Artigos

Maiorias silenciosas

Emiliano José Publicado em 15.04.2013

Mesmo com a democratização e a abertura política alcançadas, ainda cabe perguntar: e a ética dos jornalistas? Não basta dizer que são obrigados por seus patrões a deixarem de lado os preceitos da profissão. Parece que esses profissionais assumiram, nem que paulatinamente, a ideologia neoliberal, com todas as suas consequências

“Será necessária a ação política (no sentido estrito) para que se possa falar de “partido político”? (...) Muitas vezes o Estado-Maior intelectual do partido orgânico não pertence a nenhuma das frações, mas opera como se fosse uma força dirigente superior aos  partidos e às vezes reconhecida como tal pelo público. Essa função pode ser estudada com maior precisão se se parte do ponto de vista de que um jornal (ou um grupo de jornais), uma revista (ou um grupo de revistas) são também eles “partidos”, “frações de partido” ou “funções de um determinado partido”. Veja-se a função do Times na Inglaterra, a que teve o Corriere della Sera na Itália e também a função da chamada “imprensa de informação”, supostamente “apolítica”, e até a função da imprensa esportiva e da imprensa técnica.”

(GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1976, pp. 22-23.) 


Com o fim da ditadura, a imprensa brasileira, que vivera confortavelmente sob aquele regime e não se importava tanto com o Estado forte, inclusive na economia, passa à defesa do Estado mínimo, mudança que, naturalmente, não se dá de súbito, como num passe de mágica. Um novo ideário vai se constituindo no final dos anos 1970, início dos 1980, no momento da afirmação de uma conformação empresarial jornalística claramente fundada no mercado – conformação que, por certo, influencia decididamente os jornalistas do ponto de vista de sua ideologia, de sua compreensão do mundo. Isso terá consequências de longo curso. Queremos tratar desse aspecto neste texto.

A burguesia brasileira, intimamente associada ao capital internacional, compreende nesse imediato pós-ditadura que já é hora de modificar aspectos do Estado montado no Brasil após os anos 30 do século 20, destituindo-o de suas funções econômicas diretas tanto quanto pudesse. Os proprietários dos meios de comunicação, que compõem então um setor econômico dinâmico, que integram a burguesia brasileira, não são, obviamente, indiferentes a esse movimento, e incorporam-se a ele, particularmente a partir da Constituinte. O Estado mínimo passa a ser um dos objetivos da velha mídia, e ganha maior consistência com a afirmação do neoliberalismo em escala mundial.

O neoliberalismo, como se sabe, foi a resposta a uma crise do capitalismo, modo de produção que tem uma incrível capacidade de responder a crises. Não se aceitava mais a receita keynesiana. Chega com sua visão de que ao Estado cabe tão-somente assegurar a espontaneidade do mercado, verdadeira matriz revolucionária de todo desenvolvimento – ou, se quisermos ser mais precisos, matriz essencial da acumulação capitalista. O Welfare State soçobrava nessa nova fase. Não era mais funcional ao sistema, embora funcional, aqui, possa parecer inadequado, porque ele é resultado da luta dos trabalhadores, também.

O neoliberalismo reclamava, ao contrário do que se diz, um Estado forte. Mas forte em sua capacidade de reprimir os trabalhadores, diminuir o poder dos sindicatos, forte na contenção dos gastos sociais e na restrição às intervenções diretas do Estado na economia, generoso no socorro ao mercado quando necessário, capaz de promover reformas fiscais indispensáveis aos investimentos capitalistas e, muito importante, um Estado que considerasse a desigualdade algo muito saudável, útil ao desenvolvimento capitalista. Do ângulo de quem pensasse ao menos o Welfare State, para não nos referirmos ao pensamento socialista, uma fórmula profundamente cruel para todas as populações, e em especial para os trabalhadores.


Ao Brasil, o neoliberalismo chega tardiamente, depois de já haver deitado raízes profundas no Chile de Pinochet, quase um efeito demonstração sob uma ditadura sangrenta, e em terras europeias, a partir da experiência inglesa, iniciada no final dos anos 70 do século 20, com Margaret Thatcher. A luta política da Constituinte em terras brasileiras determinou a vitória de ideias avessas ao neoliberalismo. A Constituição de 1988 aproximava-se muito mais do Welfare State do que do receituário neoliberal. Caminhou na contramão da lógica mundial, ao menos na letra da lei.

Collor é quem inaugura a proposta neoliberal, embora seja de fato Fernando Henrique Cardoso que, a partir de 1995 e até 2002, a executa com rigor, a ponto de quase levar o Brasil à falência, privatizar tudo que pôde e fazer a festa do livre mercado. A receita do neoliberalismo indica sempre não desenvolver políticas voltadas para os mais pobres, e nisso também não faltou coerência a FHC, que foi rigoroso com sua particular teoria da dependência ao tornar-se um eficiente condottiero da burguesia brasileira e internacional.

Portanto, no pós-ditadura, que termina em 1985, vivemos um tempo de mutação. Há mudanças na política e na economia. Na estrutura e na superestrutura, para recorrer a uma tipologia antiga. Lembro-me agora, antes de adentrar o assunto que me interessa, de uma questão posta por Daniel Aarão Reis Filho – será que a sociedade brasileira não teve responsabilidade para com a sobrevivência da ditadura por 21 anos?

Houve, de alguma forma, sem dúvida, uma complacência da sociedade com aquele estado de coisas, senão a ditadura teria sido escorraçada antes. Havia um conformismo, que pode ser explicado de variadas maneiras, pela política, pela história, pela cultura, mas conformismo. É por esse caminho que chego aos jornalistas, à massa de jornalistas, ao meu objeto neste texto.

Enfrento, e o faço há algum tempo, uma pergunta incômoda: nessa nova configuração da imprensa, com uma tomada de posição pós-ditadura a favor do Estado mínimo e na sequência do neoliberalismo, que são irmãos siameses, qual a responsabilidade dos jornalistas? Normalmente, essa questão não é posta, é como se o problema não existisse. Eu próprio, ao me perguntar, hesitava em responder, e nem sei se o conseguirei. Tentarei abrir picadas na floresta.

Parece que há tão-somente a imposição do patrão, e a enorme massa dos produtores de notícias é obrigada a cumpri-la. Não tem sido posta a questão para os jornalistas – aos editores, pauteiros, chefes de reportagem, ao reportariado –, apenas aos redatores-chefes, estes, no Brasil, sempre predispostos a obedecer às ordens emanadas de cima.

Para a maioria dos que produzem a notícia, pode ser uma situação confortável. A responsabilidade fica com os patrões, evidentemente os que definem as diretrizes de cada veículo. Não creio que possamos nos acomodar com essa explicação.
Para insistir, a massa de jornalistas não foi, de alguma forma, assumindo, nem que paulatinamente, a ideologia neoliberal, com todas as suas consequências? Vamos tentar analisar isso, arriscar uma análise, mexer num vespeiro.

Se se pudesse falar de um exercício de hegemonia no interior dos próprios meios de comunicação, seria possível especular sobre o fato de que o aspecto principal do controle dos profissionais na velha mídia não é a coerção, mas o consenso, construído pacientemente, num processo quase imperceptível aos olhos dos próprios jornalistas. 

Arrisco outra hipótese: essa foi uma batalha silenciosa, que foi sendo perdida pelo pensamento de esquerda no território jornalístico, que, salvo exceções, está adstrito nos dias de hoje às iniciativas da internet, que ressalto serem da maior importância. São elas que nos impedem de estar inteiramente submetidos ao pensamento único da velha mídia.

Ouso dizer que falar em imposição dos patrões, simplesmente, parece algo estranho, pouco verossímil. Claro que o jornalismo brasileiro, com sua estrutura ainda muito baseada em famílias, tem uma característica quase patriarcal, no sentido do mando. Os patrões dão ordens, sim. Mas as ordens teriam dificuldade de ser realizadas não fosse a participação decisiva dos próprios jornalistas, que influenciados pelos editores e pela linha editorial de cada órgão, repetida ad nauseam, vão se envolvendo profundamente com a ideologia de cada veículo e, também, com as dos outros veículos da velha mídia, ideologias que não guardam quase nenhuma diferença entre si.
O neoliberalismo, com sua carga individualista, com sua visão privatizante do mundo, com seu desprezo pelas políticas voltadas para os mais pobres, com seu estímulo ao consumismo, com sua valorização dos investimentos capitalistas, com seu reforço de um Estado repressor, foi se entronizando nos corações e mentes dos jornalistas, sem que, talvez, se dessem conta disso.

Mais do que no restante da sociedade, na qual, no Brasil, as reações a ideologias dominantes são cada vez mais evidentes, poderíamos dizer, com Marx, que aqui, no território da velha mídia, no mundo dos jornalistas, a ideologia da classe dominada é a mesma das classes dominantes. Esse trabalho de construção cotidiana do consenso entre os jornalistas, de reelaboração permanente do padrão ideológico, da reafirmação de visões de mundo conservadoras, sempre vem revestido de aparências modernizadoras. Tudo o que não estiver vinculado ao dinamismo do mercado, da atividade privada, estará condenado ao fogo do inferno. O novo, o moderno, o progresso está vinculado à lógica do mercado. O que tiver cara de estatal receberá o rótulo inevitável do atraso.

A nova orientação jornalística adotada, os novos parâmetros, os novos pressupostos que vão sendo construídos não são elaborados, insista-se, à base da pressão constante sobre jornalistas inconformados, mas natural e suavemente, mesmo que se registrem, aqui e acolá, reações individuais, que podem ser contadas nos dedos.

Manuais de redação, orientação dos editores, fontes selecionadas a dedo de modo a sempre confluírem com a opinião da pauta, influência das agências de notícias internacionais permeada pela visão neoliberal de mundo, tudo isso cria uma circularidade, com os profissionais girando em torno de si mesmos, onde falta, naturalmente, uma visão crítica, onde inexiste abertura para outras visões.

Constitui-se um pensamento único, extravasado pelas páginas de jornais, pelas telas de tevê, pelas ondas das emissoras de rádio, que no Brasil, como se sabe, são controlados por algumas poucas famílias. Esse pensamento foi se construindo, a batalha no plano das ideias foi sendo vencida pelos conservadores, o pensamento neoliberal conquistou hegemonia nas redações – essa é uma conclusão que imagino bastante razoável.

E se na última década no Brasil, para além do fato de os jornalistas e editores estarem vinculados ao pensamento neoliberal, a atividade da velha mídia voltou-se para o combate sistemático ao projeto político que se iniciou em 2003, Lula à frente, seguido agora por Dilma, aí as coisas se complicam ainda mais. O fenômeno da partidarização ganhou caráter extremado, com graves consequências inclusive para a qualidade do nosso jornalismo.
E esse fenômeno, que não é incomum, que poderia ser normal se claramente revelado, que existe em outros países, no caso brasileiro assume feições nunca dantes vistas, pela sua capacidade de desconhecer fatos, de inventá-los, de desenvolver operações sistemáticas de combate ao governo, não importando, como já dito, se há correspondência com a realidade.

Com esse grau de partidarização, fez-se letra morta até dos próprios manuais de redação, todos eles preocupados, na teoria, a defender a natureza dos fatos e a obrigatoriedade de ouvir os diversos lados. Ninguém desconhece que ao abordar qualquer fato sempre haverá uma interpretação. Mas o jornalismo liberal, no qual a partidarização não é tão escancarada e tão desonesta como no Brasil, consegue tratar os fatos de forma menos obscena, menos manipuladora. E esse jornalismo liberal insiste em ouvir os diversos lados, para ao menos cumprir um dos preceitos que sempre advogou, para tentar garantir sua credibilidade, não perder legitimidade. No Brasil, nos dias de hoje, não há essa preocupação.

Estamos no pior dos mundos. Não há preocupação com os fatos. Não há preocupação em ouvir todas as fontes envolvidas. Importa só confirmar a hipótese da pauta, não importando os meios a serem utilizados, inclusive os ilegais, inclusive os chutes, inclusive barrigadas incríveis, inclusive os grampos, inclusive invasões de domicílios, o que seja.
Aqui, já fomos além de Rupert Murdoch. E a massa de jornalistas não tem nada a ver com isso? Trata-se apenas de uma cruel ditadura dos patrões?

Não creio. Mais do que nunca, impõe-se uma discussão profunda sobre isso. Para que não se transfiram responsabilidades ou, noutra hipótese, para que se assuma de peito aberto um modelo de jornalismo, se é possível defender esse modelo. Se for, que seja. Mas que não se vista de jornalismo objetivo e imparcial, como sempre pretenderam os manuais de redação.

Sabemos que o jornalismo chamado objetivo e imparcial é uma impossibilidade, ao menos se tomado ao pé da letra. Mas, levado a sério, praticado com os padrões éticos que advoga, contribui para a sociedade, e contém muito mais verdade que o praticado pela velha mídia no Brasil.

Será que as entidades sindicais dos jornalistas não se dispõem a discutir a cláusula de consciência? Será que não é possível reclamar alguma autonomia, alguma que seja, de uma atividade tão especial como é a do jornalista?

Será que não se exige a discussão sobre a responsabilidade social e política dos que lidam com uma mercadoria tão importante como a notícia, com sua extraordinária especificidade?
Será que não poderíamos ao menos pensar na ética do marceneiro, a que se referia Cláudio Abramo? O que quer dizer simplesmente a ética do cidadão que tem responsabilidades políticas com o país e sua gente?

Será que de fato ao jornalista, ao que escreve, ao que produz, não cabe discutir o que vai ao ar, o que se imprime, o que transita pelas ondas das emissoras de rádio? Será que aos jornalistas cabe apenas a tarefa de expressar a ideologia dos monopólios da comunicação no Brasil?

São indagações que deveriam tirar o sono de nossos profissionais, mas eu temo – e rezaria, pudesse rezar, para estar enganado –, que eles durmam o sono dos justos. Temo que eles acreditem que “estão fazendo jornalismo” ao cumprir a pauta que recebem, com a orientação que ela traz, vinda de seus editores.

Se erro, se ouvir protestos diante dessa análise, se ouvir vozes que contrariem essa visão fundada no pessimismo da inteligência, faço uma autocrítica tranquila, e com muito gosto.
Se estiver certo, vou torcer para que nossas entidades sindicais se movimentem, debatam, provoquem nosso reportariado, se é possível fazer isso. Se estiverem se movimentando, que insistam. Que se discuta a necessidade da cláusula de consciência. Porque sei que, às vezes, as entidades sindicais falam, propõem, e a mídia faz aquele costumeiro silêncio ensurdecedor.

A cláusula de consciência, ao menos, daria o direito de recusa de uma pauta que contrariasse os princípios do profissional, reafirmaria o princípio da liberdade numa profissão em que liberdade devia ser palavra sagrada. Podia não bastar para mudar o modelo, e certamente não bastaria, mas seria um passo, pequeno que fosse, na luta por uma nova hegemonia nas redações. Evidente, muito evidente, que a luta é muito mais ampla, mas na guerra de posições, à Gramsci, é sempre bom ir conquistando e consolidando trincheiras, à medida que avançamos. Se avançamos. 

Emiliano José é professor-doutor (aposentado) em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, jornalista e escritor, integrante do Conselho de Redação de Teoria e Debate 
 

Referências bibliográficas
ABRAMO, Cláudio. A Regra do Jogo: o Jornalismo e a Ética do Marceneiro. Prefácio Mino Carta. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

ABRAMO, Perseu. Um Trabalhador da Notícia. Prefácio de Ricardo Kotscho e Marco Aurélio Garcia. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1997.

GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1976.

_________________. Obras Escolhidas, volumes I e II. Lisboa: Editorial Estampa, 1974.

JOSÉ, Emiliano. Jornalismo de Campanha e a Constituição de 1988. Salvador: Edufba, Assembleia Legislativa da Bahia, 2010.

KUCINSKI, Bernardo. A Síndrome da Antena Parabólica: Ética no Jornalismo Brasileiro. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998.

KUSHNIR, Beatriz. Cães de Guarda – Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004. (Valho-me do livro, neste caso, pela referência à fala de Daniel Aarão Reis Filho, que está no livro dele, citado por ela, Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedade, p. 10. A citação, em Kushnir, está à p. 154).