Artigos

A sombra de Lênin sobre Davos

Luiz Carlos Antero Publicado em 21.01.2014

As nove décadas do desaparecimento de Lenin completam-se em pleno encontro dos donos do mundo, na patética reunião do Fórum Econômico de Davos, que se debruça sobre os escombros de sua maior obra: a ampliação da concentração e da desigualdade em patamares inéditos na trajetória do desenvolvimento social.

Na tormentosa época atual, alguns fenômenos despontam aos nossos olhos com significativo simbolismo. Um deles, mais destacado na observação da realidade contemporânea, é o da crescente velocidade da decomposição do capitalismo especulativo, do imperialismo e da assombrosa devastação que produz em suas sombrias, violentas, prolongadas e críticas contorções.

Em antítese, desponta a trajetória do gradual revigoramento, na proporção inversa ao transcurso do tempo, das ideias e das expectativas de reversão do calamitoso processo de degradação civilizatório, desde a percepção das saídas para o imenso retrocesso mundial.

É o momento em que, entre impasses e sinais de uma caótica realidade política que sucedeu o desmonte das primeiras experiências socialistas, emerge renitente o ideário dos grandes protagonistas da humanidade que contribuíram para impulsionar à esquerda a roda da História. Nesse prumo, registra-se hoje mais um ano do desaparecimento físico de Lênin, há 90 anos, num panorama contemporâneo em que os povos miram e vivenciam um agudo momento das grandes contradições sociais e da luta de classes.

As nove décadas do desaparecimento de Lenin completam-se em pleno encontro dos donos do mundo, na patética reunião do Fórum Econômico de Davos, que se debruça sobre os escombros de sua maior obra: a ampliação da concentração e da desigualdade em patamares inéditos na trajetória do desenvolvimento social. Diante de seu voraz apetite pela acumulação, a devastadora constatação que aprofunda a tragédia social em escala planetária: um por cento dos seus capitalistas detém a metade da riqueza mundial.

Coube a uma “ONG humanitária” (Oxfam) revelar a dimensão da desigualdade social que incide sobre uma comprometida estabilidade internacional. Anuncia-se que 85 fortunas acumulam a mesma riqueza que 3,5 bilhões de pessoas — a metade da população do planeta —, num caótico ambiente atribuído sobretudo aos magnatas da gangorra financeira especulativa. De modo revelador, o dramático perfil contempla, em primeiro lugar, os EUA, onde 95% do crescimento gerado após a crise de 2008 seriam absorvidos por 1% da sua população. E, em seguida, a decadente Europa, onde as dez maiores fortunas equivalem a todos “os pacotes de resgate” que envolveram os países da região entre 2008 e 2010, num volume de cerca de 200 bilhões de euros.

O documento da Oxfam, intitulado “Working for the Few” (Governar para as Elites – Sequestro Democrático e Desigualdade Econômica), sentencia: “Este fenômeno global levou a uma situação na qual um por cento das famílias do mundo são donas de quase metade (46 por cento) da riqueza do mundo. No último ano, 210 pessoas tornaram-se bilionárias, juntando-se a um grupo restrito de 1426 indivíduos com um valor líquido combinado de 5,4 trilhões de dólares”.

Tais revelações somam-se aos indicadores expostos logo no início de 2014, segundo os quais as 300 maiores fortunas mundiais cresceram em 524 bilhões em 2013, reproduzindo uma concentração da riqueza relacionada diretamente à elevação das perdas salariais da classe operária e dos trabalhadores em geral, impactando os serviços básicos de saúde e educação, em especial, a ampliação da insegurança, da crise do endividamentos dos países, da aceleração do desequilíbrio econômico e dos conflitos sociais em todo o mundo. Ricos progressivamente mais ricos traduzem a realidade apresentada pela atualização da lista da agência Bloomberg das 300 pessoas mais afortunada do planeta.

Uma alucinante concentração e desigualdade sob a qual a única prosperidade assegurada para imensos contingentes da humanidade é a da miséria que se abate, em fome e subnutrição, segundo a FAO (Fundo para a Agricultura e Alimentação), sobre 1 bilhão de pessoas no mundo. Um ambiente no qual 14% da população mundial — um em cada seis dos seus habitantes — estão submetidos a um genocídio no qual se dizima uma criança com menos de cinco anos de idade a cada minuto, num sistema produtivo em que a produção de grãos (arroz, feijão, soja, milho e trigo) seria suficiente para alimentar mais de 10 bilhões de pessoas.

É neste ambiente que Lênin, protagonista da mais prodigiosa experiência socialista conhecida pela humanidade e o autor mais publicado e influente do século 20, rejuvenesce, redivivo na consigna da utilidade de se realizar a experiência da revolução, muito mais que escrever acerca de sua excelência. Do mesmo modo que a vida é incansável na arte de comprovar que de fato o tempo não para e, em seu curso, renova as energias das transformações indispensáveis à marcha que se antepõe à barbárie, posicionando a humanidade e os povos no rumo do progresso, da paz e da plena realização dos melhores propósitos civilizatórios.

* Desde o início dos anos ‘70 atuou no Jornal dos Esportes, O Globo, Última Hora e Diário de Noticias, nos semanários Opinião e Movimento. Assessor parlamentar no Congresso Nacional desde 1995.