Centro de Documentação e Memória (CDM)
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Instalação da primeira sede legal do Partido

Jorge Amado Publicado em 09.04.2021

Deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil de São Paulo, o escritor Jorge Amado já célebre pela publicação dos livros “Cacau”, “País do Carnaval”, “ABC de Castro Alves”, “Cavaleiro da Esperança – a vida de Luiz Carlos Prestes”, “Seara vermelha”, entre outros, também se tornou uma referência entre os intelectuais, por seu empenho no Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em janeiro de 1945. Já como constituinte, em 1946, publicou pela Edições Horizonte o opúsculo “Homens e coisas do Partido Comunista”.

O pequeno livro é uma coletânea de crônicas proletárias que narram a vida do Partido Comunista em São Paulo. O livro teve uma só edição e não mais foi impresso. A seguir, transcrevemos, o primeiro capítulo.

 

***

Vi operários, velhos lutadores, com os olhos brilhantes. Quando a cerimônia ia em meio, desfraldada sobre a rua a bandeira brasileira, iluminada a tabuleta onde dizia “PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL”, vi que rolavam lágrimas sobre o adusto bigode de um velho gordo, pobremente vestido.

— É um ferroviário... — disse-me alguém. — Tem mais de vinte anos de Partido

Depois corremos os olhos pela sala superlotada, pelas escadas invadidas, onde homens e mulheres, velhos e moços, saudavam o seu Partido. Em muitos olhos as mesmas lágrimas de alegria que encharcavam o bigode grisalho do ferroviário. E uma tensão nos músculos do rosto, uma seriedade comovida cortada por vezes com um sorriso pelo qual saía o coração tão alegre como nunca.

No dia 11 de junho de 1945, na rua da Glória, em São Paulo. Quando pela primeira vez no Brasil a tabuleta do Partido Comunista debruçou-se numa secada, legalmente aos olhos da gente espantada e comovida. Esse foi um dia de festa, destas festas tão felizes que recordam os natais familiares, as comemorações mais intimas de parentes que se amam. Era como a lua de mel do povo com o seu Partido. Lágrimas e risos, e gente, gente, muita gente, operários vindos de todo o lado, querendo entrar custasse o que custasse, mesmo que fosse “só para dar uma espiada”, como me afirmavam os jovens tecelões que forçavam a porta já sem passagem. Essas festas assim vão se repetir agora no Brasil. Festas simples, ingênuas e profundamente belas do povo operário. A muitas eu assisti em outros países da América onde era legal o Partido. Vi os mesmos olhos brilhantes, os mesmos bigodes molhados, as mesmas bocas sorrindo. Os peitos onde batem corações pulsando de amor pelo Partido. Ouviam com respeito e amizade a palavra de Álvaro Ventura, logo depois a palavra de Mário Scott, o secretário estadual.

— Ele também é ferroviário... — avisou-me o velho de bigodes úmidos — Vi ele pequenininho, deste tamanhinho assim...

E eu vi médicos e escritores ao lado do proletariado. Sábios da física e da mecânica das estrelas, professores de universidade, historiadores, romancistas e pintores. Ao lado do proletariado, na sede do seu Partido. Pianistas e estudantes. Pareciam todos uma só família, unida na mesma comoção e na mesma fé, na decisão única de continuar uma luta que dura há vinte e quatro anos pelo Brasil. E poetas que criavam naquele momento cantos e odes ao novo motivo poético, o Partido Comunista. Estavam em meio ao operariado, homens da arte, da literatura e da ciência.

Não sei de dia mais alegre. O indomável Partido do proletariado, o invencível Partido do povo, saía à rua pela primeira vez! E os operários sorriam como pais amantíssimos ante o filho pequenino. Nas suas lágrimas e nos seus risos embalavam a criança que dava os seus primeiros passos na rua. Filhos do Partido, educados por ele e tendo aprendido nele o sentido da vida e o sentido do homem, esses velhos militantes sentiam-se como pais do Partido nesta sua infância de legalidade. Sentiam-se responsáveis por ele e choravam de emoção. “É o meu Partido”, diziam como se falassem de uma criança admirada pelos vizinhos: — “É o meu filho!”

Indomável partido do proletariado! E dos sábios e dos escritores! Dos poetas e dos artistas! Onde iríamos nós caber, por acaso, senão dentro deste partido que é o do povo? Só nas suas fileiras poderemos fortalecer, ao contato com o proletariado e o povo, a nossa capacidade de criação artística ou científica. Aqui se aponta para o futuro. O Partido Comunista do Brasil, parece nascido de um verso de Castro Alves:

 

“A ti que herdeiro de uma raça livre

Tomaste o velho arnês e a cota d’armas,

E, no ginete que escarvava os vales,

A corneta esperaste dos alarmas”,

 

Lá está o retrato de Tiradentes. Herdeiro de uma raça livre, partido da unidade nacional, partido do progresso, da industrialização, da emancipação econômica da Pátria! Agora o silêncio é ainda mais profundo porque está sendo lida a mensagem de Prestes aos camaradas de São Paulo. Os olhos tornam-se ainda mais brilhantes. Ele sofreu por nós todos, por todo o Brasil, e, no entanto, suas palavras são de paz e de ordem, suas palavras tão justas:

‘‘Inicia-se assim, uma nova etapa na heroica e já gloriosa história do nosso partido. É uma vida nova que surge para nós, comunistas, e ao rejubilar-nos por essa vitória, saibamos fazê-lo, sobretudo, com o sentimento proletário de que ela significa novas e maiores responsabilidades para o nosso partido, para todas as suas organizações, para cada um de seus militantes”.

Heroica e já gloriosa história! A história deste Partido está escrita nas costas lanhadas dos seus militantes, nos muros das cidades, nos cárceres imundos, no sangue dos sacrificados, nas rugas, nos cabelos brancos de todos os que o construíram através da ilegalidade, as perseguições, a luta mais áspera, a reação mais violenta. Eis que o Partido surge das catacumbas para a luz do dia! Novas e maiores responsabilidades. A criança cresceu, oh! operários, o vosso filho criado à custa do vosso sangue e do vosso sacrifício fez-se homem e vai partir por entre o povo. Nunca jamais foi tão grande a vossa responsabilidade, a nossa responsabilidade, de cada um dos militantes. Já não soam agora os nomes de guerra. Já o Vermelhinho usa o seu verdadeiro nome e Jurandir não é mais Jurandir. Homens de seis nomes, qual é o vosso nome de batismo? Agora do fundo da memória surge um nome por vezes já esquecido. Eu conheci José, que alguns chamavam de Maciel e outros de Jorge. Mas agora o Partido abriu a sua sede, sua tabuleta é uma garantia de democracia. E José é Pedro, porque, amigos, este Partido nasceu e se fez forte em meio ao terror, nas sombras da noite da ilegalidade. Chegou a época da legalidade e o Partido é um esteio de paz e progresso. É o Partido da Unidade Nacional, o combatente valoroso da batalha antifascista, rendendo homenagem à FEB, clamando pela ordem para a construção da paz de trabalho e de progresso.

Ele chegou das inscrições a piche nos muros da cidade, Cresceu dessas inscrições noturnas para as tabuletas legais. Saiu dos cárceres com sua fé revigorada. Está entre o povo, na rua. Sua tabuleta sobre a rua é a visão mais democrática de São Paulo. Trabalhadores, maior é a vossa responsabilidade. Militantes, maior é a nossa responsabilidade. O Partido do proletariado e de Prestes atingiu a maioridade. Vi lágrimas sobre faces operárias mas eram lágrimas de alegria e de confiança. As mãos calosas que construíram o Partido saberão fazer dele o grande partido do povo brasileiro, o grande partido para a etapa do Brasil economicamente emancipado, o grande partido da Unidade Nacional.

AMADO Jorge (1946) Homens e Coisas do Partido Comunista, Edições Horizonte, p. 9-12.