 de janeiro de 1979, início do segundo volume biográfico, em fase de revisão, e que se estende até os dias atuais.

Publicado pela Versal Editores e com orelha assinada por Dom Emanuel d’Áble do Amaral, arquiabade do Mosteiro de São Bento – um dos símbolos da resistência contra a ditadura na Bahia –, o livro descreve a infância em Amargosa, passa por Nazaré das Farinhas, onde ele cursa o ginásio no Clemente Caldas; o Colégio Central, onde faz o Clássico; e a Faculdade de Direito da Ufba, sendo o orador da turma de 1949.

Aos 24 anos, Waldir  é nomeado secretário  do governo Regis Pacheco (1951/55), indicado por  Antonio Balbino, espécie de seu preceptor na vida política. Balbino depois se elege governador e Waldir, deputado estadual, sendo seu líder na Assembleia Legislativa. O livro mostra, ainda, a eleição de deputado federal em 1958 pelo PSD, a campanha ao governo em 1962 e a derrota para Lomanto Júnior; a passagem como professor da UnB e sua atuação como Consultor-Geral do governo Goulart.

Emiliano explica que nesta função Waldir  ocupou um papel essencial. “Foi um dos sustentáculos teóricos e jurídicos de programas defendidos pelo ex-presidente, como a reforma agrária, a nacionalização das minas de ferro, e o monopólio da importação do petróleo”.

Amigo há 40 anos de Waldir, que completa 92 anos em outubro, Emiliano  diz que esta condição não o impediu de exercitar a veia crítica. No segundo volume, por exemplo, avisa que não se furtou a abordar  um dos episódios mais controversos da trajetória politica do hoje petista: a renúncia ao governo da Bahia, em 1989, para disputar a vice-presidência da República na chapa do PMDB encabeçada por Ulisses Guimarães.

“Foi o maior erro da vida dele, inegavelmente”,  afirma Emiliano, ao se referir à entrega do mandato de governador ao vice Nilo Coelho,  depois da vitória estrondosa sobre o arquiinimigo Antonio Carlos Magalhães (ex-PFL) que dominou a Bahia por quase 40 anos.

O 1º VOLUME TRAZ FATOS DO NASCIMENTO E DO EXÍLIO ATÉ O RETORNO À BAHIA

 

O casamento com Yolanda

Waldir se apaixonou pelos ‘olhos azuis’ de Yolanda durante  comício de comemoração pelo fim da 2ª guerra, na Praça Municipal. Em 1951, eles formalizam o casamento   

Exílio com família na França

Waldir e Yolanda foram com os cinco filhos para Paris, após passarem dois anos no Uruguai – país que deu asilo político a Goulart e outros políticos após o golpe militar

Orador da turma de direito de 1949

Com um memorável discurso na tribuna do Fórum Ruy Barbosa, cuja inauguração se deu com formatura da turma da Ufba, Waldir defendeu a liberdade e a democracia

A formação do pensamento

Este volume inicial da biografia de Waldir Pires vai além dos fatos que marcaram “o primeiro tempo” da carreira do político baiano – sempre ao lado de dona Yolanda, companheira de uma vida e mãe de seus cinco filhos. Ele traz um capítulo que trata da formação do pensamento político do biografado. Nele, o marxista heterodoxo e líder do Partido Trabalhista Britânico, Harold J. Laski, surge, ao lado de Rui Barbosa e João Mangabeira, como “lastro fundamental” na concepção do pensamento que viria a nortear a trajetória do homem público Waldir.

Diz Emiliano: “Por volta de 1947, ainda estudante de Direito, Waldir faz a leitura do clássico “Reflexões sobre a Revolução de Nossa Época”, de Laski, e ocorre uma revolução na cabeça dele. Embora fazendo oposição a Churchill, Laski concordava com a resistência ao nazismo, mas defendia também que enquanto se combatia o nazismo era preciso promover as transformações sociais que beneficiassem a classe trabalhadora, no curso da guerra mesmo. E nunca foi adepto da ditadura do proletariado (a classe trabalhadora detém o controle do poder político), o que ganhou Waldir”.

Causos

O livro também traz algumas passagens só conhecidas no círculo mais íntimo de Waldir. Como a ida do então ex-presidente Jânio Quadros a Montevidéu, em 1965. Waldir encaminhou um bilhete a Jânio, dizendo que ele e os também exilados Darcy Ribeiro, Almino Afonso, Amauri Silva e Max da Costa Santos gostariam de um encontro. Achavam que era uma oportunidade para uma aproximação de Jânio com o presidente deposto João Goulart.

Jânio topou o encontro, mas colocou como condição que tivesse mais de um litro de uísque para consumo. A conversa animada e regada a puro “scotch” rolou a manhã toda, avançou o início da tarde, mas Jãnio não deu brecha para se falar em Goulart.

Antes de voltar ao hotel, o presidente fez questão de retribuir o encontro com um almoço num restaurante. Pensaram: ‘Quem sabe, agora, ele faz alguma menção a Goulart’. O almoço segue animado, mais conversa, mais uísque e nenhuma declaração, nenhum compromisso político ou encontro com Goulart. Frustração geral.

Há também o episódio do embaixador Manoel Pio Corrêia, apontado como grande articulador da espionagem de figuras políticas de esquerda ou liberais democráticas que estavam no exterior. Foi ele que montou o chamado Centro de Informação do Exterior (CIEX). O livro mostra como este diplomata dificultou a vida de Waldir no Uruguai e de outros exilados na França.

Amigos destacam o perfil conciliador

Amigos do ex-governador, ex-ministro e até recentemente vereador de Salvador comentaram o lançamento da biografia de Waldir Pires. Ex-procurador-geral do governo da Bahia na gestão do então pemedebista, Antonio Guerra Lima diz que o livro é um registro importante do político referência, que exerceu importante papel no processo de democratização do País.

Guerra lembra que foi ele que se encarregou, durante o exílio de Waldir, de levantar recursos entre amigos para ajudar a custear as despesas do padrinho de casamento no exílio. “O irmão de Yolanda, Gerbaldo Avena, era quem fazia a remessa da “vaquinha” para o uruguai e depois Paris”, recorda-se.

O jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes, que foi secretário de Comunicação do governo Waldir, diz que o hoje petista é uma das maiores vocações legislativas da política brasileira. “Sempre foi um construtor de soluções, um homem de diálogo, um articulador nato”. Lembrou que o “governo da mudança” enfrentou uma oposição ferrenha “chefiada pelo tirano Antonio Carlos Magalhães com a ajuda da Rede Globo”.

Para o ex-governador Roberto Santos, a biografia vai mostrar o “ser democrático” que, a seu ver, é a grande marca do amigo de longa data. “Fomos companheiros em várias ocasiões, tanto como aliados como na condição de adversários. Mas ele sempre foi um adversário leal, graças à sua inteligência e capacidade de respeitar posições divergentes”.