Princípios
Coleção Princípios - Ditadura da mídia: até quando?

Alternativos: imprensa de resistência

José Carlos Ruy* Publicado em 01.08.2007

Nossa imprensa popular tem tradição. Ela cresceu e se fortaleceu na luta social. Sob a ditadura militar de 1964, jornais como O Pasquim, Opinião e Movimento tiveram papel decisivo para desmascarar os governos dos generais e mobilizar a oposição democrática. Por isso, enfrentaram a censura e até mesmo bombas contra bancas de jornais, e muitos de seus jornalistas e colaboradores foram presos

A imprensa popular – e política – tem uma tradição muito antiga no Brasil. A publicação de jornais em nosso país vai comemorar, no ano que vem, 200 anos: foi em 10 de setembro de 1808 que apareceu a Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro jornal brasileiro, que publicava documentos oficiais, notícias das cortes européias e elogios ao príncipe regente D. João e seus familiares.

Mas foi nas lutas pela Independência e por sua consolidação que os jornais proliferaram – o pioneiro foi o Correio Braziliense, de Hipólito da Costa, publicado em Londres e pró-independência, que circulou entre 1808 e 1822.

Era uma imprensa basicamente artesanal, exemplo daquilo que os norte-americanos chamam de one man one paper (“um homem, um jornal”), onde o responsável pela publicação escrevia, imprimia (ou responsabilizava-se diretamente pela impressão) e cuidava da circulação e das vendas. Alguns exemplos do engajamento político daquela imprensa que nascia são o Tamoio, de José Bonifácio, desenvolvimentista, como se diria hoje (1823); o liberal Reverbero Constitucional Fluminense, de Gonçalves Ledo (1821-1822); as várias Sentinelas da Liberdade, de Cipriano Barata, federalistas (1823 a 1835, em Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, muitas vezes da prisão); o republicano Correio do Rio de Janeiro, de João Soares Lisboa (1822-1823); o federalista Typhis Pernambucano, de Frei Caneca (1823-1824).

Eram quase sempre ácidos, mais opinativos do que informativos, feitos para influir no debate político. Imprensa popular

Já naquela época surgiram publicações com uma coloração de esquerda, como o pioneiro O Socialista da província do Rio de Janeiro (Niterói, 1845), inspirado nas idéias de Charles Fourier; em 1846, surgiu em Pernambuco a revista O Progresso, de inspiração semelhante; ainda em Pernambuco, em 1847 foi lançado O Proletário. São apenas dois exemplos de uma lista de jornais que, mesmo muitas vezes efêmeros, foram defensores do progresso social no Brasil.

Mais tarde, começou a aparecer uma fértil imprensa operária. Só para o período entre 1880 e 1920 a pesquisadora Maria Nazareth Ferreira contou 343 jornais, a maioria deles em São Paulo (149) e Rio de Janeiro (100). Um dos principais foi a A Voz do Trabalhador (1908), da Confederação Operária do Brasil (COB). Outros títulos podem ser citados: Echo Popular (1890), no Rio de Janeiro; A Questão Social (1896), em Santos (SP), considerada a primeira publicação marxista brasileira; Echo Operário, em Porto Alegre (1901); Gazeta Operária (1902), no Rio de Janeiro; Avanti (1902), em São Paulo, publicado no idioma italiano dos migrantes recém-chegados; A Lanterna, de São Paulo (1902) que, em sua segunda fase (1909-1912), foi dirigida por Edgard Leuenroth; Terra Livre, de 1905, também dirigida por Edgard Leuenroth (Maria Nazareth Ferreira, o escritor anarquista Edgard Rodrigues e o historiador Edgard Carone publicaram listas extensas com os títulos, datas de lançamento e local de circulação destes jornais).

Antes de 1930 houve também uma florescente imprensa negra. Um dos primeiros foi O Bandeirante (1910), publicado em Campinas, São Paulo. Entre muitos títulos, podem ser lembrados O Menelick (1912), em São Paulo; O Alfinete e A Liberdade, em São Paulo (1918); em 1924, surgiu o importante O Clarim da Alvorada (1924), em São Paulo.

A década de 1920 assiste a transformações importantes no Brasil. A luta da pequena burguesia, principalmente dos jovens oficiais das Forças Armadas, e do proletariado contra a já velha república dos coronéis era intensa; naquele contexto surgiu o Partido Comunista do Brasil, em 25 de março de 1922, e com ele nasceu a imprensa comunista. Inicialmente, com a revista Movimento Comunista (1921-1923); depois veio A Classe Operária (1o de maio de 1925). E, no Rio de Janeiro, entre 3 de janeiro e 11 de agosto de 1927, o Partido fez sua primeira experiência com um diário: um acordo com Leônidas de Resende, proprietário de A Nação, deu aos comunistas o controle do jornal.

A partir de 1930 – e principalmente de 1935 – a repressão política contra os comunistas e o movimento dos trabalhadores aumentou, e poucos jornais operários e populares sobreviveram– entre eles A Classe Operária, que passou a ser publicada nas duras condições da clandestinidade.

Uma imprensa avançada só voltou a circular abertamente na redemocratização de 1945. O Partido Comunista do Brasil construiu então uma extensa rede de diários. O primeiro foi a Tribuna Popular, que surgiu em maio de 1945, no Rio de Janeiro. Depois vieram O Momento (Bahia), Hoje (São Paulo), Folha do Povo (Pernambuco), A Tribuna Gaúcha (Rio Grande do Sul), Folha Capixaba (Espírito Santo), Estado de Goiás (Goiás), O Democrata ( Ceará), Jornal do Povo (Minas Gerais), Jornal do Povo (Paraíba), Folha Popular (Rio Grande do Norte), Tribuna do Povo (Maranhão), Jornal do Povo (Sergipe), Tribuna do Sul (Ilhéus, Bahia), A Luta (Amazonas), Jornal do Povo (Paraná), O Democrata (Cuiabá), Tribuna do Povo (Uberlândia, Minas Gerais). Eles formavam a segunda maior rede de jornais no país, atrás apenas dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. O período de quase vinte anos entre a redemocratização de 1945 e o golpe militar de 1964 foi marcado pelo intenso debate sobre os rumos do país, a superação do subdesenvolvimento e a afirmação nacional soberana. Ele envolveu um conjunto de publicações progressistas, como O Semanário, do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB); O Panfleto (ligado ao PTB brizolista); Brasil Urgente (da esquerda católica); Binômio, em Minas Gerais, criado em 1952 por José Maria Rabelo, fechado em 1964. A Manha, do jornalista comunista Aparício Torelli, conhecido como Barão de Itararé, já havia circulado entre 1926 e 1936, e voltou às bancas entre 1946 a 1958, com seu humor ferino e sua crítica política e social certeira.

A imprensa comunista se manteve mesmo sob a forte repressão do governo do marechal Eurico Gaspar Dutra (1946-1951). Muitos de seus jornais mudaram de nome para sobreviver; a Tribuna Popular virou Imprensa Popular, Hoje, de São Paulo, adotou o nome de Notícias de Hoje, a Folha do Povo, de Pernambuco, onde a repressão foi muito forte, transformou-se em A Luta, depois em O Popular e, novamente, em Folha do Povo. Em 1949 o Partido Comunista do Brasil deixou de publicar a tradicional A Classe Operária, substituída por Voz Operária que, por sua vez, foi trocada por Novos Rumos em 1959. Com a reorganização do Partido, em 1962 – clímax da luta de idéias entre duas correntes na direção do partido, a revolucionária e outra revisionista e reformista – o PCdoB voltou a publicar A Classe Operária.

Nessa época havia também outras publicações ligadas ao movimento social, como a revista O Movimento, da UNE, e o jornal Ligas, das Ligas Camponesas, que circularam até 1964. Com a reorganização da UNE, no final da ditadura militar, e com a redemocratização de 1985, O Movimento voltou a ser editada.

Imprensa alternativa

Com o golpe militar de 1964 as publicações progressistas ou de esquerda passaram a ser perseguidas e censuradas, e muitos deixaram de circular.

Mas havia algumas brechas, através das quais surgiu aquilo que, na época, foi chamado de imprensa “nanica”, “independente”. Ou “alternativa”, porque é “alternativa ao sistema econômico capitalista”, como definiu o decano do jornalismo popular no Brasil, Raimundo Rodrigues Pereira, em entrevista à TV Câmara (3 de julho de 2005).

Essa imprensa teve papel de relevo na luta contra a ditadura. Veículos humorísticos e de crítica de costumes, como O Pasquim, ajudaram a corroer a legitimidade dos governos militares. Outros foram órgãos de informação e também de mobilização e de identificação as pessoas que discordavam da ditadura, como Opinião e, principalmente, Movimento.

O primeiro periódico desta série foi Pif Paf, de Millor Fernandes, que apareceu em maio de 1964. Durou
apenas quatro meses e oito números, desafiando a ditadura com irreverência e humor.

Foi uma antecipação d’O Pasquim, que surgiu em junho de 1969 e foi um sucesso imediato, logo transformado em veículo do descontentamento contra a ditadura e já em fevereiro de 1970 vendia 235 mil exemplares em banca em todo o país. Em novembro daquele ano, toda a equipe do jornal foi presa por dois meses na Vila Militar, no Rio de Janeiro, acusados de “atividades públicas que atentam contra a Lei de Segurança Nacional”.

Entre a publicação de O Pasquim (1969) e de Opinião (1972), surgiram alguns jornais de curta duração e pequeno impacto. Um deles foi Fato Novo, ligado a militares nacionalistas vinculados ao general Albuquerque Lima, que chegou a disputar a candidatura a Presidência da República na sucessão do general Costa e Silva. Outro foi Politika, também nacionalista, dirigido pelo jornalista Sebastião Nery. Em São Paulo, em 1967, surgiu o jornal Amanhã, mais à esquerda, ligado aos estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, editado por Raimundo Pereira e Antonio Carlos Ferreira, com apoio de dirigentes estudantis como Aldo Arantes e José Dirceu.

Opinião, que começou a circular em novembro de 1972, foi idealizado por Fernando Gasparian, um nacionalista; ele era um grande empresário, representante – diz Raimundo Pereira – das forças depostas pelo golpe militar, tendo sido o único dirigente sindical patronal a ser cassado pelos miitares, lembra. Convidado por Gasparian para dirigir o jornal, Raimundo Pereira reuniu um grupo de profissionais nacionalistas, democratas, e de intelectuais que, embora derrotados pelo regime, não desistiram da luta. Opinião chegou a vender tanto quanto Veja, do número 1 ao 23. Nesta edição, com a cobertura da morte sob tortura do estudante paulista Alexandre Vanuchi, vendeu 38.700 exemplares em banca, lembra. Nessa época Veja vendia 40.000.

Quando o general Ernesto Geisel assumiu a presidência da República, em 1974, surgiram fortes divergências na oposição, e muitos viam o novo governo com boa vontade, confiantes na política de “abertura” que ele anunciava.

Elas se refletiram na equipe de Opinião, onde um grupo encarava o general como um nacionalista e mesmo democrata. Outro grupo queria uma saída mais popular e avançada para a crise.

As divergências cresceram e, no final de 1974, o grupo de jornalistas liderado por Raimundo Pereira saiu do jornal. Foram para São Paulo, onde iniciaram o movimento para fundar outro, de oposição mais radical e popular. Começava a nascer o jornal Movimento, que começou a circular em julho de 1975. Seu programa refletia a opção por uma frente oposicionista mais à esquerda. Ele consistia, lembra seu editor, em apresentar, analisar e comentar os principais acontecimentos políticos, econômicos e culturais da semana; descrever a cena brasileira, as condições de vida da gente brasileira; acompanhar a luta dos cidadãos brasileiros pelas liberdades democráticas, pela melhoria da qualidade de vida da população; contra a exploração do país por interesses estrangeiros; pela divulgação dos reais valores artísticos e culturais do povo; pela defesa de nossos recursos naturais e por sua exploração planejada em benefício da coletividade.

O primeiro número de Movimento vendeu 21 mil exemplares em banca. Oscilou muito até chegar a quatro mil em fevereiro de 1978. Na crise da sucessão de Geisel, nesse ano, passou de 18 mil exemplares e a edição “Mar de Lama” (outubro de 1978) vendeu mais de 20 mil. Voltou a cair outra vez, chegando a sete mil semanais em fevereiro de 1980. No final, no segundo semestre de 1981 – em conseqüência de atentados terroristas da direita contra bancas que vendiam jornais alternativos – a venda chegou a 3.600 por semana, dando o golpe final na existência do jornal.

Quando a última edição de Movimento (a edição número 334) circulou, em 23 de novembro de 1981, o Brasil estava no limiar de uma etapa nova, fruto da luta contra a ditadura da qual o jornal foi protagonista de destaque. A ditadura se desfazia; os estudantes, em 1977, e os trabalhadores, em 1978, voltaram a se movimentar, derrotando o projeto de distensão “lenta e gradual” dos militares. O movimento popular crescia, fortalecido pela Anistia de 1979 que trouxe de volta líderes oposicionistas como Leonel Brizola, Miguel Arraes, Luis Carlos Prestes, João Amazonas, e tantos outros, que estavam exilados ou na clandestinidade.

Aos poucos, no quadro de crescimento da luta oposicionista, os partidos de esquerda, embora ainda ilegais, voltaram a atuar. E logo passaram a publicar seus jornais, cujo número se multiplicou desde então.

A imprensa alternativa característica da luta contra a ditadura militar chegou a abranger cerca de 160 jornais que surgiram na década de 1970, quase todos muito frágeis, que não conseguiram completar um ano de existência. E poucos sobreviveram à ditadura militar que ajudaram a combater. Foram jornais como Pato Macho (Rio Grande do Sul, 1971), Ex (São Paulo, 1974), De Fato (Minas Gerais, 1975), Versus (São Paulo, 1975), Coojornal (Rio Grande do Sul, 1975); Posição (Espírito Santo, 1976), Informação (Rio Grande do Sul, 1976); Repórter (Rio de Janeiro, 1977), Em Tempo (São Paulo, 1977). Sua proliferação foi um reflexo seguro do avanço do movimento popular.

Depois da anistia, a imprensa popular começou a mudar de caráter, mudança sinalizada pelo reaparecimento,para o público, dos jornais dos partidos de esquerda. O primeiro foi O Trabalho (abril de 1978), da Organização Socialista Internacionalista (OSI), trotskista. Em seguida, veio Convergência Socialista (julho de 1978), ligado à Tendência Bolchevique, outra corrente trotskista. Depois vieram Companheiro (abril de 1979), do Movimento de Emancipação do Proletariado; Tribuna da Luta Operária (setembro de 1979), jornal de massas do Partido Comunista do Brasil; Hora do Povo (outubro de 1979), do Movimento Revolucionário 8 de Outubro; Voz da Unidade (dezembro de 1979), do Partido Comunista Brasileiro.

A luta contra a censura

A investida da repressão contra a imprensa oposicionista assumiu vários aspectos. Variou desde a prisão, como ocorreu com a equipe d’O Pasquim em 1970 e inúmeros outros jornalistas e militantes da imprensa popular e democrática. A repressão chegou a assassinar responsáveis por publicações ilegais, como Carlos Danielli, editor d’A Classe Operária, do PCdoB, morto sob tortura em 1972. Usou também o sufoco econômico, a censura e mesmo o ataque a bombas contra bancas de jornal que vendiam estes jornais. Um exemplo do sufoco econômico foi relatado pelos editores do Coojornal: agentes da Polícia Federal pressionaram para deixarem de apoiar o jornal.

Mas a censura foi um instrumento permanente. Ela atingiu quase toda a imprensa, só deixando de fora as publicações que colaboravam com o regime. Na grande imprensa, ficaram famosas as receitas de bolo e os trechos d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, com que O Estado de S. Paulo indicava que as matérias foram censuradas. Ou as figuras de diabinhos usadas por Mino Carta, na época o diretor de Veja.

Entre os alternativos a censura foi severa. Durou mais tempo. Na maioria dos jornais e revistas ela foi suspensa em 1975, mas em Movimento, O São Paulo (da arquidiocese de São Paulo) e Tribuna de Imprensa (Rio de Janeiro), durou até junho de 1978.
Houve também frequentes apreensões de edições, atingindo O Pasquim, Opinião, Movimento e Repórter, com fortes prejuízos financeiros.

Quase sempre o censor atuava na própria redação. Mas no caso de O Pasquim, Opinião e Movimento a
censura devia ser feita na sede da Polícia Federal, em Brasília, criando dificuldades editoriais quase instransponíveis. Movimento é um exemplo do furor censório da ditadura. O jornal já nasceu sob a censura prévia, desde o número zero (aquele que não vai para as bancas mas é distribuído para apoiadores e amigos do projeto, anunciando o que será a publicação). Raimundo Pereira lembra que a censura demorava cerca de dois dias para liberar os “restos” do jornal, aprovados para publicação. “Isso acabou com a atualidade e a venda do jornal na mesma proporção da quantidade que era cortado”, lembra.

Quando a censura foi suspensa, em junho de 1978, os prejuízos acumulados chegavam a 18,6 milhões de cruzeiros em três anos de proibições. Esse era o valor de 11923 salários mínimos da época (1.560 cruzeiros); atualizado pelo valor do salário mínimo, hoje seria de 4,5 milhões de reais. Nesse período foram vetados 3093 artigos na íntegra, alcançando 4,5 milhões de palavras, e 3162 ilustrações.

A gravidade do terrorismo contra as bancas de jornal que vendiam as publicações alternativas pode ser medida pela queda nas vendas desses jornais. Ele começou em julho de 1980, e várias bancas foram incendiadas. Em conseqüência, quase a metade das bancas passaram a recusar estas publicações, cujas vendas despencaram, do Em Tempo, que teve queda de 40%, a O Pasquim, com 70%. Movimento perdeu 52% de sua venda em banca e 27% de sua receita.

Foi o golpe final em uma imprensa de resistência cujo papel histórico dava também sinais de esgotamento e começava a deixar a cena juntamente com a ditadura militar que combateram. O cenário de conquistas democráticas que se abria trazia outras necessidades jornalísticas e editoriais, exigindo publicações populares de outra natureza. Este espaço foi ocupado pelas publicações dos partidos, dos sindicatos, das organizações do movimento social.

A imprensa sindical floresceu e, já no final de 1988, contava sua tiragem aos milhões. Um levantamento feito naquele ano pela Escola de Comunicação e Artes da USP, encontrou 971 títulos, com tiragem total de 12 milhões de exemplares, cerca de 10% da tiragem total dos 500 diários brasileiros. Quatro eram diários: a Folha Bancária, do Sindicato dos Bancários de São Paulo; a Tribuna Metalúrgica, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema; o Sindiluta, do Sindicato dos Químicos de São Paulo; e o Sindiquim, do Sindicato dos Químicos do ABC – todos com tiragem média diária de 200 mil exemplares.

Entre os partidos, as experiências foram variadas. O Partido dos Trabalhadores publicou, entre 1981 a 1983, o Jornal dos Trabalhadores, dirigido por Perseu Abramo; em 1987, criou a revista Teoria & Debate, e, entre 1991 a 1996, voltou a ter um semanário, o Brasil Agora.

Em 1981, o PCdoB lançou a revista teórica Princípios, já em sua edição número 91. A Classe Operária voltou a circular como órgão central do Partido em junho de 1985. Mas a grande inovação na comunicação do PCdoB foi o lançamento, em março de 2002, do portal Vermelho, um diário eletrônico que hoje, cinco anos depois, chegou a 700 mil consultas mensais, consolidando-se como um dos principais portais noticiosos da esquerda brasileira.

Mas a luta por uma imprensa independente continua. Caros Amigos começou a ser publicada em abril de 1997. Em 2001, surgiu a Revista Fórum, lançada no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre; em 2002, foi a vez de Brasil de Fato, ligado ao MST. A equipe remanescente de Movimento tentou publicar um sucessor do jornal, em 1986. Antes, produziu o fascículo Retrato do Brasil (1984-1985), um amplo balanço crítico dos anos da ditadura militar, reeditado em 2006-2007, com uma atualização dos últimos 20 anos da república. Com os recursos obtidos com a venda de coleções – cerca de três milhões de dólares – a equipe dirigida por Raimundo Pereira lançou, em outubro de 1986, o diário Retrato do Brasil que, 45 dias depois, transformou-se em um semanário cada vez mais endividado, até sua extinção em 1990. Hoje, aquela equipe é responsável pelo portal Oficina da Informação, publicou a revista Reportagem e, juntamente com a revista Carta Capital, continua publicando Retrato do Brasil, onde aborda de forma crítica e aprofundada alguns temas de atualidade.

José Carlos Ruy é jornalista, editor de A Classe Operária e diretor do Instituto Maurício Grabois.

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