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A ilha dividida da Dama de Ferro

A. C. Grayling Publicado em 10.04.2013

Margareth Thatcher afastou partes da sociedade britânica, mas aproximou partidos políticos, que passaram a se parecer, exauridos por 11 anos de discussão ideológica.

É difícil pensar em uma figura mais divisora da política britânica do que Margaret Thatcher - ao menos desde os tempos do antecessor a quem ela mais admirava, o primeiro-ministro do começo do século 19, lorde Liverpool.

Um ponto alto do mandato de Liverpool (1812 a 1827) foi a vitória sobre Napoleão em Waterloo. Seu ponto baixo foi rapidamente apelidado de Peterloo, a ocasião em que soldados britânicos usaram seus sabres e mosquetes para dispersar uma manifestação de trabalhadores que reivindicavam melhores salários, condições de trabalho e direito ao voto nos Saint Petefs Fields, em Manchester, em 1819. O mandato de 11 anos de Thatcher teve muita coisa em comum com o de Liverpool, tanto na duração como nas suas atitudes perante o trabalho organizado.

Seus admiradores a elogiam por quebrar os antes poderosos sindicatos da Grã-Bretanha e liberalizar o setor de serviços financeiros da City de Londres. Esses atos, eles dizem, detiveram o declínio econômico do país.

Seus detratores a acusam de destruir boa parte da base manufatureira do país, ao se recusar a ajudar os setores em dificuldade, e efetivamente aniquilar o setor de mineração ao emascular o Sindicato Nacional dos Mineiros. Seu governo será sempre lembrado pelas batalhas sangrentas entre trabalhadores e policiais, e pelo alto desemprego e o súbito aparecimento de desertos industriais que se seguiu.

Se a Argentina não tivesse invadido as Ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos) em abril de 1982, ela poderia não ter vencido a eleição de 1983. O orgulho nacional provocou um crescimento de seus índices de aprovação e a implosão do Partido Trabalhista, na oposição, garantiu o seu partido nas eleições por quase mais uma década.

A queda da própria Thatcher foi precipitada pela chamada Poli Tax, um imposto com taxa única altamente impopular sobre cada adulto, oficialmente conhecido como Community Gharge (imposto comunitário). Alei foi aprovada em 19,88 e causou reações violentas em muitas cidades, entre elas a manifestação de 31 de março de 1990 em Londres, antes da data programada para a lei entrar em vigor. O imposto acabou ajudando a precipitar a renúncia de Thatcher da chefia do ministério.

Thatcher deixou atrás de si uma Grã- Bretanha dividida e mudada. Desmantelou estruturas de governo locais, deixando Londres sem uma autoridade unitária para gerir seus assuntos, com o que a decadência urbana e os efeitos do desemprego não foram adequadamente enfrentados.

Sua atitude sobre como as pessoas deviam viver poderia ser descrita como a de Samuel Smiles ("autoajuda") ou de Gordon Gekko ("ganância... é bom"). Apesar de ser uma mulher que abalou o telhado de vidro político tornando-se líder de seu partido e depois primeira-ministra, ela pouco fez para promover a causa das mulheres em geral e não apoiava publicamente o movimento feminista. Não era muito simpática aos homossexuais tampouco, sugerindo em seu discurso de 1987 na Conferência do Partido Conservador que ninguém tinha o "direito" de sergay.

Quando os Tories foram derrotados pelo "novo" Partido Trabalhista rebatizado centrista de Tony Blair, em 1997, ela se tornou um fardo altamente tóxico para os conservadores. O tipo de política que ela impusera em seu próprio partido efetivamente o incapacitou por uma geração. Hoje, os Tories estão de novo no comando após mais de uma década de governo do Partido Trabalhista, mas somente em coalizão com um partido minoritário, os liberais democratas.

Os conservadores provavelmente não permanecerão no poder após a próxima eleição, prevista para 2015 ou antes, porque as divisões internas legadas por Thatcher ainda persistem, em especial com respeito a uma maior centralização e integração europeia - uma política que ela famosamente denunciou com as palavras "Não. Não. Não."

Hoje, os eurocéticos no Parlamento tomaram como refém a liderança partidária. Eles arrancaram do primeiro-ministro a promessa de realizar um referendo sobre a continuidade da participação britânica na União Europeia, apesar do fato de que abandonar a união poderia ter conseqüência econômicas desastrosas para o país?

O traço curioso do legado de Thatcher é que, apesar de ela ter desferido uma profunda machadada no coração da Grã-Bretanha, é a sociedade, e não a esfera política, que continua profundamente dividida com o aumento da distância entre ricos e pobres.

Por contraste, a política do país quase deixou de ser ideológica, como que exaurida pela era Thatcher. Todos os principais partidos políticos britânicos hoje procuram se apoderar do terreno central e as diferenças entre eles estão antes no estilo de gestão do que em questões de princípio.

A perda de ideologia da política britânica não é nem boa nem ruim. Era inevitável quando a Grã-Bretanha se tomou parte da entidade política maior da Europa - uma entidade política que Thatcher detestava veementemente - que impõe limitações sobre até onde a ideologia de qualquer partido nacional pode ir. Com seu desprezo pelo liberalismo compassivo, seu ódio aos sindicatos e seus princípios doutrinários de livre mercado, o impacto de Thatcher em seu tempo foi enorme. E seus efeitos persistem.

Ela começou a desregulação do sistema bancário que levou, em última análise, à contribuição da Grã-Bretanha pra a crise financeira global de 2008. Reverteu a tendência a uma maior integração social e a uma melhor distribuição de renda que havia caracterizado a Grã-Bretanha nas três décadas após 1945. As convergências de classe e riqueza do pós-guerra desapareceram e antigas divisões tornaram a aflorar, enquanto consumismo e incivilidade social rapidamente se seguiram à brusca reorganização da sociedade britânica.

Na Grã-Bretanha, essa é a principal lembrança dela que mais provavelmente persistirá depois que as exéquias houverem terminado.

Publicado no The New York Times (http://www.nytimes.com/2013/04/09/opinion/thatchers-divided-isle.html?ref=margareththatcher)

A. C. Grayling, um filósofo, é mestre da New College of the Humanities e autor, mais recentemente, de “The God Argument: The Case Against Religion and for Humanism.”

Tradução de Celso Paciornik para O Estado de S. Paulo