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Consumo x investimento. E as afinidades de esquerda

Elias Jabbour Publicado em 06.02.2014

A crise iniciada em 2008, e sem hora para acabar, ao atingir o nosso país – mesmo que tardiamente – acelerou a necessidade de construção de um bloco político de afinidades de esquerda. Esta tarefa vai se impondo na mesma proporção em que um crescimento pautado pelo incentivo ao consumo deu sinais de claro esgotamento.

A crise iniciada em 2008, e sem hora para acabar, ao atingir o nosso país – mesmo que tardiamente – acelerou a necessidade de construção de um bloco político de afinidades de esquerda. Esta tarefa vai se impondo na mesma proporção em que um crescimento pautado pelo incentivo ao consumo deu sinais de claro esgotamento.

É no momento em que crescimento brasileiro estanca e a taxa de investimentos mantém-se no mesma média dos últimos 20 anos é que se acirrará o debate de ideias sobre o futuro do país. Este modelo – inaugurado por Lula e mantido pelo atual governo – teve sua competência comprovada ao soerguer 30 milhões de brasileiros da linha da pobreza.

Por outro lado, o conjunto da obra deve ser tema de análise e crítica: a valorização cambial foi amplamente utilizada como meio de mediar o aumento da demanda com o devido controle da inflação. O resultado é foi uma nova vaga de desindustrialização e reprimarização de nossa pauta de exportações iniciada em 2005.

Uma “nova maioria” ou “bloco de afinidades de esquerda” poderá ser o porta-voz de uma batalha de cunho estratégico no seio da sociedade acerca de como o Brasil poderá superar este impasse. Afinal, o “modelo” pode ser proscrito pelo simples fato de caso a taxa de investimentos não alcançar um patamar mínimo de 25 % do PIB nos próximos anos, as chances de regressão dos ganhos obtidos nos últimos 10 anos é real e concreta. Não é uma questão de crítica pela crítica e sim algo que obedece as mais elementares leis econômicas.

Uma grande afinidade entre nossas forças políticas está na luta pela continuidade de um padrão de crescimento capaz de fazer o país se desenvolver distribuindo renda. Isso é amplo e existe pouca gente com coragem de falar o contrário. Nem mesmo a mídia e a assessoria de Aécio Neves tem coragem de dizer que a inflação é causada por políticas distributivas. Pensam assim, mas não falam.

Agora, existem questões – e polêmicas – que mais cedo ou mais tarde deveremos enfrentar. É possível crescer distribuindo renda ao mesmo tempo em que a “estabilidade da moeda” ainda é uma estratégia oficial de Estado ou, em outras palavras, o combate à inflação sempre deverá preceder qualquer plano mais geral de desenvolvimento? A pergunta deverá ser estendida para algo assim: é possível crescer distribuindo renda mantendo em pé o “tripé macroeconômico”?

Eu respondo que não. Não existe possibilidade de maiores avanços se mantidos os cânones de uma política macroeconômica que antes de ser agente de distribuição de renda é sua antípoda. O reverso da moeda do crescimento baseado no consumo está na própria natureza do Plano Real. Ao condenar o investimento de longo prazo em prol do curto-prazismo da “estabilidade monetária” a variável do consumo tornou-se a única forma possível de crescimento. E nossos governos democráticos aproveitaram amplamente essa margem de manobra. E essa margem de rodeio acabou e a realidade bate às portas da inteligência nacional progressista.

Por outro lado, entre a vontade e a realidade existe uma imensa distância. Em primeiro lugar, não existe o menor consenso acerca da relação entre taxa de investimentos x combate à inflação. Aumentar a taxa de investimentos ao patamar necessário à reprodução de nossa nação exige superar consensos estabelecidos e amplamente aceitos, inclusive em nosso campo.

Quem estaria disposto a comprar uma briga contra o senso comum acerca da premência de desvalorização cambial planificada, drástica redução do superávit primário e mais tolerância, no médio prazo, com a inflação? Quem estaria disposto a comprar a briga dos necessários déficits fiscais como causa e consequência da ultranecessária formação de uma poupança pública com vistas ao aumento do investimento público? Quem vai colocar na roda a discussão sobre o fim deste disparate da indexação de toda nossa economia pela taxa de referência utilizada para remunerar a dívida pública (SELIC)?

A transição da barbárie neoliberal ao Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento encontra-se no seu ponto mais sensível, mais complicado. Sensível e complicado pelo risco de apostasia diante dos limites das respostas dadas pelo nosso governo à crise financeira internacional em 2008/2009 e da atual ofensiva conservadora sobre a nossa política monetária.

O acúmulo de forças continua a ser uma lei objetiva do nosso campo político na atual quadra de desenvolvimento nacional por um simples fato: a omelete (crescimento pautado pelo investimento) demanda quebrar centenas de caixas de ovos. E uma característica nodal de uma formação social complexa como o Brasil está na lentidão e gradualismo de suas transições.

E uma característica da época histórica nacional está na ampla possibilidade de retrocesso. E muita coisa conspira para isso, inclusive a falta de afinidades, dentro da esquerda, sobre pontos cruciais tratados aqui neste artigo.