Princípios
Coleção Princípios - Ditadura da mídia: até quando?

Nem toda a mídia é marrom: conclusões de 2 mil dias do Vermelho

Bernardo Joffily* Publicado em 01.08.2007

O “modo Vermelho de usar a internet” passou no teste destes primeiros 2 mil dias. Ao fim deles produziu o segundo mais visitado endereço “ponto org” da internet brasileira. Que a mídia dominante trema com o espectro da perda do seu domínio. Há na internet um galo garnisé que canta e briga todos os dias por este objetivo estratégico!

O portal www.vermelho.org.br entrou no seu sexto ano. Foram 2 mil dias de renovação diária, no início, e on line, desde 4 de abril de 2005. Acumulamos cerca de 80 mil conteúdos, principalmente na área de noticiário, um acervo que continua a crescer, numa média em torno de 50 por dia. A visitação (1) cresceu até fazer do Vermelho um veículo de tamanho médio, com perto de 24 mil visitas por dia.
Mais de cinco anos de atividade intensa, ininterrupta e às vezes efervecente (eleições de 2004 e 2006, crise política de 2005, invasão do Iraque) permitem que se chegue a algumas conclusões. Aqui vão duas de interesse mais geral. A internet tem uma índole democrática

Esta era uma prudente hipótese de trabalho em março de 2002, quando o Vermelho fez sua estréia. Passados estes 2 mil dias, é uma constatação prática. Nenhum outro dos meio de comunicação existentes permitiria que se chegasse onde o Vermelho chegou.

A afirmação às vezes desperta ceticismo. Afinal, todo internauta sabe que a rede é dominada pelas empresas “ponto-com”, e um grande negócio. O conteúdo dos portais de informação que monopolizam a internet não difere daquele da grande imprensa escrita, exceto por ser mais superficial e descartável.
Agregue-se a isso que a internet, como se sabe, nasceu em plena Guerra Fria e por obra do Pentágono, com fins bélicos. Foi sob o impacto do Sputnik (o primeiro satélite artificial, lançado pela União Soviética em 1957) que o Departamento de Defesa dos Estados Unidos encomendou à Universidade da Califórnia uma rede de comunicação descentralizada, e portanto imune à destruição de qualquer um de seus elos na hipótese de uma guerra com a URSS.

Outros, sem invocar uma “índole perversa” da web, argumentam que as inovações tecnológicas não possuem esse gênero de propensão: tudo depende de quem a utiliza e para quê; a “índole” está nos homens, nas forças sociais e políticas.

Há um grão de verdade em cada uma dessas linhas de raciocínio. E no entanto... É preciso refletir com mais profundidade e argúcia sobre o significado não só tecnológico, mas intelectual, comunicacional e humano, em um sentido mais amplo, dessa inovação específica.

Em um artigo de 14 anos atrás (1993), sobre a Terceira Revolução Industrial, escrevi que “no fundo o computador é uma nova linguagem. O homem aprendeu a falar há uns 2 milhões de anos, em algum lugar da África; a escrever há 6.000 anos, onde hoje fica o Iraque; e a imprimir há 443 anos, na Alemanha. A informática é a quarta linguagem, uma forma nova de comunicar e armazenar o pensamento humano”(2).

Na época, eu não conhecia a internet. O nome só chegaria à imprensa brasileira em 1994 (revista Exame). Em dezembro daquele ano a Embratel selecionaria os primeiros 5 mil felizardos desbravadores brasileiros que teriam “acesso à internet, a maior rede de computadores do mundo”. Mencionei no artigo a faculdade do computador “conversar com as máquinas” (base da automação), mas não a de intermediar e elevar à enésima potência a comunicação entre os homens. Nem de longe sonhei até onde, em uns poucos anos, a “quarta linguagem” iria nos levar.

Na esfera das relações humanas, distintamente daquela da produção econômica, as tecnologias podem em certo sentido tomar partido, manifestar uma “índole”. Gutenberg, o introdutor da “terceira linguagem”, quando fabricou sua prensa de tipos móveis de chumbo (1455), escolheu para rá-la a Bíblia, livro-ícone do status-quo medieval. No entanto, a história logo evidenciou o viés progressista da invenção; sem ela seriam impensáveis as revoluções burguesas e proletárias dos séculos que se seguiriam.

Tomemos o caso que nos interessa. A internet permite a comunicação de massas a custo desprezível, em tempo real e escala planetária, descentralizada e a prova de censura, com volume de conteúdo próximo do incomensurável, texto, som, imagem, movimento... e a propriedade mais subversiva: é interativa, uma via de duas mãos, onde o usuário é um protagonista, e não um passivo inerte como o telespectador.

Acrescente-se à função da comunicação aquelas do acesso à informação e ao conhecimento. Para insistirmos na imagem das “quatro linguagens”, as três outras também tiveram essas mesmas funções; mas nenhuma das três predecessoras se aproxima da quarta na velocidade fulminante e na expansão megaciclópica do volume. Graças a isso, nunca as pessoas comuns tiveram a seu alcance um milionésimo do conhecimento e da informação de que dispõem hoje por meio da web.

Em seus primórdios, a internet foi uma mídia de alcance restrito; hoje isso é passado. A rede atinge amplas massas, sobretudo os jovens e os novos proletários da Terceira Revolução Industrial. Segundo o Ibope/NetRatings (dados de junho), o Brasil tem 33 milhões de internautas, dos quais 18 milhões domésticos. Entre eles os das lan houses das periferias e favelas (a de Antares, Zona Oeste do Rio de Janeiro, já tem oito; ver http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14295). Para não falar das possibilidades abertas com a TV digital, que coloca ao alcance da mão a transformação de cada aparelho de TV em um terminal de internet.

São estas características que tornam o Vermelho possível. É certo que em seu mês de maior êxito até agora (outubro de 2006) ele teve apenas 429 mil visitantes individuais, enquanto o maior portal brasileiro, o UOL, proclama possuir 10 milhões, 23 vezes mais. Porém qual outra mídia possibilitaria esse resultado, e a perspectiva tangível de superá-lo? Qual outra mídia permite ao usuário comum escolher em igualdade de condições entre UOL e Vermelho (ou 10 milhões de outros sítios), bastando escrever www.uol.com.br ou www.vermelho.org.br ?

Este elogio da internet não poderia deixar de mencionar algumas vias democratizadoras específicas (às vezes independente talvez das intenções de seus criadores, outras vezes com certeza não):

• O site de buscas Google, com 153 milhões de usuários no mundo e alimentado por um robô virtual, que fornece, por exemplo, 2.850.000 entradas sobre Karl Marx assim como permite calcular o logaritmo de um número;
• a Wikipédia, enciclopédia livre elaborada em formato aberto, com 7,5 milhões de verbetes (7.590.982 em 19 de junho) em 257 línguas e dialetos;
• o Orkut, rede social com 68 mil usuários, desenvolvido nos EUA por um turco mas tomado de assalto pelos brasileiros (um fenômeno da sociabilidade brasileira a reclamar estudo); e
• o Youtube, depósito livre e aberto de vídeos, cujo ritmo é de 20 mil novos vídeos e 30 milhões de visualizações a cada 24 horas.

O “modo Vermelho de usar a internet”

Claro, as características descritas acima não explicam por si o itinerário do Vermelho até aqui. Se assim fosse, todos os sites seguiriam a mesma trajetória, expressa sinteticamente na tabela abaixo:

Visitas ao Vermelho ano a ano

Ano Total de visitas Crescimento no ano
2002 653.000* –
2003 1.938.000 196,8%
2004 2.862.000 47,7%
2005 4.152.000 45,1%
2006 6.086.000 46,6%
2007 4.643.000** 25,8%***

* A partir do lançamento do portal (25 de março).
** Total até agosto.
*** Janeiro-agosto sobre mesmo período de

Os resultados do portal do galo derivam de uma combinação das características da internet com três outros fatores: a cena política do Brasil nestes anos; a conduta da mídia que chamaremos dominante; e uma concepção jornalística específica, que poderia ser batizada de “modo Vermelho de usar a internet”.

A cena política foi primeiro a da campanha presidencial de 2002, tudo que um jornalismo engajado pediria a Deus: a esquerda como o estilingue, o governo Fernando Henrique como uma vasta vidraça neoliberal. Seguiu-se, com a vitória de Lula, uma fase mais complexa: um governo em disputa, incluindo componentes contraditórios e aspectos de hibridismo, reclamando o exercício de um governismo inteligente, e, portanto, necessariamente crítico. Em 2005, com a crise política do “Mensalão”, veio a contra-ofensiva da direita e o pior dos mundos para o jornalismo engajado: nós como a vidraça, sob uma chuva de pedras cegante, muitos no nosso campo batidos ou desarvorados; mas foi a prova de fogo do Vermelho. A campanha eleitoral de 2006, é a volta por cima: campanha radicalizada, polarizada política e socialmente, vencida com classe e programa; valeu ao portal, em outubro, o seu melhor mês até agora (862 mil visitas, 429 mil single visitors e 3,45 milhões de páginas visitadas). Em 2007 vão se desenhando os contornos de um quinto momento: a oposição derrotada que busca morder Lula pelos flancos; uma base de governo mais ampla (11 partidos) e diversa (disputa intragovernista para a presidência da Câmara, aliança PT-PMDB, formação do Bloco de Esquerda), mais as promessas do PAC, em atrito com os “fundamentos” neoliberais ainda de pé.

Todas essas fases, especialmente as quatro últimas, foram de uma luta de idéias acirrada, densa, complexa, em várias frentes. Vistas de hoje, elas explicam o grosso do direcionamento dos 80 mil conteúdos produzidos pelo portal do galo, e fazem pensar como foi travar o combate de idéias antes de se ter um instrumento assim.

Em todas as cinco fases o Vermelho cresceu. Cresceu na visitação, que na internet pode ser medida com elevada precisão e riqueza de detalhes. Mas cresceu também sob a forma de um “Vermelho paralelo”, feito de matérias reproduzidas em outros sites, ou remetidas por e-mail, ou xerocadas e panfletadas, até por um panfleteiro tão inusitado como o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia.
A conduta da mídia dominante foi um componente nada desprezível a estimular esse crescimento. Não é de hoje que os principais meios de comunicação brasileiros são monopolizados por uma oligarquia midiática hereditária, reacionários, preconceituosos, arrogantes e, digamos, flexíveis no tratamento da verdade dos fatos jornalísticos. Mas esse estado de coisas sofreu uma mudança qualitativa, em particular desde a crise de 2005.

É de lá para cá que se pode falar em um Partido da Mídia: concatenado, orgânico, com programa, estratégia e tática, capaz de se coligar com as oposições político-partidárias tradicionais, mas também de impor-lhes sua vontade e carregá-las a reboque, como se assistiu no Caso Renan Calheiros.
Também no pós-“Mensalão” é que se configura com nitidez o que só se pode chamar de uma aberração: um país onde a unanimidade da mídia hegemônica está em divórcio aberto e explícito com a maioria dos cidadãos. Onde o presidente da República é reeleito por 60% dos eleitores tendo contra si o coro uníssono da mídia grande.

Para o país essa deformação é um estorvo. Mas para o portal do galo a aberração representou também uma janela de oportunidade. Abriu – e abre – um espaço vazio à espera de quem ouse desafinar do coro, contestar a arrogância, a truculência e os truques do pensamento único grão-midiático. Na campanha de divulgação que lançou em agosto, o portal expressa esse contraste no lema “Nem toda a mídia é marrom. Visite www.vermelho.org.br”.

Por fim, a concepção jornalística permitiu ao Vermelho tirar partido desses fatores favoráveis.
O portal, que hospeda o sítio do PCdoB e cuja identidade com o comunismo é notória, nem por isso é um site partidário e não se constrange aos contingenciamentos desse tipo de veículo. Tampouco se conforma com o modelo de um site de ensaios e debates. Busca um jornalismo de amplo espectro, de cobertura e entendimento de todas as coisas relevantes que acontecem no país e no mundo.

Esta busca foi anunciada desde o Manifesto Vermelho que inaugurou o portal: “Perseguimos um conteúdo cuja quantidade exprima qualidade. Um conteúdo sem aspas, que se meça em idéias novas, denúncias candentes, argumentos sólidos, exemplos eloqüentes, propostas mobilizadoras, polêmica, investigação e análise, criatividade, ousadia. Um tal conteúdo não se impõe limites de pauta. Tudo que é humano - e em especial brasileiro - nos interessa” (3).

Já lá se vão 2 mil dias de procura sem trégua. O acervo de 80 mil conteúdos a retrata. É obra coletiva da equipe do portal, enriquecida este ano com a implantação da sucursal de Brasília, mais o plantel também em expansão de colunistas, os trabalhadores dos Cadernos estaduais (outra possibilidade aberta pelo meio internet, que responde por perto de 15% das páginas visitadas) e um número incalculável de colaboradores.

O entusiasmo com o acerto e o êxito exige como contrapartida rigor com os defeitos e erros. O Vermelho padece dos males da pobreza de recursos, velha companheira da comunicação popular desde que Luiz Gonzaga das Virgens reproduziu a mão (!) o manifesto revolucionário dos conjurados baianos de 1798. Em parte por isso, mas não apenas por isso, tem sido conservador e lento na exploração das novas potencialidades da linguagem internet. Um dos escritos preparatórios dos idos de 2002 se referia ao “Cadim”, sigla “de parâmetros essenciais para conferir qualidade ao Portal: Conteúdo, Atualidade, Desenho, Interatividade e Multimídia”; hoje, um exame retrospectivo constata que nos atrasamos justo nos quesitos tipicamente internetianos, a interatividade e a multimídia. Recém-implantamos a Rádio Vermelho e ainda devemos aos internauta a TV Vermelho e os blogs.

São os erros e defeitos de uma receita exitosa. O “modo Vermelho de usar a internet” passou no teste destes primeiros 2 mil dias. Ao fim deles produziu o segundo mais visitado endereço “ponto org” da internet brasileira(4). Que a mídia dominante (por sinal em crise continuada, que não cabe aqui comentar, mas é fruto das mesmas reviravoltas tecnológicas que possibilitaram o Vermelho) trema com o espectro da perda do seu domínio. Há na internet um galo garnisé que canta e briga todos os dias por este objetivo estratégico.

Bernardo Joffily é jornalista e editor do portal Vermelho.

Notas:
(1) Há três formas básicas de se medir a visitação na internet: por visitantes individuais, por visitas e por páginas visitadas. Um visitante individual (single visitor) é um computador que freqüenta o site pelo menos uma vez. Uma visita (sessão) é o período que o visitante fica no site. Uma página visitada (page view) é cada uma das páginas abertas dentro do site. No Vermelho, a relação visitas-visitantes costuma ser de pouco mais de dois para um; e a relação páginas-visitas gira em torno de quatro para um.
(2) De fato, revista da CUT-Brasil, dezembro de 1993, p. 14 a 25 – São Paulo; o texto está na internet em http://www.cefetsp.br/edu/eso/globalizacao/textocut.html.
(3) O texto do Manifesto Vermelho está em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=9960.
(4) O primeiro colocado, graças aos serviços institucionais que fornece aos advogados, é o www.oabsp.org.br, da mesma secção paulista da Ordem hoje dirigida por Luiz Flávio Borges D´Urso, fundador do movimento “Cansei”. A classificação aqui usada é a do www.alexa.com, site subsisiário da livraria virtual Amazon que fornece um ranking dos sites em plano mundial e também por país. A título de referência, eis a colocação de alguns endereços virtuais no Alexa, em 20 de agosto:

Nome Endereço Colocação no ranking
Mundo Brasil
OAB-SP www.oabsp.org.br 26.169º 717º
Vermelho www.vermelho.org.br 62.652º 2.338º
Valor Econômico www.valor.com.br 74.773º 2.142º
OAB www.oab.org.br 124.018º 3.823º
Carta Capital www.cartacapital.com.br 148.906º 3.698º
PT www.pt.org.br 182.997º 4.936º
UNE www.une.org.br 270.646º 11.490º
CUT www.cut.org.br 341.403º 13.113º
MST www.mst.org.br 353.907º 11.810º
DEM www.dem.org.br 387.863º 14.877º
PSDB www.psdb.org.br 420.838º 14.457º

Outros endereços que seria interessante comparar não têm sua visitação monitorada em separado pelo Alexa, pois estão hospedados dentro de portais maiores. É o caso da Carta Maior e da revista Fórum, hospedadas no UOL; e da Caros Amigos, no Terra.

EDIÇÃO 91, AGO/SET, 2007, PÁGINAS 34, 35, 36, 37, 38