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Entrevista com Thiago de Mello - o poeta que simboliza a luta por um Brasil justo e solidário

Publicado em 14.03.2016

Nesta entrevista exclusiva à revista Princípios, o poeta Thiago de Mello, um dos maiores nomes da cena literária em nosso país, fala sobre sua vida, suas convicções e sua poesia

Nesta entrevista exclusiva à revista Princípios, o poeta Thiago de Mello, um dos maiores nomes da cena literária em nosso país, fala sobre sua vida, suas convicções e sua poesia. Ao falar de seu novo livro de poesias, Ajuste de Contas, afirma que se trata de uma “prestação de contas”. “Eu presto contas a mim mesmo, à minha vida. Acontece que a minha vida são os outros. Por isso é que o livro que sai depois, em prosa, chama-se Eu e os outros comigo. Eu estou pensando nos outros, em vocês que estão aqui. Eu não vivo sem vocês. Eu não vivo sem o povo, sem gente, sem os outros...”


Em 1950 um jovem decidiu levar seus poemas a Carlos Drummond de Andrade. Disse que estava pensando em abandonar a medicina para se dedicar exclusivamente às letras. Drummond desaconselhou o iniciante a fazer tal loucura, pois dificilmente conseguiria viver da poesia. O conselho não surtiu efeito. Decidido, o jovem poeta abandonou a carreira médica e, no ano seguinte, publicou Silêncio e Palavra, livro que teria boa receptividade da crítica. Nascia assim a trajetória de Thiago de Mello, um dos maiores nomes da cena literária em nosso país.


Nascido em 1926 na pequena Barreirinha, no estado do Amazonas, o poeta mudou-se ainda criança para Manaus, cidade na qual iniciou seus estudos. Seguiu mais tarde para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade Nacional de Medicina. Trabalhou como ajudante de cozinheiro para custear estudos, alimentação e moradia.


Em 1957 foi convidado a dirigir o Departamento Cultural da Prefeitura do Rio de Janeiro. Entre 1959 e 1960 foi adido cultural na Bolívia e no Peru. De 1961 a 1964 desempenhou a mesma missão em Santiago (Chile). Entre 1963 e 1964 trabalhou na tradução da primeira antologia poética de Pablo Neruda publicada no Brasil. Nos anos seguintes, convicto da necessidade de integrar culturalmente a América Latina, traduziu diversos outros poetas e escritores hispano-americanos, a exemplo de Mario Benedetti e Jorge Luis Borges.


No Chile conviveu não apenas com Neruda, mas com Salvador Allende, que pessoalmente lhe transmitiu a notícia do golpe militar ocorrido no Brasil em 31 de março de 1964. Thiago de Mello decidiu renunciar ao cargo de adido cultural, apesar dos pedidos do embaixador e do chanceler brasileiro. Indignado, naquele mesmo momento começou a redigir o poema Estatutos do Homem, que seria prefaciado por Neruda. Nele, eternizou sua posição contra o autoritarismo e a favor da liberdade.


Em 1965 o poeta resolveu voltar ao Brasil para combater a ditadura. Foi preso logo na saída do avião, e libertado pouco após. Em novembro de 1965 envolveu-se na manifestação realizada por um grupo de intelectuais em frente ao hotel Glória, no Rio de Janeiro, durante a abertura da II Conferência Extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA). O episódio, que resultaria nas prisões de Carlos Heitor Cony, Antonio Callado, Márcio Moreira Alves, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Mario Carneiro, Flávio Rangel e do embaixador Jayme Azevedo Rodrigues, ficou conhecido como os “oito da Glória”. Thiago conseguiu escapar da prisão naquele momento, mas apresentou-se às autoridades em seguida.


O poeta também se envolveu na organização do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), composto por ex-militares cassados ligados ao líder trabalhista Leonel Brizola, que organizou entre 1966 e 1967 a chamada Guerrilha do Caparaó. Entre setembro e outubro de 1969, Thiago foi obrigado a entrar para a clandestinidade e sair do país. Seguiu para Montevidéu e de lá se deslocou para o Chile, onde retomou os contatos com a intelectualidade daquele país. Usou sua influência para denunciar as prisões e torturas e para apoiar a resistência no Brasil. Com o golpe liderado por Pinochet em setembro de 1973, exilou-se na Europa até 1978, quando enfim retornou ao Brasil e se fixou em Barreirinha, sua cidade natal.


De volta ao Brasil montou – ao lado do compositor Sérgio Ricardo – o show Faz escuro mas eu canto, dirigido por Flávio Rangel, que percorreu diversos estados brasileiros. Ainda no período ditatorial publicou, entre outros, Faz escuro mas eu canto (1965), A canção do amor armado (1966) e Poesia comprometida com a minha e a tua vida (1975). Thiago é autor de uma obra reconhecida e respeitada que conta com cerca de trinta títulos, nos quais três temáticas se entrelaçam: os oprimidos e a luta por uma sociedade solidária, um extraordinário lirismo – amoroso e filosófico – e a defesa do meio ambiente.


No último dia 2 de março Thiago participou, em São Paulo, do ato político-cultural alusivo aos cinquenta anos do golpe militar de 1964, evento ocorrido no Tuca, teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), repleto de simbolismo no que respeita à resistência contra a ditadura. Antes do evento ele esteve na sede da Fundação Maurício Grabois, onde falou de sua vida, de suas convicções e de sua poesia. Princípios transcreve, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida a diretores e colaboradores da Fundação.

Você nos disse, lá atrás: “Faz escuro mas eu canto”. O escuro, de alguma forma, se foi. Sobreveio alguma luz, e você continua cantando. O que te move a cantar sempre? De onde vem a persistência do teu canto?


Eu dou a resposta que merecem todos vocês, e que merece esta casa de Maurício [Grabois], ela que é banhada pela luz da esperança. Esse canto nasce do sonho escuro das crianças que dormem com fome, e da minha certeza muito pessoal de que ainda é possível, sim, a construção de uma sociedade humana e solidária no Brasil. E eu acho que devo fazer a minha parte. É só isso... É só isso, mas é danado de difícil...

Temos lido declarações suas nas quais você fala de outras motivações, ao lado desta que você acaba de sublinhar – que é tua coerência, desde sempre, teu engajamento na luta por uma sociedade humana, solidária. Temos lido palavras referentes a outras causas conectadas a esta. Uma é a integração cultural da América Latina, que você apregoa, para a qual você busca dar sua contribuição escrevendo e traduzindo obras. Outra questão importante é o teu engajamento, desde sempre, na preservação da floresta.


Quero aproveitar para dizer que, quando canto, quando escrevo coloco a minha vida, a minha obra a serviço dessas duas causas. Eu devo muito ao instante em que fui chamado por Mario Benedetti, lindo companheiro uruguaio, poeta uruguaio maravilhoso... Houve a celebração do centenário de Ruben Dario em 1967, em Havana, Cuba.

O Mario me chamou e falou: “Vamos fazer uma coisa: vamos escrever um texto. Nós dois assinamos e depois vamos ver quem assina também. Tem muito escritor aqui, muito poeta, muito romancista, muito crítico”. E fez oito linhas só para dizer que não pode haver divórcio entre o homem e o poeta. Não pode haver separação, tem de haver uma coerência entre a pessoa e o escritor. Ele tem que assumir o que diz na sua vida. Não pode haver esse muro entre o dizer e o fazer. Foi muito importante para mim esse momento. Muitos se recusaram a assinar porque disseram que é impossível, na sociedade em que a gente vive, ser coerente. Você tem que viver de acordo com as leis da sociedade. Numa sociedade capitalista, você tem de ceder e conceder a cada instante. E eu decidi não ceder nem conceder em favor do grande inimigo da justiça, inimigo da redenção de um povo que sofre.


Você falou da integração latino-americana. A nossa América é um pedaço do mundo que se comunica pouco, que ainda se desconhece bastante. É preciso afirmar isso com esperança, mas dizer a verdade. A Venezuela sabe muito pouco do Uruguai, o México não sabe quase nada da Bolívia – o que sabe são aquelas coisas que ficaram vulgares e viraram clichês. Nós próprios, que somos companheiros de luta, sabemos pouco sobre o que acontece [na América Latina], mesmo na Revolução Cubana, [sabemos pouco] os motivos dos golpes...


Gostaria de resumir essa questão da integração da América Latina com um presente que vou dar a vocês hoje [entrega o livro Poetas da América de canto castelhano, antologia editada em 2011 pela editora Global com seleção, tradução e notas de Thiago de Mello]. É um trabalho de doze anos. Na contracapa tem um verso do Neruda, em que ele diz que não conhecia essa virtude minha, a da perseverança, quando eu publiquei a primeira antologia dele. Ele elogiou o trabalho. Na verdade, estávamos numa mesa; ele traduzia meus poemas e eu traduzia os dele... Ele traduzia meio brincando, e eu levava a sério. Para traduzir o poema Alturas de Machu Picchu eu levei 43 dias. Mas ele traduziu os Estatutos [do Homem] de uma vez só.


Então trabalhei doze anos para colocar a poesia a serviço da integração cultural da América Latina. Escolhi meus poetas queridos. Não sei se são grandes, ninguém tem fita métrica para medir poeta. Quem é grande? Eu sei que a poesia não dorme com quem é pequeno, a poesia não gosta. Então eu escolhi 148, 150 poetas e selecionei cinco, seis, oito poemas de cada um. Acontece que um editor brasileiro que é dono de doze editoras recusou o livro, que já estava quase pronto para a impressão. Fizeram um ibope e julgaram que o livro não venderia. Eu disse “não faz mal” e pedi para que me devolvessem [os originais]. Disse: minha preocupação era mostrar ao leitor brasileiro como é a vida do povo. Escolhi poetas latino-americanos que cantam a vida de seu povo. O povo ama, mas há também o problema da resistência, da luta, da esperança. São poemas conscientizadores.

 

E quanto à sua, à nossa floresta, que é também a de todo o povo brasileiro e, noutra dimensão, de toda a humanidade?


Assim como o Brasil desconhece a vida de nossos irmãos da América Latina, também desconhece o maior manancial de vida que tem o planeta, a floresta amazônica. O Painel Internacional de Mudanças Climáticas das Nações Unidas afirmou no seu quinto relatório que, na segunda metade deste século, a vida na floresta amazônica começaria a ser afetada pelo aquecimento do planeta. Esse relatório foi divulgado no dia do maior fracasso da esperança humana, que foi a reunião de Copenhagen, em 10 de dezembro de 2010, quando 193 chefes de Estado, presidentes da república e primeiros-ministros reuniram-se para fixar o nível máximo para a emissão dos gases malignos com as quais nós queimamos o planeta, a nossa morada, e eles não chegaram a um acordo. Como não chegaram a um acordo, não quiseram ler, em voz alta no plenário, e discutir a afirmação dos 283 cientistas do Painel Internacional.


Eu busquei contribuir para o conhecimento da floresta com meus livros. São seis ou sete livros só sobre a vida na floresta: suas lendas, seus mitos, seus milagres, suas grandezas, suas misérias também... Afirmei com veemência que, dentre os bilhões de vegetais que ali existem, não chegam a cinco por cento aqueles cujos princípios químicos ativos foram estudados no Brasil. Os naturalistas, os biólogos e os cientistas europeus estudaram a floresta. Nós, infelizmente, não estudamos.


Quando os portugueses chegaram lá na Amazônia – tem uma terceira carta do Caminha que conta essa história, para falar que as índias eram fogosas, atraentes etc. –, um alferes encostou-se num galho e uma índia chegou com uma copaíba. A copaíba e a andiroba já existiam quando os portugueses chegaram, como já havia uma cultura brasileira, indígena, que perdura até hoje dentro da nossa vida. Aliás, recentemente, há menos de dez anos, os EUA queriam patentear a copaíba, porque estudaram que essa planta não tem só virtudes cicatrizantes, não. Ela tem outras propriedades, inclusive capazes de agir sobre os neurônios cerebrais. O Philip Lovejoy, um desses biólogos norte-americanos, que há dezessete anos trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), lá em Manaus – ele foi muito ligado à floresta amazônica –, leu sobre isso e foi mais além. Ele disse: “Se o Brasil montasse laboratórios dentro da floresta mesmo, com microscópios poderosos para estudar os princípios químicos ativos de vegetais, seja de um galho, de uma folha, de uma casca de árvore, de uma raiz, o Brasil seria o país mais poderoso”. Chegamos hoje à condição de sexta potência mundial. Mas se o Brasil fizesse isso seria ainda mais poderoso porque mudaria a própria cultura brasileira. Ele seria um país rico porque acabaria com a miséria e a pobreza de seu povo. No entanto, a unha de gato, um cipó grosso, está sendo estudada em Estocolmo. Sei disso porque estive na Suécia, recentemente.

 

Enquanto isso, aqui no Brasil os cientistas chegam a ser criminalizados quando tentam estudar nossa biodiversidade, por conta da burocracia e de leis inadequadas, avessas às necessidades colocadas pelo desenvolvimento do país...


Gostei muito de vocês falarem isso. A unha de gato, descobriu-se em Estocolmo, tem o poder de impedir o desenvolvimento de células cancerosas, quando o câncer é diagnosticado precocemente. Isso pode ser obtido apenas com a ingestão diária do chá.

É uma planta tipicamente brasileira?


Tipicamente brasileira, só existe na floresta amazônica. Dizem que existe também no Congo. Dizem, porque não há uma afirmação científica. Mas a unha de gato é tipicamente brasileira.

Poeta, o ardor com que você defende a floresta, a justiça social e outras causas importantes é o mesmo com que você se lançou à luta contra a ditadura...


A beleza de um povo que derruba uma ditadura, você sabe como é. Tenho muito respeito por São Paulo porque foi aqui que mais de dois milhões de brasileiros foram para a Praça da Sé, enquanto nos porões do Planalto se conspirava para que a máquina de reproduzir ditadores do Congresso elegesse mais um deles. E depois de São Paulo foi a Guanabara, com outros dois milhões. Foi o povo quem derrubou a ditadura. O povo não ficou entregue: “Eleições Diretas Já!” – e o Brasil inteiro começou o movimento das diretas. Quando parcela de um povo se conscientiza, sabe as razões por que esse povo está sendo oprimido, a primeira coisa que faz é querer organizar-se, organizar-se para lutar. Esse povo conscientizado vai crescer e vai ser invencível.


Então esta é a questão da participação popular... Eu estava em Lisboa quando aquele poeta negro lindo, o Agostinho Neto, tomou posse [na Presidência de Angola]. Da mesma forma que Maurício [Grabois], ele comandou a guerrilha... E triunfou! Agostinho pensou que eu estava na Alemanha, mas eu estava indo para Portugal. Ele mandou me buscar. Quando foi depois da posse dele, fizeram um abrigo lá no quintal. Ele me chamou e falou, e com aquele acento de português africano: “Óh, Thiago! Óh, Thiago!”. Ele disse uma frase que eu nunca esqueço: “Muito quando eu posso, eu falo com os moços...”.

 

Você chegou a ser preso na época da ditadura?


Eu fui preso, mas não me gastaram, não. Fiquei um mês e meio só, interrogatório, tal isso, tal aquilo. E quando eu saí organizaram uma entrevista coletiva na qual eu disse que não iria aceitar o oferecimento de Harvard para estudar a história da floresta amazônica. Em Portugal queriam que eu ficasse... Disse: “Não, eu vou estudar na floresta com o povo que vive nela e vive dela. O povo é quem sabe como é que são [as coisas]...”.

 

Seus poemas fizeram tão mal assim à ditadura?


Dizem que sim. Quando eu recebi a notícia de que havia a ditadura, eu estremeci, meu corpo estremeceu. “Ditadura no Brasil?! Não é da índole de nosso povo!”. Dezesseis dias depois do golpe veio a mala diplomática. Toda semana, toda embaixada recebe. Vinha o Correio da Manhã, jornal do querido Carlos Heitor Cony, que foi o primeiro intelectual, o primeiro escritor brasileiro que ergueu sua voz, com a crônica A revolução dos caranguejos e, depois, com O ato e o fato. Quando eu vi a fotografia do Gregório Bezerra, esse líder camponês que era do Partido, sendo puxado por uma corda amarrada no pescoço, só de calção, descalço, o peito todo lanhado, pelas ruas do Recife – puxado pelo coronel cujo nome eu não revelo porque ele tem netos –, eu disse: “Não...”.


Isso coincidiu com a publicação, a divulgação nacional do Ato Institucional nº 1. Disse: “Este país não é o meu, não. Meu povo não é assim. A índole do meu povo não é autoritária”. Então eu vi, já em meados de maio, a fotografia, também no Correio da Manhã, de Astrojildo Pereira num catre, algemado por trás, sereno, e a biblioteca dele toda queimada... Nesse dia eu escrevi minha renúncia ao meu posto diplomático, e escrevi os Estatutos do Homem de noite, respondendo a todos os decretos...

 

Os Estatutos significaram um momento importante na luta de ideias contra a ditadura...


Esse poema desgarrou-se de mim, foi traduzido para mais de trinta idiomas. Hoje ele faz o que quer. Eu não sou mais responsável por ele. Ele está por aí... Outro dia a Folha de S.Paulo foi lá me entrevistar e revelou para mim que [risos] os cinquenta anos da ditadura são os cinquenta anos dos Estatutos também. Eu perguntei: “Está tudo registrado? Não é possível...” [risos]. Mas foi no mesmo dia, sim.

 

E quanto à manifestação na reunião da OEA, aquela que ficou conhecida como os “oito da Glória”?


Eu lembro que, quando tempos depois voltei ao Brasil, fizemos aquela manifestação no hotel Glória, que ficou famosa. Fomos todos presos... Era uma reunião da OEA. De noite tínhamos pintado faixas etc. com os dizeres “Abaixo a Ditadura, Viva a Liberdade!”. Quando o secretário de Estado norte-americano, o Foster Dulles, entrou junto com o Castelo [general Castelo Branco], eu não me contive e disse que ele era um filho daquilo, daquilo e daquilo outro. Eu sei que correram para cima de mim, deram-me uma chave de braço (como se dizia antigamente). E eu dizia: “Tira a mão!”. Ele disse: “Tira esse homem daqui!”. Tanto que eu fui preso em separado.


Foi a primeira vez que se manifestaram os escritores, os artistas e os chamados intelectuais – palavra de que não gosto porque acho que um operário que sabe a causa pela qual ele é explorado, ou um camponês que sabe etc., é também um intelectual: ele sabe inteligir a razão, as causas, e assim ele é um intelectual também. Mas, retomando, pela primeira vez os escritores, os artistas tomaram a frente. Eu lembro que consegui a assinatura de Pixinguinha, de Lúcio Costa e de outros para essa causa...

 

Quando você decide demitir-se do Itamaraty, várias pessoas próximas lhe pediram para não renunciar. Fale-nos um pouco sobre aquele episódio.


Eu não quis servir de exemplo para ninguém. Foi uma questão absolutamente pessoal, de consciência minha. Sinto-me muito dignificado, não sei se pela infância que eu tive, pela formação que eu tive, de criança pobre, convivendo com camponeses, com cultivadores como meu pai... Foi absolutamente pessoal. Mas foi um exemplo luminoso, não? Repercutiu. Porque a renúncia foi acompanhada dos Estatutos do Homem, poema que eu digo não ser mais meu. E não é o meu melhor poema coisa nenhuma. Pode ser o mais famoso, mas eu tenho outros...

 

Quer dizer que, enquanto a ditadura baixava o Ato Institucional no 1, você decretou...

 

“Fica decretado que agora vale a verdade.” Por falar nisso – faço questão de contar a vocês –, ano passado o João Paulo dos Reis Veloso me chamou para o Fórum Nacional, aquele que ele organiza anualmente. Era o 15º Fórum Nacional. Ele me telefonou lá para a floresta, perguntando se eu não podia assistir o Fórum etc. Talvez ele não saiba que o verbo assistir tem várias designações semânticas: assistir ao filme, o médico assiste o paciente etc. Eu disse: “Olha, eu assisti ao 10º Fórum. Estava no Rio, aprendi muito etc.”. Eles escolhem 350 brasileiros (cientistas, ministros, artistas, gente da favela etc.).


Quando eu cheguei a Manaus tinha um folder enorme. Eu pensava que iria realmente só assistir ao Fórum. Aí eu chego a Manaus e tem um folder com toda a programação. A abertura ia ser com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e no final do folder tinha assim: “Encerramento do Fórum: poeta Thiago de Mello, com os ‘Estatutos do Homem – antes e agora’”. Estavam imprimindo cinco mil exemplares do livro para distribuir. Eu telefonei para o Reis Veloso imediatamente: “Escuta, você pediu autorização da editora? Porque se não o departamento jurídico vai em cima do fórum... Agora, tem outra coisa: eu não vou poder aceitar isso aí, porque antes eu sei porque eu escrevi o poema, mas agora...”. Ele insistiu muito. Sabe o que eu fiz? Disse o seguinte: eu fui ajudado. Pelo Cony, pelo Marcelo Cerqueira, pelo negro lindo da vida, Joel Rufino dos Santos, um de meus escritores prediletos... Eu falei tudo de antes, e sobre o “agora” eu decidi fazer perguntas. O Reis Veloso concordou, e a secretária preparou. Fiz cinco perguntas, ele projetava na parede as perguntas e ele mesmo lia. A primeira pergunta nem era minha, era de Rimbaud: “Por que adiar tanto o que é inadiável, o que é ardentemente inadiável?”. Aí veio outra pergunta, depois outra etc. Quando chegou a quinta pergunta, eu disse: “Olha, eu preciso demais das respostas, quaisquer que sejam, a esta pergunta: por que a economia, que está em sexto lugar, não desce a escala mundial e vai buscar a educação, que está em 63º? Sabe o que a educação vai dizer? Olha, dona economia, eu só vou se você descer comigo até o 86º lugar, onde está a saúde do povo brasileiro. Aí nós podemos acompanhá-la de volta ao sexto lugar e estará tudo certo.” Lembro que foi uma pausa, o Mantega fazia assim com a cabeça [risos]... Quer dizer, era a minha inquietação social...

Houve um momento específico em que você descobriu que foi pego pela poesia e disse “tô ferrado”? Ou ela foi acontecendo de maneira natural? Nasceu da floresta, houve um lugar específico de onde ela veio?


Tenho a convicção de que a poesia é um dom. Ninguém se faz poeta. Lembro que eu era meio menino quando fui viver lá no sul da França, no ateliê do Picasso. Ele dizia que, quando deu por si, já estava desenhando, ainda menino. O artista nasce. Você pode aprender a desenhar, você pode aprender a teoria da cor, o escultor pode ter um método. Agora, o poeta... Eu posso dizer que no livro que publicarei em breve, que se chama Ajuste de Contas, eu pretendo... Bem, com ele eu acho que eu encerro. São cerca de cem poemas inéditos, e eu coloco meu primeiro poema lá. São três versos, que eu não sabia que eram versos...


Aconteceu quando um companheiro meu, caboclo que não sabia nadar, empinava pipa (papagaio, como a gente chama no Norte). Era numa serralheria na frente do rio Negro. Eu sei que ele conseguiu cortar outra pipa e ela veio embolada com os outros papagaios. E a gente correu: “Vai, vai...”. Aí ele caiu na água. Eu vi quando um caboclo forte se jogou – eu cheguei atrasado, já não se via mais ele. De repente eu vi os olhos dele, o resto dele... Era meu colega de verdade. Fui pra casa, trepei num abieiro, numa forquilha, assim sentado e, de repente, eu falei em voz alta, sozinho: “Vi meu amigo morrer / Afundando no peral / O que vai acontecer?”. Essa indagação, de natureza transcendente, marcou muito minha poesia, antes de qualquer coisa. E quando o [Manuel] Bandeira soube disso, ele disse: “Você fez um terceto, e cada verso tem sete sílabas”. Quer dizer que nasceu pronto, já. Eu não esperava contar isso.

 

Como foi sua relação com os concretistas?


Os concretistas de São Paulo fizeram um grande dano que perdura até hoje, e que vai se prolongando, porque eles eram professores de universidades. O concretismo tinha como bandeira eliminar a poesia, o sentimento e o verso. Como é que pode? Então disseram: “Que pena, o Thiago agora faz poesia política”. Não! Eu faço poesia da vida. Eu posso cantar o joelho da moça que está ali, a constelação, mas eu posso cantar também a injustiça, a dor, a mulher que está tendo filho na calçada... Já é a quinta mulher que tem filho na calçada em Manaus, porque não tem vaga no hospital. Eu fiz um poema para o menino: “Na calçada porque não tinha lugar”. Na verdade, faz tempo que os pobres estão com falta de lugar para ir...

Você nos falou de uma boa nova. Contou-nos de um lote – permita-nos dizer, comparando com um lote de boas garrafas de vinho – de cem poemas inéditos. Fale-nos um pouco mais desse livro, desse filho novo que vem vindo, da temática desses poemas que você vai publicar. São de temática única ou variada? Você nos diz que os Estatutos não são seu melhor poema. Estes que vêm agora seriam os melhores?


Acho que sim... Porque arte é trabalho, não é mesmo? Quando me perguntam do que eu gosto na literatura brasileira, eu cito logo Machado de Assis, sou machadiano, amo Machado. Eu vou voltar ao que falei ainda há pouco: ele não era poeta, mas tinha tal domínio do idioma, esse mulato maravilhoso – que nem terminou o curso primário –, tal domínio do idioma que conheceu os segredos mais íntimos da palavra e foi capaz de fazer o soneto da Carolina e o Círculo Vicioso. Um ficcionista extraordinário... Mas nenhuma arte dá mais trabalho do que a poesia. Então com o tempo a gente adquire... Não digo nem capacidade autocrítica, não, mas o domínio do fazer poético. A gente sabe que acertou mais no dizer, que a gente escolheu bem as palavras e o lugar certo onde elas devem ficar.


Meu livro novo chama-se Ajuste de Contas. Eu presto contas a quem? Eu presto contas a mim mesmo, à minha vida. Acontece que a minha vida são os outros. Por isso é que o livro que sai depois, em prosa, chama-se Eu e os outros comigo. Eu estou pensando nos outros, em vocês que estão aqui. Eu não vivo sem vocês. Eu não vivo sem o povo, sem gente, sem os outros... Ninguém vive sozinho, não é? Então eu estou prestando contas a meus leitores. Aliás, o primeiro poema, que também se chama Ajuste de contas, tem quase quatro páginas, e eu tinha me esquecido de falar dos meus leitores. Aí veio então uma estrofe de quatro versos...


Consegui chegar a uma linguagem que, sem perder o valor estético exigido pela arte poética, é acessível ao leitor comum. Ganhei essa preocupação quando houve a Passeata dos Cem Mil. O [Vladimir] Palmeira começou a gritar “Faz escuro mas eu canto”, e eles foram na minha casa com um guarda, às quatro da manhã, para me prender. Não sei por que, só sei que me jogaram lá depois... Era um quarto com ratos lá na Polícia do Exército. De madrugada foi entrando uma luz, e eu vi na parede da cela estreita – estava escrito assim: “Faz escuro mas eu canto”. Assim, na parede. Alguém que ali estivera, antes de mim, valeu-se do meu verso. E esse verso passou a me dar força. Deixou de ser meu. Eu estava meio caído, eles me deram um empurrão, eu caí de costas. Eu estava meio... Achando que o negócio era ruim. E eu ganhei uma força danada! Meu próprio verso falou comigo: “Coragem, rapaz!”.


O verso literalmente bateu na parede e voltou para você...


É... Mas eu falava do leitor – ele é meu provedor. Eu, sem meu leitor, não sou nada. E sem vocês... Conversando com vocês eu também estou conversando comigo, sabendo da minha vida... O olhar de vocês me ajuda muito.


Agora, a leitora, quando o poema é de amor, enxerga coisas que só ela vê. Ela descobre na metáfora. A mulher sabe mais do que o homem, mas no final, quando ela gosta da gente, ela enxerga, ela recolhe o que viu e entrega.


Certa vez eu estava vendo a exposição da Ana Letícia e então, na galeria, eu ouço no meu ouvido assim: “Na fogueira do que faço por amor me queimo inteiro”. Acho que esse verso está em Mormaço na Floresta. Aí eu me virei e vi um homem. Achei bonito, ele era bonito. Olha, eu também acho homem bonito, viu? Eu não sou... Não! Mas... Só mulher é bonita? Não tem homem bonito? Mas, voltando ao assunto, aquele homem falou para mim: “Você me salvou!”. Então eu lembrei que os versos eram meus. “Por quê?”, perguntei. Ele disse: “Minha família era contra eu me casar com uma mulata. Pois, olha, estou feliz, já tenho quatro filhos. Eu me queimei com a minha família, me joguei, me queimei todo!”.

 

Você foi culpado de várias coisas, então...


De várias felicidades. Eu vou dizer para vocês um poema, e vou-me embora. Não vou dizer nenhum inédito, não. Tem uma coisa que eu descobri, e que vale para cada companheiro. É um poema muito trabalhado que se chama O ser em soneto. Ele termina assim: “Eu descobri que o ser, o meu ser, o meu ser no mundo, esse ser é a minha própria gravidade. Se ela desmaia, eu me desmereço”.

 

Entrevista realizada em 2 de abril de 2014 com a participação de Adalberto Monteiro (presidente da Fundação Maurício Grabois), Augusto Buonicore e Fábio Palácio (diretores da mesma Fundação), Osvaldo Bertolino (editor do portal Grabois) e do escritor Jeosafá Fernandes Gonçalves. Transcrição de Adriana Quedas. Edição de Fábio Palácio.