Artigos

1963: Ngo Dinh Diem assassinado

John Prados Publicado em 09.12.2013

Os EUA decidiram, sim, em agosto de 1963, apoiar um golpe em Saigon, se Diem não se livrasse de seu irmão Ngo Dinh Nhu. Tomada a decisão, como política básica, jamais se afastaram dela nem reduziram o apoio.

“Nós da família [de João Goulart] estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance para elucidar esse caso. Eu sempre digo o seguinte: a exumação é apenas um dos meios para se chegar à verdade depois de tanto tempo. A Justiça brasileira tem que cumprir o seu papel legal, constitucional e, principalmente, soberano. Pedimos ao Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul que abrisse uma ação cautelar para nós solicitarmos a oitiva dos agentes americanos que tinham conhecimento da operação que estão sob proteção do Estado americano e moram dentro dos Estados Unidos”[João Vicente Goulart, em entrevista à Deutche Welle Brasil, 5/12/2013, em http://goo.gl/diKSYQ].

Com outubro já chegando a novembro, nos aproximamos do 50º aniversário do golpe militar apoiado pelos EUA no Vietnã do Sul, que derrubou o governo e resultou no assassinato do governador de Saigon Ngo Dinh Diem e de seu irmão e alter ego Ngo Dinh Nhu. Embora generais do Vietnã do Sul sejam os responsáveis diretos pelo golpe de Estado, o governo Kennedy apoiou-os com entusiasmo e lhes ofereceu o apoio da CIA.

Essa história foi objeto da Conferência “Vietnam, 1963”, semana passada. O golpe e muitas outras questões pertinentes foram discutidas na Conferência organizada pelo Centro Vietnã e Arquivos da Universidade Texas Tech, co-organizada pelo Projeto História Internacional da Guerra Fria do Wilson Center e pela Administração dos Arquivos e Gravações Nacionais dos EUA, nos dia 26-28/9/2013.

O papel da CIA no golpe em Saigon já está há muito tempo estabelecido, mas ainda restam controvérsias sobre quando e como o presidente John F. Kennedy passou a investir todo seu peso no apoio a generais golpistas do Vietnã do Sul.

Versão muito amplamente aceita [mas que Elsberg, nos “Pentagon Papers”, põe em dúvida (http://en.wikipedia.org/wiki/Cable_243) (NTs)] afirma que “uma claque” [orig. a cabal] altos funcionários conspiradores” de Washington, entre os quais o vice-secretário de Estado W. Averell Harriman; o vice-secretário de Estado para o Extremo Oriente Roger A. Hilsman; e o secretário do Conselho de Segurança Nacional Michael Forrestal teriam conspirado para que as coisas acontecessem como aconteceram. Segundo essa versão, aquela “claque de conspiradores” esperaram que o governo estivesse fora de Washington, num fim-de-semana em agosto de 1963, e aproveitaram o momento para fazer chegar uma instrução ao embaixador dos EUA Henry Cabot Lodge, no sentido de que desse apoio ao golpe dos generais. Segundo essa narrativa, outros altos funcionários, principalmente o diretor da CIA John McCone, ficaram enfurecidos quando souberam da manobra e denunciaram o que ficou conhecido como “Hilsman cable” [ou “Telegrama 243”, datado de 24/8/1963 (http://en.wikipedia.org/wiki/Cable_243)] em reunião do Conselho de Segurança Nacional dos EUA do dia 26/8/1963, o que teria levado o presidente Kennedy a rescindir as instruções enviadas a Cabot Lodge.

No final de 2009, os Arquivos Nacionais reuniram e apresentaram novas provas desse caso,[1] entre as quais as gravações reais de áudio das reuniões do Conselho de Segurança Nacional dos EUA sobre o Vietnã realizadas durante aquela semana crucial em 1963, provavelmente porque o presidente Kennedy tinha um sistema de gravação instalado em seu escritório na Casa Branca e no “Cabinet Room”, onde eram realizadas as reuniões do Conselho de Segurança Nacional. Essa prova, combinada com documentos relevantes da mesma época, mostram que essa versão padrão da história do telegrama de Hilsman não é acurada. Apresentei as provas e o caso, na Conferência Texas Tech.

A tal “claque” de funcionários de Washington não estavam simplesmente conspirando para enviar um telegrama de instruções: estavam respondendo a específica demanda de generais vietnamitas, que pediam resposta no mesmo dia. Foi coincidência que, naquele dia, os principais decisores estivessem ausentes de Washington. Embora os funcionários do governo estivessem divididos em facções baseadas nas respectivas preferências políticas, o “telegrama Hilsman” foi redigido pelas vias normais e liberado pelos procedimentos habituais.

Michael Forrestal, secretário do Conselho de Segurança Nacional, deu a Kennedy duas oportunidades [itálicos no orig. (NTs)] para deter a ação: uma ao comunicar que havia uma instrução em preparação; a segunda, quando entregou o rascunho da resposta ao presidente.

As gravações de áudio das reuniões do Conselho de Segurança Nacional do dia 26/8/1962 mostram claramente que os participantes só discutiram detalhes instrumentais com vistas a facilitar o apoio dos EUA a um golpe já preparado pelos generais sul-vietnamitas. Nenhum dos presentes fez qualquer objeção à política básica.

Ainda mais evidente: o tom das falas, nas fitas gravadas, não sugere qualquer ‘fúria’ contra membros de alguma “claque” de outros altos funcionários.

Muitos dos historiadores que relatam a versão antiga da história do “telegrama Hilsman” basearam-se numa entrevista (história oral) que Robert F. Kennedy gravou em meados dos anos 60s. Pelas gravações, sabe-se que Robert Kennedy não esteve presente na reunião do dia 26/8/1962 do Conselho de Segurança Nacional [itálicos no orig. (NTs)]. Os funcionários de Washington mantiveram a mesma atitude antes e depois da reunião. A CIA, por exemplo, teria sido o centro da ‘oposição’. Mas as fitas gravadas mostram que o chefe de operações da CIA no Extremo Oriente, William E. Colby, reuniu-se com Roger Hilsman imediatamente depois [itálicos no orig. (NTs)] daquela reunião do Conselho de Segurança Nacional; e que Colby esteve em contato com Hilsman duas vezes mais frequentemente nos dias depois de o apoio ao golpe ter sido decidido do que na semana anterior.

Mais que isso: antes de outra reunião com o presidente, dia 28/8, Colby falou várias vezes com Hilsman e parece ter ensaiado o briefing do Conselho de Segurança Nacional para o funcionário do Departamento de Estado. Depois [itálicos no orig. (NTs)] daquela reunião presidencial, Colby enviou instruções para a base da CIA em Saigon, para que listassem figuras do Vietnã do Sul adequadas para substituir Diem, ao mesmo tempo em que Hilsman instruía o embaixador Lodge a andar devagar nos planos para o golpe.

Mas a instrução para andar mais devagar foi efeito de novo relatório da CIA, que informava que os generais estavam adiando seus planos. Mas enquanto os sul-vietnamitas adiavam, os EUA continuaram nos preparativos decididos na discussão original do Conselho de Segurança Nacional. Essa prova está exposta em detalhes no Electronic Briefing Book n. 302.[2]  Em resumo, os EUA decidiram, sim, em agosto de 1963, apoiar um golpe em Saigon, se Diem não se livrasse de seu irmão Ngo Dinh Nhu. Tomada a decisão, como política básica, jamais se afastaram dela nem reduziram o apoio. ***

* Legenda: Ngo Dinh Diem. Essa foto foi tirada por um funcionário dos EUA em serviço no Vietnã, nunca identificado; está arquivada nos US National Archives (USNA) [Arquivos Nacionais dos EUA].

[1] Em http://www2.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB302/, atualizado dia 1/11/2013.

[2] http://www2.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB302/

Publicado em 2/10/2013, John Prados, Blog Unredacted (Arquivos da Segurança Nacional dos EUA)*
http://nsarchive.wordpress.com/2013/10/02/ngo-dinh-diem-in-the-crosshairs/

Traduzido pelo coletivo Vila Vudu