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Copa do Mundo no Brasil: Complexo de terceiro-mundismo ou opção pelos pequenos

Paulo Schlickmann, Roberto Cunha e Patrícia Schatz Publicado em 18.07.2014

A Copa do Mundo FIFA 2014 representa a abertura das comportas da internacionalização, do rompimento do complexo de terceiro-mundismo e da opção pelos avanços das forças produtivas e relações de produção do Brasil perante o mundo.

O evento do torneio mundial de seleções promovido pela FIFA é espetacular, ainda mais no sentido de demonstrar o caráter expansivo e civilizador do capital em nível ampliando na expansão de sua fase imperialista. Nessa atual época, não haveria de ser diferente das casas cifradas dos bilhões de dólares, sendo que não há alternativa, é o domínio do capital e da manipulação em todas as esferas. O capital é o exímio promotor, suas articulações, confessadamente, exploram e utilizam os recursos para sua ampliação e seu domínio, para tomar espaço e se reafirmar.

Ora! Essa lei de acumulação do capital não se mediatizaria no Brasil de forma diferente na Copa do Mundo. Entretanto, vivemos a copa, conscientes dos problemas do país, pois não giraríamos a roda da história para trás. De esquerda à direita leríamos críticas das mais absurdas, com ou sem mundial. Resistir a Copa, como muitos infantilmente e ideologicamente fizeram antes do evento, seria como querer impedir a exploração do capital resistindo ao consumo dos produtos da Coca Cola, da Marfrig, da Visa ou da Sony. Portanto, é nesse pano de fundo, que se pretende com este pequeno texto, situar além da opção pela exploração, que a Copa do Mundo FIFA 2014 representa a abertura das comportas da internacionalização, do rompimento do complexo de terceiro-mundismo e da opção pelos avanços das forças produtivas e relações de produção do Brasil perante o mundo.

Sem dúvidas, é impossível tratar da Copa FIFA 2014, sem mencionar o caráter intransigente da instituição maior do futebol mundial e suas exigências que extrapolam o caráter da aceitação sem crítica. Notadamente o intuito aparente era de reacender o sentimento colonial, de terceiro mundo e de país sempre subordinado ao elo mandatário. Esse fenômeno ficou cada vez mais claro e foi posto em prova nos cortes arbitrários dos hinos nacionais, que parece algo simples, mas fere diretamente a particularidade das nações afetadas. Pode-se considerar também o fator cotas de patrocínio, de fornecedores e dos prestadores de serviços, todos, fechados incondicionalmente com a instituição.

Entretanto, o retrato do Brasil mudou perante o mundo, tínhamos as visões estereotipadas dos imperialistas, assimiladas inclusive pela mídia local. Hoje percebemos elogios que outrora não se fazia ecoar, desde a vocação para receber visitantes, dos bons e flexíveis serviços prestados e até as facilidades democráticas de convivência e aceitação das diferenças. Pois bem, de país retardatário a receptivo, democrático e livre em apenas um mês. Sem contar, que a imagem do Brasil mudou para os brasileiros!

Quando, em 1950, Nelson Rodrigues criou o “complexo de vira-latas” em referência a um pessimismo dos brasileiros diante dos outros países, estava referindo-se a um recorte histórico específico. Porém, a herança de “vira-latas” propagou-se pelas décadas sem releitura e sem crítica, podendo finalmente ser expurgado em 2014. Os brasileiros não precisam sentir-se inferiores aos estrangeiros, independente de vitórias ou de derrotas nos campos futebolísticos, pois o país tem demonstrado uma capacidade de desenvolvimento que cala aos pessimistas.

Via-se que a ideia de um Brasil potencial era barrada quando os fluxos de informações tinham menor intensidade e a mídia local colonizada impunha seu filtro. Que serve antes de tudo, para etiquetar e classificar o Brasil abstratamente como tônica sonora de desenvolvimento diretamente transplantado do centro do sistema para a periferia.

Sendo assim, a opção atual do Brasil deve ser pela internacionalização, da busca pela competitividade e das investidas no mercado exterior. Esse complexo movimento estaria articulado com o desenvolvimento e romperia com o complexo de inferioridade que abate os países periféricos. A linha de frente dessa investida internacional deve ser nos aspectos econômicos, sobretudo em setores dinâmicos e competitivos que o Brasil historicamente construiu.

Cabe destacar, entre outros, o setor de tecnologia no complexo petroquímico nacional, atualmente um dos maiores da América. Chama-se atenção para o setor de inovações e progressos técnicos da EMBRAPA no ramo de carnes, cereais e frutas. Além da aviação liderada pela EMBRAER, das grandes construtoras brasileiras líderes nas engenharias de construção e no pioneirismo nos negócios bioenergéticos e de bioresinas.

O Brasil, como 6ª economia mundial em geração de riquezas, detentor de uma das economias mais diversificadas do mundo, deve optar pela competitividade, pelo dinamismo e lutar intensamente contra o atraso relativo em relação aos países centrais. Essa luta somente é possível agarrando as oportunidades de investimento, intensificando os efeitos multiplicadores, expandindo suas relações comerciais internacionais e adequando-se institucionalmente para a concorrência. Serão as expansões consecutivas à Copa que garantirão passo a passo as soluções de problemas crônicos que assombram nosso país. Não é com inibição, nem com baixo desenvolvimento e muito menos com restrição do comércio internacional que o Brasil vai acumular vantagens e riqueza para investir em educação, saúde e infraestrutura.  O circulo virtuoso do desenvolvimento não é possível com baixa estima, nem com complexo de inferioridade.

A Copa do Mundo de 2014 representa um passo rumo às transformações estruturais, reconfigurações urbanas e criação de novos fluxos de investimentos. O planejamento é o passo para o progresso e melhoria do país, e nesse sentido o Governo Federal exerceu um papel fundamental ao elaborar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2007, quando o país foi oficializado como sede do mundial. O PAC participou da preparação do Brasil para o mundial através do investimento em infraestrutura urbana, mobilidade, setores energéticos e de telecomunicações, e também, programas de cunho social para melhoria da qualidade de vida da população. Em Porto Alegre, sub-sede de cinco jogos da Copa, as famílias removidas de áreas estratégicas para as obras de melhoria urbana foram realocadas em locais financiados por programas sociais do PAC. Dessa forma, o sucesso do mundial de 2014 precisa ser atribuído a capacidade de planejamento e execução de grandes obras infraestruturais, que tem como mérito maior os legados que disponibilizarão aos brasileiros após a Copa do Mundo.

Independente do padrão FIFA, estamos vivenciando o padrão Brasil. A grande parcela da mídia local, que sempre lutou contra a copa, vem ganhando milhões com os "merchans". Nossa mídia é realmente hilária, ela é contra a copa, mas seus cofres estão cheios. Está ai a essência da sociedade do espetáculo. O mais interessante é que meses de pessimismo em relação ao evento transformaram-se, em alguns dias, na euforia midiática a nível internacional. Os principais meios de comunicação que insistentemente mostravam os supostos problemas estruturais incorrigíveis do país mudaram seu discurso e já exaltam positivamente o nosso desempenho.

Nesse sentido, portanto, é o sucesso do Brasil que estamos a defender. O entusiasmo frente ao evento e seu transcurso, em vários aspectos, favoráveis para o país, impõem novos desafios. Parcela da população brasileira que se impôs nas ruas em junho de 2013 contra o mundial de futebol, alimentados pelo discurso da mídia e por ataques políticos visando o processo eleitoral após o megaevento, percebem que a Copa do Mundo serviu como um acelerador para novos investimentos econômicos e obras se infraestrutura urbana.

A propaganda positiva do Brasil marca uma nova fase, que está articulada com posições estratégicas a serem tomadas pelo Estado, rumo à integração com outros países. A questão central que permanece para ser debatida e respondida é em relação à quais projetos serão programados e planejados para articular o Brasil no mundo da melhor forma possível? Além disso, propõe-se outra questão decisiva! Vamos optar pelo eterno complexo de terceiro mundismo e continuar com a expectativa desarticulada e acuada pelas investidas grosseiras dos nossos concorrentes? Trata-se de um Brasil pra frente que queremos!