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Espionagem norte-americana contra empresas (alemãs)

Deutche Welle Publicado em 08.07.2013

Há suspeitas de que as agências estatais norte-americanas tenham roubado segredos industriais, o que daria aos EUA “vantagens desonestas” na competitividade global. A dimensão do embróglio revela a importância da busca implacável de Obama a Snowden, para punir exemplarmente, antes que surjam outros vazamentos.

Comentário de leitor, na mesma página:

“Basicamente, quanto mais os EUA caçam Snowden, mais aumentam as desconfianças de que
o governo dos EUA perdeu o controle das ações hostis contra aliados e empresas nos países aliados.
Os EUA parecem profundamente preocupados com o que mais possa ser revelado, por mais vazadores.”

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O escândalo da espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA preocupa empresas alemãs. Há suspeitas de que as agências estatais norte-americanas tenham roubado segredos industriais.

A confiança entre Washington e Berlin foi abalada pelo escândalo em torno das suspeitas de que o governo dos EUA, através de suas agências de segurança mantenha escutas clandestinas em prédios do governo alemão e da União Europeia. Reagindo com fúria contra a aparentemente total vigilância de comunicações por telefone e e-mail, políticos alemães exigiram imediatas explicações de Washington. Afinal, a União Europeia e a Alemanha veem-se como parceiras dos EUA.

Embora o ultraje talvez seja exagerado, há perguntas legítimas ainda sem resposta. Por exemplo: por que a Agência Nacional de Segurança dos EUA recolhe tal quantidade descomunal de dados? E para que finalidades os dados estão sendo usados?

Cavalo de Tróia

O presidente do Sindicato Social Cristão [orig. Christian Social Union] de pequenas empresas, Hans Michelbach, vê graves motivos de alarme na espionagem norte-americana contra instituições da União Europeia.

“A União Europeia não apóia terroristas, mas, sim, é forte concorrente na economia global” – diz Michelbach. Ele teme que não só instituições europeias, mas também as empresas europeias e alemãs estejam sendo espionadas, o que daria aos EUA “vantagens desonestas”.

O ministro da proteção ao consumidor da Alemanha, Ilse Aigner, alerta que a luta conjunta contra o terrorismo pode já ter sido convertida num “cavalo de Tróia” que “dá cobertura a espionagem contra empresas.”

Empresas alemãs também manifestaram surpresa e preocupação quanto à extensão da espionagem norte-americana.

“No passado já houve especulações de que conversas e atividades da Internet estivessem sendo gravadas por agências estrangeiras de inteligência” – disse Volker Wagner, presidente do Grupo de Trabalho para a Segurança Econômica. – “Mas, se for correto o que dizem os jornais, as dimensões são alarmantes.”

A ocasião faz o ladrão

Outros grupos econômicos e industriais também reagiram de modo semelhante. Querem saber que tipo de dados são gravados e como são usados. Até agora, a comunidade empresarial e comercial europeia apenas suspeita que as agências de inteligência dos EUA estejam roubando segredos industriais. Regra geral, tecnologias e produtos roubados só aparecem na mão de concorrentes em países estrangeiros anos depois de terem sido roubados.

Mas, segundo Wagner, a quantidade de dados recolhidos é um incentivo ao abuso.

“É preciso não esquecer que os serviços de segurança dos EUA empregam freelancers, empresas e consultores contratados, todos ‘terceirizados’. Todos esses são empresas privadas” – disse Wagner. “Estima-se que só em Washington cerca de 1,5 milhões de empresas privadas terceirizadas trabalhem para os serviços norte-americanos de segurança.”

Rösler disse que a espionagem norte-americana agride qualquer possibilidade de acordos comerciais confiáveis.

Não se sabe até que ponto essas empresas e consultores privados a serviço do Estado respeitam a lei. Rainer Glatz, da Federação Alemã de Engenharia, diz que é indispensável formalizar um tratado internacional que regule claramente a proteção de dados e a propriedade intelectual. Glatz entende que o setor privado tem de ser mais proativo e deixar de confiar no Estado para proteger segredos empresariais. As empresas reunidas na Federação Alemã de Engenharia já estão implementados medidas de proteção de seus dados (firewalls, dentre outras) privados.

“Além disso, temos de treinar empregados dos departamentos de vendas e técnicos em geral, para que cuidem de proteger segredos empresariais” – disse Glatz à DW.

Tratados comerciais entre EUA e União Europeia estão em risco

A Associação Alemã de Pequenas Empresas de Tecnologia da Informação tem abordagem diferente. O grupo sugeriu a criação de consórcios de empresas europeias, para contrabalançar o poder econômico dos EUA.

Mas as economias dos EUA e de países europeus devem integrar-se cada vez mais, no futuro. A União Europeia e os EUA contam com implementar um tratado de livre comércio. O ministro da Economia da Alemanha, Philipp Rösler, disse que embora Berlim tenha interesse em construir essa parceria com os EUA, o escândalo da espionagem teve impacto negativo naquele projeto.

“Os EUA agora têm de, bem rapidamente, explicar as acusações e garantir transparência” – disse Rösler.

A espionagem industrial causa à Alemanha bilhões de euros de prejuízos. A Corporate Trust, empresa de consultoria de segurança nos negócios, estima que, em 2012, os prejuízos tenham alcançado 4,2 bilhões de euros ($5,4 bilhões) in 2012.

Publicado em 3/7/2013, Deutche Welle, Alemanha
http://www.dw.de/germany-fears-nsa-stole-industrial-secrets/a-16925289

Traduzido pelo coletivo Vila Vudu