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Espetacularização Coercitiva

Sonia Fleury Publicado em 07.03.2016

O país acordou sacudido por um espetáculo grotesco, cujas imagens falam mais que todas as palavras. Um aparato policial gigantesco, com viaturas e policiais uniformizados para o combate e armados com fuzis e bombas cercavam a casa do ex-presidente Lula sob os holofotes da mídia.

O país acordou sacudido por um espetáculo grotesco, cujas imagens falam mais que todas as palavras. Um aparato policial gigantesco, com viaturas e policiais uniformizados para o combate e armados com fuzis e bombas cercavam a casa do ex-presidente Lula sob os holofotes da mídia. Tratava-se de espetáculo digno da prisão do maior traficante ou mafioso do mundo! No entanto, apenas queriam que o ex-presidente fosse depor acerca de acusações e indícios de condutas que mesmo que consideradas imorais, ainda não foram consideradas ilegais e muito menos criminosas.

 

Em entrevista coletiva representante da operação Lava-Jato informou que o show fora montado para proteger o ex-presidente de possíveis manifestações e assim também foi justificada a condução coercitiva, instrumento usado em situações em que a pessoa se recusa a prestar o depoimento solicitado. Essas prosaicas justificativas, que não guardam aderência com a realidade, já não têm a mínima importância, pois a imagem que ficará impregnada é a do ex-presidente sendo caçado e conduzido pela polícia. Para alegria de alguns, espera-se assim alcançar a verdade, como proposto no nome dessa operação, em uma clara assumpção do princípio autoritário de que os fins justificam os meios utilizados para alcança-los. O resultado, desejado ou não, seria o enfraquecimento do líder carismático inviabilizando sua volta como candidato nas próximas eleições presidenciais. No entanto, o carisma muitas vezes sobrevive ao líder e governa o país como Vargas ou Perón.

 

Com tal operação consolida-se a posição que tem sido assumida na operação da Justiça, Ministério Público e Polícia Federal, pautada em interpretação autoritária das prerrogativas do poder de investigação em detrimento das salvaguardas democráticas dos direitos individuais. “Tudo pela causa”!

 

Não importa se com isso a fogueira das paixões e da intolerância foi reavivada às vésperas de uma manifestação da oposição ao governo que tinha tudo para ser bastante inócua. Não importa se apesar da ausência de provas materiais a hiper politização promova uma reativação do pedido de impeachment. Tampouco importa se Lula poderá rearticular o PT e outros setores de esquerda ou se será arrasado. Ou ainda que o mercado tenha aposte no caos político para lucrar mais com o país em liquidação. O que importa é que a sociedade brasileira não pode abrir mão da institucionalidade e rituais democráticos tão duramente conquistados, rumando em direção a um populismo coercitivo.

 

Sonia Fleury é doutora em Ciência Política Professora Titular da EBAPE/FGV

Texto publicado originalmente no portal do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes)