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O golpe das armas químicas na Síria

Serbin Argyrowitz Publicado em 17.09.2013

Os argumentos de que o governo sírio utilizou armas químicas de destruição em massa no subúrbio de Ghouta, aqui, em Damasco, no dia 21 do mês passado contrariam a lógica. Por que o governo sírio utilizaria armas químicas em uma região que controla e dar aos EUA e demais imperialistas o pretexto para intervirem? E por que o faria no dia em que os inspetores da Organização das Nações Unidas (ONU) chegavam em Damasco?

Damasco – Multiplicam-se na imprensa internacional os relatórios, testemunhos, depoimentos e dados revelando que os denominados insurgentes “contra o regime” são aqueles que, com o apoio da Grã-Bretanha, EUA e outros, possuem e utilizam armas químicas de destruição em massa, a fim de criarem os pretextos para um ataque imperialista das potências neocolonialistas contra a Síria.

Estes relatórios criam sérios rombos na propaganda dos imperialistas e revelam a forma pela qual eles intervêm nos assuntos internos dos países e criam as premissas para intervenções militares diretas.

Os argumentos de que o governo sírio utilizou armas químicas de destruição em massa no subúrbio de Ghouta, aqui, em Damasco, no dia 21 do mês passado contrariam a lógica. Por que o governo sírio utilizaria armas químicas em uma região que controla e dar aos EUA e demais imperialistas o pretexto para intervirem? E por que o faria no dia em que os inspetores da Organização das Nações Unidas (ONU) chegavam em Damasco?

Até a BBC de Londres formulou questionamentos semelhantes, observando que “havia algo curioso com relação ao acontecimento”. Jeremy Bowen, correspondente do canal britânico no Grande Oriente Médio, dizia, caracteristicamente, em sua correspondência que “muitos se questionarão por que o Governo da Síria utilizaria este tipo de armas na hora da chegada dos inspetores da ONU em Damasco?”

Os inspetores da ONU chegavam à Síria após convite do governo sírio, o qual havia avisado a ONU, em tempo, que os insurgentes estão tentando utilizar armas químicas, após ter assumido o controle de uma fábrica de cloro na região leste da cidade de Aleppo. E como medida preventiva, o Exército sírio havia recolhido o total de seus arsenal químico e distribuído em alguns poucos locais muito bem guarnecidos para que não caísse em mãos de insurgentes.

Relatos parciais

Em março deste ano foi apresentado um vídeo na internet mostrando insurgentes fabricando foguetes artesanais que continham CL 17, uma substância química que provoca vômito, desmaio, asfixia e crises epilépticas. E o vídeo mostrou que todos os que estavam em torno da substância química foram atingidos.

Os insurgentes atacaram com armas químicas forças do Exército sírio na cidade Khan Al-Assal, em 19 de março deste ano. Junto com seus aliados estrangeiros, incluindo o Governo dos EUA, atribuíram a autoria ao Governo da Síria. Mas até a ex-juíza internacional e inspetora principal da Organização das Nações Unidas (ONU) Carla Del Ponte desmentiu estas afirmações, após extensas e prolongadas investigações, em maio deste ano.

O último ataque com armas químicas em um subúrbio de Damasco foi executado no dia em que chegavam à Síria os inspetores da ONU, a apenas 10 milhas do local em que encontravam-se. Após a conclusão da investigação, o grupo de inspetores da ONU declarou, abertamente, suas dúvidas com relação ao ataque químico. Ake Sellstrom, chefe da equipe dos inspetores, caracterizou como “suspeitos” os testemunhos sobre o ataque.

Os comunicados sobre o ataque revelam grande dose de inexatidão. Alguns referem-se a mais de 1.300 mortos, outros somam menos de 200, e outros ainda, 350. O relatório oficial apresentado pela organização Médicos sem Fronteiras não foi redigido com base em suas próprias informações, mas baseadas em relatórios que recebeu de um grupo de insurgentes.

Sérios indícios de “fabricação” de dados existem, também, no relatório dos serviços secretos dos EUA, o que o Governo Obama invocou para justificar suas pretensões de atacar a Síria. O relatório é uma repetição do Iraque. “Existem muitos aspectos que não são formulados” no documento de quatro páginas, de acordo com Richard Guthrie, ex-diretor do Setor de Pesquisas de Armas Químicas no Stockholm International Peace Researche Institute (Instituto Internacional de Estocolmo de Pesquisas para a Paz).

Uma parte dos dados “comprovadores” refere-se a suposta escuta ilegal de comunicações entre membros do Governo da Síria, mas as gravações das escutas jamais foram divulgadas. Nos diversos diálogo gravados, os membros do Governo Obama estão muito longe de explicar o que, exatamente, aconteceu na Síria, e nada é comprovado de forma categórica no relatório dos próprios serviços secretos dos EUA.

Na realidade, o relatório parece mais com um trabalho escolar. Os dados comprovadores que alinha são extraídos, via de regra, de fontes anônimas e de redes sociais. Relata, caracteristicamente, que “existem referências em contas eletrônicas de pessoal médico sírio e internacional, vídeos, testemunhos, milhares de referências de usuários de redes sociais, localizados em pelos menos 12 localidades diferentes de Damasco, assim como referências de sites de jornalistas na Internet e relatórios de organizações não governamentais “excepcionalmente confiáveis”.

Vídeos suspeitos

As “fontes anônimas” que o relatório invoca são figuras oposicionistas, contra o regime, apoiadas pelo exterior, veículos de divulgação israelenses e da Arábia Saudita, o Observatório Sírio Para os Direitos Humanos – o qual congrega entre seus membros elementos das forças insurgentes – enquanto enleva a Arábia Saudita e os Médicos sem Fronteiras como modelos de democracia. Trata-se dos mesmos dois que apoiam os insurgentes e pressionam por mudança de governo na Síria e por imediata intervenção militar contra o regime de Assad.

Uma das “fontes anônimas” de espionagem invocadas são os serviços secretos de Israel, conhecidos pela desinformação de dados comprovadores. O relatório dos serviços secretos dos EUA sustenta, ainda, que “já tinham conhecimento avançado dos planos para um ataque químico” vários dias antes de ser executado.

A propósito, Jean Pascal Zanders, um dos maiores especialistas em armas químicas, o qual foi até recentemente investigador-chefe do Instituto da União Européia para Temas de Segurança, questionou na imprensa: “Por que o governo dos EUA não informou o mundo sobre aquilo que deveria acontecer e por que não emitiu avisos e advertências sobre a iminência de um ataque químico?”.

Alguns vídeos do ataque projetados na internet pelo aliados dos insurgentes sírios haviam sido enviados antes, ainda, de ocorrer o ataque. A credibilidade dos vídeos foi posta em dúvida também por especialistas em armas químicas. De acordo com relatórios publicados, as vítimas não apresentam os sintomas corretos que teriam se tivessem sido atingidas com gás Sarin, enquanto os que estão tentando socorrê-las não utilizam nenhuma proteção pessoal.

Quem deu armas a quem?

Análises na imprensa internacional envolvem abertamente Israel e Arábia Saudita no fornecimento de armas químicas aos insurgentes. Apesar das acusações dos insurgentes de que o Exército sírio desfechou ataque com armas químicas na cidade de Homs em dezembro do ano passado, a CNN revelou que “o Exército dos EUA treinava os insurgentes no manuseio e na proteção de armas químicas”.

Com o título de Batalhão de Destruição de Armas Químicas, os insurgentes ameaçavam utilizar gás neuroparalisante e divulgaram um vídeo no qual apareciam matando coelhos, como prova daquilo que planejavam fazer na Síria. No laboratório onde realizaram a experiência apareciam caixas de embalagens com a inscrição da empresa turca de produtos químicos Tekkim.

A imagem mostra um homem manuseando substâncias químicas dentro de um copo e começam a produzir gás, enquanto os coelhos que estão dentro de uma caixa de vidro têm espasmos até morrerem. Uma voz em “off” adverte: “Viram o que aconteceu? Este é destino de vocês, infiéis alauítas. Juro por Alá que vocês morrerão como estes coelhos, um minuto apenas após aspirarem o gás” (sarin).

Em 12 de maio deste ano, 12 membros das forças insurgentes foram presos na Turquia, por possuírem 4,5 libras do gás neurotóxico sarin, o qual foi usado no recente ataque aqui na Síria. Em 29 de janeiro do ano passado, o jornal britânico Daily Mail (em sua edição eletrônica) transmitiu a notícia de que “os EUA apoiam plano de ataque com armas químicas na Síria para acusarem de sua autoria o governo de Assad”.

Prosseguia o jornal: “E-mails que fluíram provam que a Casa Branca deu sinal verde para um ataque químico na Síria, para o qual poderia ser acusado o regime de Assad e, em seguida, promoverem a ação militar internacional no destruído país.”

“Um relatório divulgado na segunda-feira contém uma troca de e-mails entre dois executivos superiores em uma base britânica de fabricação. Nas mensagens trocadas reflete-se um “plano ‘que foi aprovado por Washington’, de acordo com o qual o Catar (um dos Emirados Árabes Unidos) financiará as forças insurgentes na Síria para utilizarem armas químicas”, completa o Daily Mail.

Arábia Saudita

O jornal francês Le Figaro divulgou que duas brigadas especiais – que haviam sido treinadas pela Agência Central de Inteligência (CIA) – de israelenses, jordanianos e árabes sauditas saíram da Jordânia para Síria para desfecharem um ataque em 17 e 19 do mês passado. Os EUA haviam investido muito no treinamento destas duas brigadas especiais. Se esta notícia é verdadeira, pode argumentar-se que a derrota destas duas brigadas levou ao ataque químico em Damasco, como Plano B para garantirem seu recuo e fuga.

Muitas das formas sobre como chegaram as armas químicas à Síria levam à Arábia Saudita. Segundo o jornal britânico Independent, “o príncipe Bandar bin Sultan, da Arábia Saudita, foi o primeiro a informar as potências ocidentais sobre o iminente uso do gás sarin pelo regime sírio, em fevereiro de 2013”.

Já um relatório de um jornalista jordaniano, cujas informações reproduziram os redatores da agência de notícias Associated Press e do jornal Daily Star, havia reunido testemunhos que informaram que “determinados insurgentes sírios receberam armas químicas através do chefe do Serviço Secreto da Arábia Saudita, príncipe Bandar bin Sultan, e eram os responsáveis pela execução do ataque”.

Outra informação publicada no Mint Press News apresenta o testemunho de uma mulher, membro das forças insurgentes, a qual afirmou que “a Arábia Saudita lhes forneceu armas químicas sem explicar-lhes que tipo de armas eram e como poderiam ser usadas”, acrescentando que “quando o príncipe árabe saudita Bandar bin Sultan fornece armas deve fornecê-las àqueles que saibam usá-las”.

A mesma informação acrescenta um outro testemunho, segundo o qual “Abdel Moneim (uma importante figura insurgente) disse que seu filho e mais outros 12 insurgentes foram mortos dentro de um túnel que é utilizado para o armazenamento de armas fornecidas por um combatente árabe saudita, conhecido pelo nome de Abu Ayesha, comandante de um batalhão de combate. Moneim disse que ‘as armas têm a forma de tubo, enquanto outras pareciam grandes garrafas de gás liquefeito’”.

EUA “ao ataque”

Os Estados Unidos e alguns aliados mantêm concentrados no Mediterrâneo Oriental, no Mar Vermelho e no Golfo Pérsico elevado número de forças navais. Em frente à costa da Síria está navegando o transporte de tropas anfíbio USS San Antonio, acompanhado pelos detróiers USS Stout, USS Mahan, USS Ramage, USS Barry e USS Graveley. Cada um destes esta armado com 90 mísseis Tomahawk, “atualmente em uso para prováveis ataques de mísseis contra a Síria”, como declarou uma autoridade da Secretaria de Defesa dos EUA semana passada.

No Mar Vermelho e no Golfo Pérsico, estão destacados quatro porta-aviões, e há um número desconhecido de submarinos nucleares. Por enquanto, não foram conhecidas as forças navais dos aliados ocidentais dos EUA dispostas no Mar Mediterrâneo.

Publicado no Monitor Mercantil