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Doutorado analisa luta pela terra após Guerrilha do Araguaia

Cezar Xavier Publicado em 19.11.2013

A defesa do professor Romualdo Pessoa Campos Filho ocorre nesta sexta (22), às 14h, no auditório do IESA (Instituto de Estudos Socioambientais), na Universidade Federal de Goiânia (UFG), Campus II.

Violenta operação militar para desocupar a fazenda Forkilha, no sul do Pará, em 2007

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O professor Romualdo Pessoa Campos Filho defende na próxima sexta-feira (22), sua tese de doutorado Araguaia: Depois da Guerrilha, Outra Guerra – a luta pela terra no Sul do Pará, impregnada pela ideologia da Segurança Nacional (1970-2000). A defesa ocorre às 14h, no auditório do IESA (Instituto de Estudos Socioambientais), na Universidade Federal de Goiânia (UFG), Campus II.

O escritor e jornalista Osvaldo Bertolino representará a Fundação Maurício Grabois, durante a defesa, pelo teor valioso que significam os estudos sobre a guerrilha e temas correlatos.

A tese foi orientada pela professora Dra. Celene Cunha M. A. Barreira, pelo Programa de Pesquisa e Pós-graduação em Geografia. Ambos observaram como o Estado cumpre um papel fundamental na manutenção da violência contra camponeses, ao patrocinar um grupo paramilitar e proteger setores de elite contra os camponeses que ocupavam terras na região. Romualdo observa como toda a ideologia e práticas militares do regime ditatorial são mantidas na região, garantindo a impunidade para assassinatos de lideranças camponesas, sindicais, clericais que buscam defender os direitos da população mais pobre.

Originalidade

A tese analisa as transformações que ocorreram na região Sul do Pará no período posterior à Guerrilha do Araguaia.

Os estudos sobre a região tiveram como objetivo entender a maneira como o Estado brasileiro, ainda sob o domínio dos militares, adotou políticas públicas para exercer o controle efetivo sobre uma região recém-saída de um movimento guerrilheiro, cuja repressão afetou duramente a população, com muitas pessoas tendo sido presas e submetidas a prisões e torturas. Também procura entender a delimitação de um poder paramilitar construído pelo Major Curió.

A caracterização da região visa apresentar as condições de um ambiente inóspito, profundamente transformado por desmatamentos descontrolados para a comercialização clandestina de madeira, e posteriormente, tendo como objetivo transformá-la para a produção agropastoril.

As categorias geográficas, região, território e lugar foram conceitualizadas e compreendidas em suas peculiaridades, sendo fundamentais na análise do objeto de pesquisa.

Estuda as ações do Estado brasileiro, que define a região, a parte oriental da Amazônia, como estratégica e, por meio de planos nacional e regional de desenvolvimentos tentaram exercer um controle sobre ela.

O pesquisador identifica na pesquisa que as medidas adotadas seguiram os preceitos contidos na ideologia de Segurança Nacional, e por ela os movimentos sociais foram criminalizados. Comprova que os órgãos de informação, principalmente SNI e CIE, atuaram com muita ênfase para conter a organização camponesa e reforçaram o poder do Major Curió, que desde o final da Guerrilha do Araguaia constituiu-se no elemento chave da ditadura militar na região, na formação de um poder paramilitar e definindo um território extenso em que as ações foram duramente executadas mediante um temor do ressurgimento guerrilheiro.

A pesquisa analisa os conflitos que aconteceram depois da Guerrilha, fruto da luta camponesa para garantir a posse da terra. Fazendeiros, autoridades judiciais e policiais, além de grandes empresários aliaram-se às políticas implementadas nos planos da ditadura militar e transformaram a região em uma das mais violentas do País.
Foi possível comprovar as hipóteses de que os agentes do Estado brasileiro agiram fundamentados em princípios definidos pela doutrina de Segurança Nacional, que transformava em inimigos internos aqueles que reagiram aos roubos de terras públicas praticados impunemente e com o apoio das autoridades.

Assassinatos se sucediam, quando eram eliminadas lideranças sindicais, clericais e parlamentares, praticadas por pistoleiros e policiais a mando dos fazendeiros. Ao fim, as hipóteses comprovaram-se, na demonstração da existência de um poder paramilitar sob o comando do Major Curió, do uso da ideologia de Segurança Nacional para combater os que lutavam pela posse da terra e da execução de políticas que favoreciam aos grandes proprietários de terras e/ou empresas que investiram na região onde antes viviam famílias de camponeses.

Conclui que as ações do Estado brasileiro foram fundamentais para gerar as violências que caracterizaram a região diante de um temor obsessivo da possível reorganização do movimento guerrilheiro. Para tal, utilizou-se teoria abalizada centrada em obras de autores clássicos da geopolítica, tanto em suas origens quanto dos estudos brasileiros, neste caso daqueles vinculados às doutrinas militares geradas em torno da Escola Superior de Guerra (ESG); as pesquisas feitas anteriormente na região, que analisaram o fenômeno da ocupação como frentes de expansão e pioneira em trabalhos que se tornaram clássicos e os relatos de personagens que viveram o cotidiano da violência e estiveram marcados para morrer.