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Dilair Aguiar: Homenagem ao meu pai

Dilair Aguiar Publicado em 17.06.2013

Quando eu era bem pequeno, o Dynéas costumava ler para mim fábulas e estórias infantis, mas também, de um jeito muito próprio, falava de revoluções e das lutas dos povos, fazendo com que o Pequeno Polegar convivesse com os guardas vermelhos da Revolução Russa. Assim, se me entristecia pela desventura do Soldadinho de Chumbo, vibrava com a promessa de Spartacus e seu exército de escravos: “voltaremos, e seremos milhões!”

Já adolescente, li em algum lugar que, para muitas nações indígenas, ao morrermos nos juntamos aos nossos ancestrais e, ao nascermos, todos eles voltam a viver através de nós. Mesmo descrente do aspecto místico, gostava de especular sobre essa ideia, pensando que, em lugar de nossos antepassados consanguíneos, os avós, bisavós , tataravós e os demais que nos antecederam, nossos ancestrais bem poderiam ser todos aqueles que, em algum momento do longo curso da história da humanidade, se ergueram contra a opressão e pela liberdade.

Nossos verdadeiros ancestrais seriam então os gladiadores que desafiaram o poder de Roma, os camponeses alemães que tentaram levar ao extremo a Reforma Protestante e deram a vida em prol da extinção dos privilégios. Os negros e indígenas que combateram nos quilombos. Os proletários franceses que se sublevaram na Comuna de Paris. Tantos, tantos exemplos... Quantas derrotas contundentes, o amargo sentimento do fracasso inevitável, mas quantas e quantas vitórias esplendorosas, que iluminaram os séculos seguintes!

Hoje, meu pai, Dynéas Aguiar, após décadas de incessante luta pelo comunismo, partiu para se juntar aos seus companheiros de tantos combates, como Amazonas, Grabois, Arruda, Pomar e Arroyo, mas também a outros ancestrais, o espoliado agricultor mexicano que um dia disse basta e se somou ao Exército Revolucionário do Sul de Emiliano Zapata, ou o pequeno vietnamita que pegou em armas contra a dominação japonesa, francesa e estadunidense.
Os guerreiros zulus que puseram abaixo a arrogância das tropas britânicas na batalha de Isandlwana, assim como os indígenas de Touro Sentado que esmagaram a cavalaria do general Custer, em Little Bighorn. Estes são os nossos antepassados, os que passaram da indignação para a luta, sem temer consequências, e deixando um grandioso legado para todos os povos.

Dyneas, Amazonas, Arruda e tantos outros fazem agora parte da legião dos que, desde o início da História, lutaram pelo avanço da humanidade, derrubando tantos e tantos impérios que antes pareciam eternos e indestrutíveis e hoje não passam de meros e superficiais verbetes enciclopédicos. Eles são nossos ancestrais, nossos antepassados, a linhagem coletiva da humanidade.

Todos eles se foram. Será mesmo? Quem pode garantir que, quando um jovem palestino arremessa uma pedra contra um blindado israelense, seu braço não é também impulsionado pelo Osvaldão ou a Helenira? Ou no íntimo de um sem-terra, resistindo à prepotência dos latifundiários e seus jagunços, não ecoam as batidas dos pequenos tamborileiros da Revolução Francesa?

Todas, todas essas vidas e lutas estão interligadas. Se o Dynéas não está mais agora entre nós, pode porém estar voltado à vida na Grécia, Espanha, Itália, África, América Latina, Ásia, em todas as partes do mundo onde descendentes dessa formidável ancestralidade coletiva contestam a ordem vigente e, incorporando em si todos os milhões de antepassados combatentes, avançam, cada vez mais, na luta pelo fim da opressão, do jugo imperialista. E a cada gesto de revolta, de indignação, de luta, alí também estão nossos companheiros ancestrais.

Dynéas, agora você está entre os antigos, os antepassados, os ancestrais. Mas espero também, como garante a cultura indígena, que tanto você como os milhões de nossos ancestrais coletivos continuem a renascer em todas as partes do mundo, dando novas e valiosas contribuições para o avanço revolucionário, pelo fim do capitalismo, pelo fim da exploração do homem pelo homem.