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Síria pode ser dividida entre as potências

Serbin Argyrowitz Publicado em 13.09.2013

A incondicional queda do regime de Assad constituirá a mutilação do Irã e seu isolamento dos vitais interesses periféricos (Hezbollah, populações xiitas da região, Palestina, acesso ao Mar Mediterrâneo e próximo a um ataque de Israel, além de outras consequências econômicas e energéticas), fato que, provavelmente, provocará ampla e imediata reação e envolvimento do Hezbollah e da Síria contra Israel, assim como contra alvos de interesses norte-americanos que, por sua vez, deveriam provocar um dominó de consequências imprevisíveis.

Se a pretensão dos EUA por uma limitada ação militar de caráter punitivo constitui pretexto para desfechar uma dinâmica ação para obtenção de solução final na região do Grande Oriente Médio (anotem que na Líbia a inicialmente anunciada pretensão era a garantir a zona de exclusão aérea), então o imbróglio complica-se mais ainda, considerando que a atual guerra civil será transformada em conflito de amplas proporções envolvendo países vizinhos.

Neste caso, as ações militares terão maior duração, diferentes características qualitativas – por exemplo, além de ataques de mísseis e bombardeios por aviões dos EUA e de algum aliado, mais atuante papel militar da Turquia, provável envolvimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), assim como de países árabes e de Israel, cujo objetivo é “rediagramar” o “dia seguinte” para a Síria e adjacências.

Entretanto, este “dia seguinte” na Síria poderá significar sua divisão em adequados mini Estados com objetivo de garantir a estabilidade local, assim como o atendimento dos interesses ocidentais e, se for possível, dos interesses da Rússia.

Contudo, a incondicional queda do regime de Assad constituirá a mutilação do Irã e seu isolamento dos vitais interesses periféricos (Hezbollah, populações xiitas da região, Palestina, acesso ao Mar Mediterrâneo e próximo a um ataque de Israel, além de outras consequências econômicas e energéticas), fato que, provavelmente, provocará ampla e imediata reação e envolvimento do Hezbollah e da Síria contra Israel, assim como contra alvos de interesses norte-americanos que, por sua vez, deveriam provocar um dominó de consequências imprevisíveis.

Turquia atrapalha

Em todo caso, o “dia seguinte” na região e, particularmente, em caso de não participação do Partido Baath de Assad no poder, estima-se, será particularmente instável (continuação da guerra civil, atentados terroristas com expansão aos países vizinhos e envolvimento de Israel), considerando os inúmeros combatentes mercenários de várias nacionalidades e doutrinas religiosas, o eventual acesso de extremistas islâmicos extremistas em armas de tecnologia avançada ou destruição em massa, assim como, a pendência dos problemas iraniano, curdo e palestino, tudo isso em sintonia com os interesses dos países da região do Grande Oriente e das ex e neocolonialistas grandes potências.

A mais provável região de imediata extensão do envolvimento militar é o Líbano, país que enfrenta uma análoga divisão de etnias, religiões e desmantelamento social. Destaca-se que os efetivos do Hezbollah aqui estacionados superam os 100 mil combatentes profissionais, e o arsenal da organização inclui mísseis terra-terra, terra-ar e terra-superfície, bem como número ignorado de foguetes e de armas antitanque.

A Turquia insiste e insta o Ocidente a desfechar pleno envolvimento militar (com sua própria participação) até a derrota final e a queda do regime Assad, a fim de poder participar da divisão do butim no “dia seguinte”, evitando assim evoluções indesejáveis em suas fronteiras.

Mas em caso de limitada intervenção ocidental, torna-se óbvio que desempenhará um papel militar secundário de apoio. Até o momento, a política periférica da Turquia não tem cumprido seus proclamados objetivos.

A Turquia tem contribuído, consideravelmente, para o recrudescimento da guerra civil na Síria. Suas fronteiras constituem Zona Franca para passagem de armamentos para os insurgentes da oposição e de grupos armados de qualquer natureza contra o regime Assad, entre os quais de extremistas islâmicos que mantêm relações com o terrorismo internacional.

Ainda, a Turquia anunciou previamente a exigência da queda do regime Assad sem, contudo, dispor dos meios adequados para a consecução deste resultado sozinha. Sua pressa e inconveniência na busca de participação no butim a tornaram parte do problema, sendo exposta diplomaticamente, porque enquanto alinha-se, militarmente, com o Ocidente na Síria, simultaneamente, está acusando-o de ser hipócrita com relação ao Egito.

“Choque e Pavor”

Constata-se que, a ONU está incapaz, mais uma vez, de aplicar os cânones do Direito Internacional, considerando que os interesses nacionais dos paíse-membros que compõem seu Conselho de Segurança constituem o freio na tomada de decisões.

Por enquanto, ações sob o patrocínio da ONU são realizadas em caráter “demonstrativo” e após convergência de interesses ou indiferente tolerância dos atuais países-membros do Conselho de Segurança. Recorda-se que o Ocidente, “sensibilizado”, e os organismos internacionais, inertes, não reagiram quando o então “neutro” Iraque utilizava armas químicas contra o Irã e contra os curdos do norte iraquiano.

A forma aventureira com a qual o presidente dos EUA, Barack Obama, tomou sua decisão final sobre a Síria indica que a doutrina “Exportação de Democracia” de Bush Jr., Dick Cheney e Donald Rumsfeld continua sendo a Bíblia do establishment político, econômico e militar dos EUA, instruindo a consecução de novas operações tipo “Choque e Pavor”, estreado no Iraque, com grand finale o enforcamento de Saddam Hussein no legítimo way of life do velho faroeste.

Publicado no Monitor Mercantil