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O declínio de Detroit é um fracasso típico do capitalismo

Richard Wolff Publicado em 05.08.2013

Detroit está aí para nos provar: a estrutura hierárquica das empresas capitalistas proporciona aos acionistas majoritários e aos conselhos diretores os recursos necessários (lucros corporativos) para cortar as boas condições que os sindicatos às vezes conquistam. É assim que o sistema funciona.

O capitalismo é um sistema que deve ser julgado por suas falhas assim como por seus sucessos.

O crescimento econômico dos anos 1950 e 1960, conduzido pela indústria automobilística, fez de Detroit um símbolo global da renovação capitalista após a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Os altos salários nas indústrias, com segurança e benefícios exemplares, eram tidos como a prova da habilidade do capitalismo de gerar e sustentar uma ampla "classe média", que poderia incluir até os afro-americanos. Os trabalhos na indústria automobilística se tornaram o modelo de emprego que os trabalhadores norte-americanos buscavam.

O fato é que estas condições de trabalho foram impostas aos capitalistas através de duras lutas sindicais, especialmente nos anos 1930. Uma vez derrotados nessas lutas, rapidamente reescreveram a história para que os bons salários e boas condições de emprego se tornassem algo que os patrões ''deram" aos trabalhadores. De qualquer forma, Detroit se tornou uma cidade vibrante e mundial nos anos 1950 e 1960, e sua cultura profunda e peculiar inspirou a música mundial tanto quanto seus carros influenciaram o mundo industrial.

Nos últimos 40 anos o capitalismo transformou esse sucesso em um fracasso abjeto, culminando agora na maior falência municipal da história dos EUA.
Aqueles que tomavam as decisões chaves - os acionistas majoritários da General Motors, Ford, Chrysler, etc, e o conselho diretor que eles mesmo selecionaram - fizeram escolhas desastrosas. Eles não conseguiram competir com os capitalistas europeus e japoneses e consequentemente perderam uma fatia do mercado. Eles reagiram de maneira inadequada e com atraso à necessidade de desenvolver tecnologias que poupassem combustível. Mas o que causou o maior impacto foi o fato de terem reagido a seus próprios fracassos decidindo deslocar a produção para longe de Detroit, para que pudessem pagar aos trabalhadores salários mais baixos.

Os fracassos competitivos das companhias automobilísticas, assim como suas mudanças de domicílio, tiveram duas consequências econômicas centrais. A primeira: destruíram as fundações da economia da cidade de Detroit. A segunda: acabaram com as possibilidades de se constituir uma classe média duradoura nos EUA. Os últimos 40 anos revelaram a incapacidade ou a falta de vontade do sistema capitalista de reverter esta situação.

Os salários reais deixaram de crescer nos EUA nos anos 1970, e não cresceram desde então, mesmo que o aumento da produtividade dos trabalhadores tenha gerado ainda mais lucros aos patrões. O aumento da dívida dos consumidores e o trabalho em excesso postergaram em alguns anos o impacto da estagnação dos salários reais no consumo.

Mas, em 2007, com a estagnação dos salários e o esgotamento da possibilidade de endividamento do consumidor, uma crise longa e profunda chegou. Os patrões usaram o desemprego resultante para atacar a segurança e benefícios trabalhistas além do setor público, que fora construído nos anos 1950 e 1960 para dar suporte à classe média (por exemplo, o ensino superior público de baixo custo).

Os capitalistas da indústria automobilística se tornaram líderes e Detroit expressou o declínio econômico resultante dessa liderança. Na crise profunda que enfrenta desde 2007, a General Motors e a Chrysler conseguiram resgates financeiros do governo federal, mas Detroit não. As companhias automobilísticas conseguiram estabelecer reduções salariais (através de um sistema de salários diferenciados, baseados na produtividade) o que fez com que a economia de Detroit, baseada nos salários, não conseguisse se recuperar, enquanto os lucros e produção das companhias conseguiram. Os fracassos do capitalismo privado obtiveram a cumplicidade do governo federal.

Apesar das vitórias do passado, obtidas a partir de heroicas greves e outras ações da União dos Trabalhadores Automobilísticos (United Auto Workers, em inglês), os poderes decisórios das companhias se mantiveram nas mãos dos acionistas majoritários e seu conselho diretor. Eles usaram esse poder para enfraquecer e até mesmo desfazer o que as lutas sindicais conseguiram conquistar. Os sindicatos se provaram incapazes de parar esse processo. Os capitalistas de Detroit então minaram as condições trabalhistas que os trabalhadores arrancaram deles - e assim destruíram a cidade do "sucesso capitalista" construída sob essas condições.

O declínio de Detroit, como o declínio paralelo da União dos Trabalhadores Automobilísticos, nos ensina uma lição inevitável. Os mesmos contratos que os sindicatos militantes conquistaram deram aos patrões grandes incentivos para que eles encontrassem caminhos por fora desses contratos.

A estrutura hierárquica das empresas capitalistas proporciona aos acionistas majoritários e aos conselhos diretores os recursos necessários (lucros corporativos) para cortar as boas condições que os sindicatos às vezes conquistam. É assim que o sistema funciona. Detroit está aí para nos provar isso. A solução não está mais nos contratos.

Se os trabalhadores tivessem transformado as companhias em cooperativas de trabalhadores, Detroit teria evoluído de maneira diferente. As cooperativas não teriam deslocado a produção, o que acabou com seus trabalhos, famílias e comunidade. O deslocamento da produção, uma estratégia tipicamente capitalista, foi a chave para a queda populacional de 1,8 milhão em 1950 para 700.000 pessoas hoje.

As cooperativas de trabalhadores talvez tivessem encontrado alternativas ao deslocamento da produção que poderiam ter salvado Detroit. Elas teriam, por exemplo, pago menos em dividendos aos proprietários e salários aos gerentes. Essas economias, se transferidas a um custo mais baixo para o consumidor, teriam possibilitado melhor preço em relação às montadoras japonesas e europeias do que aquele conseguido pelas Três Grandes de Detroit.

Não podemos saber exatamente o quanto a mais as indústrias de Detroit teriam se beneficiado do progresso técnico se elas tivessem se organizado como cooperativas de trabalhadores. Podemos supor que os trabalhadores possuem mais incentivos para melhorar a tecnologia em cooperativas que eles possuem e operam do que como empregados em empresas capitalistas. Por fim, cooperativas teriam produzido (e ajudado a promover) veículos de transporte coletivo ou outras alternativas aos automóveis, uma vez que eles viam que uma produção continuada de automóveis não garantiam as prioridades - emprego e o bem-estar dos trabalhadores - às cooperativas.

Que tipo de sociedade dá a um número relativamente pequeno de pessoas a posição e o poder para fazer decisões corporativas que impactam milhões dentro e no entorno de Detroit, enquanto excluem esses mesmos milhões de participarem das decisões?

Quando as decisões capitalistas condenam Detroit a 40 anos de um declínio desastroso, que tipo de sociedade alivia esses capitalistas de qualquer responsabilidade na reconstrução da cidade?

A resposta mais simples a essa pergunta: nenhuma economia genuinamente democrática poderia funcionar dessa forma.

Tradução de Roberto Brilhante para a Agência Carta Maior

Artigo publicado originalmente em The Guardian)